Ministério da Cultura apresenta
A autora colombiana Pilar Quintana (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Pilar Quintana: ‘O lugar mais perigoso para uma mulher é a sua própria casa’

Muito aguardada pelo público, a autora colombiana comoveu ao falar de temores femininos, literatura latina e mestiçagem

01jun2026 • Atualizado em: 07jun2026

“O lugar mais perigoso para uma mulher é a sua própria casa”, disse a escritora colombiana Pilar Quintana durante a mesa de encerramento de domingo (31), no primeiro final de semana d’A Feira do Livro.

A autora de A cachorra (trad. Livia Deorsola, Intrínseca, 2020) participou de uma conversa mediada pelo escritor Joca Reiners Terron, na qual falou sobre o seu novo romance, Noite negra (trad. Elisa Menezes, Companhia das Letras). A tradução simultânea foi feita por Ramon de Barros e Lucien Beraha. A história retrata as angústias vividas por Rosa, uma mulher solitária que sofre os temores causados pelas ameaças de homens abusivos e pela selvageria úmida do Pacífico colombiano. 

O romance, que se passa na mesma casa de A cachorra, surgiu de duas inspirações, conta Quintana. Uma delas é o seu conto “La rumba, son, palo muerdo”, publicado originalmente em 2018 na antologia de contos colombianos Puñalada trapera (Rey Naranjo). A outra foi a memória de quando viveu, ao longo de nove anos, na selva colombiana com o ex-marido filandês. 

#MeToo

Assim como Rosa, a protagonista de Noite negra, Quintana e o companheiro também construíram juntos uma casa em um terreno inóspito. Ela afirma, no entanto, que a narrativa não é uma autoficção: 

“Não é uma novela autobiográfica. A Rosa nasceu em 1941 e eu, em 1972. Para os mais jovens, pode parecer o mesmo, mas são épocas diferentes — existe um intervalo de trinta anos”, disse a autora com bom humor contagiante, arrancando risos da plateia.

“Rosa foi uma personagem difícil de construir por causa dessa distância temporal. Tive que investigar muito. Mas o que temos em comum é a experiência de solidão”, explicou a autora.

Pilar Quintana e Joca Reiners Terron no Palco da Praça (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

“O que sinto que fiz foi concentrar os medos que experienciei por três meses. Eu vivia com a minha cachorra e a minha gata, mas não tinha com quem dividir os fatos e comecei a me questionar: do que é feita a nossa realidade?”

Esse período solitário se uniu aos relatos do movimento #MeToo (hashtag usada por mulheres vítimas de assédio para compartilhar relatos de abuso nas redes sociais). Foi quando Quintana começou a ter consciência das comuns experiências de medo e violência vividas por mulheres em diferentes partes do mundo:

“Comecei a sentir como as mulheres vivem em entornos hostis. Lendo sobre a vida das mulheres, aprendi que o lugar mais perigoso não eram os parques de madrugada”, disse Quintana. “Entendi que eu tinha uma história sobre assédio e sobre sempre estar num lugar onde nos sentimos em permanente ameaça.”

Selva

Na história de Rosa, a natureza e a selva assumem um caráter opressivo, distante da idealização do espaço bucólico acolhedor. Compreender a selva como mais um personagem, observa Quintana, foi essencial para a construção de um ambiente ambíguo:

“No mundo ocidental, temos a ideia de que a natureza é boa; e nós, na América Latina, também pensamos assim. Mas a natureza é boa e má; é luz e escuridão ao mesmo tempo, assim como os humanos.”

(Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Durante a conversa, a autora destacou a influência de outras escritoras colombianas na construção do universo selvagem de Noite negra. O romance dialoga com a escrita da conterrânea Elisa Mújica e das argentinas Sara Gallardo, Selva Almada e Samanta Schweblin:

“São escritoras que li e me encantam. Eu não sei se escrevi o meu romance em oposição a essa literatura selvática, mas ele bebe com certeza dessa tradição de mulheres escritoras.”

“Quando lancei o livro na Colômbia, as pessoas pareciam surpresas por abordar uma mulher vivendo na selva sozinha”, disse Quintana.

“Evidentemente, a minha história se alimenta disso, mas essas histórias costumam retratar experiências, especialmente, de homens na natureza, como os livros de Jack London ou Joseph Conrad. A diferença é que a minha personagem é uma mulher. Ela lava roupa e vive situações de um cotidiano, supostamente, feminino.”

Mito das três raças

A temática da mestiçagem e da complexa mistura dos povos que compõem a América Latina é uma das marcas do novo romance da escritora colombiana. 

Rosa, conta Quintana, investiga a cor da pele e se identifica como uma mulher negra ao se deparar com experiências de discriminação e desconfiança. Fora do livro, a autora analisa que a discussão racial ainda precisa avançar na Colômbia: 

“É uma conversa pendente. Eu, assim como a minha personagem, somos de Cali. Meu avô era um típico colombiano negro, mas eu jamais poderia dizer, na Colômbia, que sou negra, porque não sou. Lá, eu sou mestiça e ser mestiça é ser branca”, explica.

“No colégio nos diziam que nós temos três tipos de sangue: o índigena, o espanhol e o negro. E nós, mestiços, somos blindados de sermos racistas, não é verdade? Mas isso é falso”, diz Quintana.

“Não é o mesmo ser uma menina branca em um bairro privilegiado de Cali, como é o lugar onde eu cresci, e ser uma menina negra nascida no Pacífico colombiano, em uma comunidade pobre. Essa menina vai sofrer discriminações estruturais e sutis, de todo tipo, por causa da cor da pele”, concluiu a autora, sob aplausos.

(Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.