A FEIRA DO LIVRO 2026,
IA fará ‘matemática de verdade’ num futuro próximo, diz Marcelo Viana
Matemático e diretor do Impa faz diagnóstico sobre a inteligência artificial e reflete sobre o ensino da disciplina
01jun2026 • Atualizado em: 07jun2026Para Marcelo Viana, a inteligência artificial se tornou um “novo bicho-papão dos nossos dias” por despertar paixões intensas que tendem ao medo. Na tarde de domingo (31), o matemático e diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) atraiu o público d’A Feira do Livro para a mesa Inteligência artificial e o futuro da matemática, no Tablado Literário Bubu, em que conversou com a cientista da computação e pesquisadora Nina da Hora.
Autor de Histórias da matemática (2024) e A descoberta dos números (2025), ambos publicados pela Tinta-da-China Brasil, Viana discutiu como as IAs têm proporcionado avanços em seu campo de atuação — recentemente, por exemplo, a tecnologia contribuiu para a resolução de um famoso problema matemático, a Conjectura de Paul Erdős, que já perdurava por oitenta anos. Ele também falou sobre como o conhecimento dos números se tornou uma questão de cidadania e alertou para os perigos que uma tecnologia cheia de promessas pode trazer.
“Em pouco tempo, a IA estará fazendo matemática de verdade. Vai descobrir coisas, provar grandes teoremas”, antecipa Viana. Ele questiona o senso comum de que a inteligência artificial nunca poderá reproduzir a criatividade humana por ser uma máquina. “Antes tínhamos certeza absoluta de que um computador nunca jogaria xadrez melhor que nós. Isso é história, já aconteceu: hoje, nenhum campeão do mundo tem a menor chance contra uma máquina — elas sacam jogadas e estratégias que ninguém pensou”, destaca.
Mas Viana não vê isso como algo essencialmente negativo. “Não é por isso que o xadrez deixou de ser interessante. Aliás, está superpopular agora. Esse imaginário [negativo sobre as IAs] tem de ser um pouquinho temperado. Talvez o futuro da matemática seja como o xadrez: as máquinas jogam mais, ganham, mas a gente continua sendo feliz.”
Ensinar matemática
Viana defende que, com a invasão das IAs na vida humana, o papel do conhecimento matemático no dia a dia se tornará mais complexo e crítico. “Decisões importantes sobre as nossas vidas estão sendo definidas por ferramentas matemáticas como a IA”, diz. “As notícias que recebemos são definidas por algoritmos, casais se conhecem pela internet — e quem define se acontece o match é uma dessas ferramentas”, exemplifica.
Viana ainda recomendou o documentário Counted Out (2024), de Vicki Abeles, que defende uma reforma no ensino da matemática para tratar problemas sociais. “Matemática é poder; se você tem esse conhecimento, você usa. Se não tem, alguém vai usar contra você. É uma forma de exercer a nossa cidadania não ter medo da matemática e se sentir à vontade com ela”, diagnosticou.
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Ciente do preconceito e do medo diante da disciplina, ele lembra que, na infância, crianças costumam gostar de matemática e que essa afeição se perde conforme o ensino dos números se torna mais abstrato. “A matemática nessa idade faz sentido. É concreto e útil. O desafio para o professor é manter conexões com algo que faça sentido para a criança e o jovem”, explica.
Assombrados pela IA
Viana define a inteligência artificial como uma arma “assustadora” que tem a ver com a atual conjuntura internacional, que é muito complexa. “Estamos de volta a uma realidade de capitalismo selvagem com meia ou uma dúzia de barões usando o controle para manter o próprio poder”, sintetiza.
No longo prazo, a grande preocupação é a possibilidade das tecnologias de inteligência artificial substituírem uma parcela significativa das atividades humanas, tornando uma parte da humanidade inútil, em um novo tipo de capitalismo, que não precisaria do proletariado. No curto prazo, porém, Viana enxerga como mais urgente a questão da privacidade e da vigilância. “Há várias formas que esses instrumentos podem ser usados contra você. Nas mãos de pessoas bem-intencionadas isso já é perigoso; imagine nas mãos de um governo autocrático, por exemplo”, alerta.
“A matemática é do bem, mas pode ser usada para o mal”, conclui Viana.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Tinta-da-China Brasil e IMPA e teve interpretação de libras da EducaLibras.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.