A FEIRA DO LIVRO 2026,
Egana Djabbárova e Alberto Martins exaltam a poesia da vida e condenam a guerra
Poeta russa de origem azerbaijana exilada na Alemanha critica discursos que tentam legitimar violência como parte de tradições culturais
31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026Os poetas Egana Djabbárova e Alberto Martins exaltaram a poesia da vida na mesa Mãos destinadas à escrita, na tarde deste sábado (30), no Auditório do Museu do Futebol, que contou com tradução simultânea de Ramon de Barros. Já o uso da violência como instrumento de poder, especialmente contra mulheres, foi denunciado pela russa de origem azerbaijana, que desde 2024 vive na Alemanha.
Autora de As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita, recém-lançado pela Ars et Vita em tradução de Maria Vragova, Djabbárova contou à mediadora Marina Darmaros que a principal questão que tentou responder com o romance é se a violência é parte da nossa cultura.
“Os homens dizem que fazem algo violento porque é parte da tradição. Nesse romance eu digo que não — a violência não é parte de nenhuma cultura”, afirmou Djabbárova, que recebeu aplausos do público.
“Mas por que eles usam esse discurso toda vez?”, continuou ela. “Porque a violência é uma ferramenta de poder, uma forma de controlar; querem legitimar a violência dizendo que é parte da tradição. Se você é mulher, você constantemente tem esse medo. Vi tantos exemplos de mulheres apavoradas em suas casas. Queria dar voz a elas — que elas dissessem algo através do meu corpo.”
Na estreia de Djabbárova na prosa, memória familiar e autoficção são articuladas a partir de diferentes partes do corpo. É uma forma de dialogar com o seu corpo disfuncional, contou ela, que foi diagnosticada com distonia — doença neurológica que pode afetar a mobilidade — e por isso usa um neuroestimulador. “Minha doença não tem cura, mas com esse equipamento sou funcional. Minha escrita acontece por causa dessa máquina; é minha melhor amiga”, brincou a poeta.
Trocas
Companheiro de Djabbárova na conversa, Martins ressaltou o que considera bonito no livro da colega russa. “Tem violências muito fortes que acontecem, mas ao mesmo tempo não tem a ruptura — tem o amor no meio dessa violência um resgate dessa relação. Não é um corte com a tradição, o passado; ela consegue trazer as duas verdades juntas.”
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Em 2025, Martins lançou Boris e Marina, pela Companhia das Letras. A partir de cartas reais trocadas pelos poetas Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke, o autor constrói um novo livro de poemas, gênero exaltado por ele na conversa. “Se um trabalho é bom, ele tem poesia — pode ser prosa, cinema, dança. A poesia é aquele acontecimento a mais que faz com que as coisas sejam elas e mais alguma coisa”, definiu.
Ao contrário de Pasternak, Tsvetáieva e da própria Djabbárova, Martins admitiu não ter uma experiência concreta de exílio. No entanto, o poeta nascido em Santos (SP) lembrou que, de certa forma, fazer poesia é exilar-se do mundo.
“Existe toda uma tradição, desde Rimbaud e Mallarmé, sobre a condição da poesia, em relação à realidade do mundo, ser de exílio. E o mundo é de tal forma hoje em dia que a maioria das pessoas experimenta certo exílio em diferentes planos. Não na concretude da experiência vital da Egana, mas o exílio está presente em nossas vidas em muitas dimensões”, disse ele.
Guerra e Clarice
Djabbárova fez uma crítica contundente a todas as guerras, a começar pela invasão da Ucrânia pela Rússia. “Pessoas estão morrendo agora nesse minuto”, disse ela, que recordou o conflito de trinta anos entre Armênia e Azerbaijão pela região de Nagorno-Karabakh, de onde saiu o seu pai. “Nasci no ano em que a guerra começou; eles deixaram a casa deles e nunca voltaram. Meu pai abria o Google Maps e ficava buscando pela casa deles para me mostrar.”
“Eu via como era doloroso para ele”, prosseguiu Djabbárova. “Durante a guerra, as pessoas se radicalizam e começam a odiar. É por isso que nunca devemos começar guerras — é o jeito mais fácil de odiar. Vi isso do lado armênio e do lado azeri.”
“Meu pai também foi um refugiado de guerra — a família dele — e às vezes penso se parte da minha herança é não ter um lar. Espero que não”, confessou ela, que disse não sentir mais a esperança no futuro que sentia na adolescência. “Com a guerra na Ucrânia, com tudo que está acontecendo, a repressão, não acho que exista futuro. Tenho planos para um mês no máximo; Deus queira que eu esteja viva.”
Para não dizer que não falaram de flores, Djabbárova revelou ter lido Clarice Lispector em russo. “Trabalhamos com mulheres, afeição e corpo. Claro que é diferente, mas, na temática, a linguagem metafórica que ela usa — gosto muito de imagens metafóricas. Mas a verdade é que não conheço o suficiente do Brasil. Vou fazer uma lista de must read da literatura brasileira; lerei tudo e voltarei mais inteligente.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Ars et Vita e Editora 34 e teve interpretação de libras da EducaLibras.
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.