Ministério da Cultura apresenta
As escritoras Natalia Timerman e Camila Appel e a jornalista Beatriz Muylaert (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Natalia Timerman e Camila Appel narram perda, luto e culpa 

Autoras de livros sobre suas mães, romancista e jornalista conversam sobre o poder da escrita para falar da morte

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Como escrever sobre a proximidade da morte materna? Ou com a perda de memória e identidade da mãe? Por que publicar algo tão íntimo? As escritoras Natalia Timerman e Camila Appel trataram desses temas na conversa com Beatriz Muylaert, editora-executiva da Quatro Cinco Um, e falaram sobre o processo de escrita de seus livros, Antes que apague (Companhia das Letras), recém-lançado por Timerman, e Enquanto você está aqui (Fósforo), de Appel — e sobre todas as implicações de falar de uma mãe com Alzheimer e do fim da vida. 

O novo romance de Timerman parte de diários que escreveu acompanhando a mãe com Alzheimer, mas a escritora contou que a ficção se sobrepôs ao autobiográfico. “Ficção é uma das maneiras de falar a verdade”.  

A escritora Natalia Timerman (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Já Appel foi movida pelo temor de perder os pais. Acompanhando internações em hospitais, queria um livro com informações que a ajudassem nesse momento. “Quis escrever para ser útil a alguém num momento de vulnerabilidade”, disse a autora da coluna “Morte sem tabu”, publicada na Folha de S.Paulo. “O que me movia era o pânico de perder pai e mãe. Não se fala sobre a morte”, disse. “Escrevi como uma carta para minha mãe, respondendo a um livro que ela escreveu para mim quando eu era adolescente.” 

Culpa

Para encarar o assunto que todos tentam evitar, as autoras precisaram enfrentar seus medos e o sentimento de culpa. “Escrever partindo de material autobiográfico é um sacrifício grande da própria intimidade. Mas não posso deixar de escrever diante do que preciso descobrir”, disse Timerman, que além de escritora é psiquiatra. 

Apesar de escrever sobre morte há doze anos na coluna, Appel teve dúvidas se deveria publicar o livro. “Dei para a minha mãe ler; se ela se sentisse exposta, eu não publicaria”, contou. A mãe, a dramaturga Leilah Assumpção, aprovou tudo, menos o título da primeira versão (Para quando você se for), e sugeriu o título acatado pela filha. 

No centro da dor e da culpa, está a difícil relação entre mãe e filha que move os dois livros. “A relação com a mãe não pode ser só suficientemente boa; ela tem que ter uma falta, falhar. Talvez o melhor que uma mãe pode dar ao filho seja fazer com que ele saia desse colo para o qual a gente sempre quer voltar”, disse Timerman. Seu novo romance, que inclui a descoberta de um segredo da família, foi “um esforço de montar um quebra-cabeça que nunca se completa, fadado ao fracasso”. 

A escritora Camila Appel (Flavio Florido/Terebi/A Feira do Livro)

Appel lembrou de um documentário que fez sobre o Alzheimer, no qual um rapaz que cuidava da avó acometida pela doença relata o desespero na primeira vez em que ela não o reconheceu. Após várias tentativas de fazer a avó lembrar, sem sucesso, ele ouviu da idosa: “Esqueci quem você é, mas não que eu te amo”.

Timerman viu o relato do filme da colega como uma resposta à sua falta e de outras pessoas que lidam com a perda da memória de parentes. “Ainda existe no mundo alguém que posso chamar de mãe. Cognitivamente, ela pode não saber quem eu sou, mas, como disse esse menino, ela me reconhece e eu me reconheço na relação com ela.” 

Morte na prática

“A hora certa de falar da morte é agora”, afirmou Appel, que, para escrever seu livro, se aproximou da concretude do fim.  Acompanhar necrópsias, conversar com coveiros, discutir o testamento a ajudaram a perder o medo e encarar o tema.

A mudança, para Timerman, veio depois da morte do pai, sobre a qual escreveu em As pequenas chances. “Quando vi os livros de cabeceira deixados por meu pai, vi que a gente nunca vai ler todos os livros que quer, nem fazer tudo o que quer. É óbvio, mas só quando a gente se depara com a morte, percebe que a vida é agora. Mudou meu jeito de lidar com a literatura e até o jeito de ser médica”, contou. 


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Companhia das Letras e Fósforo e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.