Ministério da Cultura apresenta
O escritor italiano Sandro Veronesi (Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

‘Não posso escrever do jeito que o mercado quer que eu escreva’, diz Sandro Veronesi

O premiado escritor italiano conversou com o jornalista Ruan de Sousa Gabriel sobre escolhas literárias e a dor do homem comum

31maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Um dos nomes mais esperados do sábado (30) n’A Feira do Livro, o italiano Sandro Veronesi subiu ao Palco da Praça muito aplaudido e enfrentou, com calma e bom-humor, alguns incidentes técnicos com os fones da tradução simultânea, feita por Flávia Smith. Enquanto ele e o jornalista Ruan de Sousa Gabriel, que mediou a conversa, esperavam a solução do problema, o escritor se disse impressionado com o grande público (“não estou habituado”) e propôs começar a conversa em sua língua nativa:

“São cinco milhões de italianos em São Paulo. Estão todos aqui. Se eu tivesse nascido em São Paulo, e não em Florença, seguramente estaria aqui n’A Feira do Livro [na plateia]. Sou um apaixonado pelos livros — dediquei minha vida a eles. Estou entre vocês.” 

Resolvidas as questões técnicas, Veronesi falou de sua escrita e de temas centrais em seu romances Caos calmo, O colibri e Setembro negro, publicados no Brasil pela Autêntica Contemporânea em tradução de Karina Jannini. E do mercado editorial.

“Não posso escrever do jeito que o mercado quer que eu escreva. Compreendo meus limites. Se o mercado é feito de homens e mulheres, haverá alguém para ler o meu livro”, disse o escritor, duplamente vencedor do prêmio Strega. 

Sandro Veronesi e o jornalista Ruan de Sousa Gabriel (Terebi/A Feira do Livro)

Para ele, há enganos nas escolhas editoriais – citou, entre eles, a dificuldade de emplacar um livro de contos porque livros do gênero não vendem. “O que o mercado diz, hoje, desmente amanhã e recupera depois de amanhã.”

Essa liberdade frente às regras do mercado foi exercida especialmente em O colibri, contou. “Não tinha garantia de que funcionaria. Não dormia e, de noite, acordava minha esposa para dizer que teríamos de viver com o salário dela, porque esse romance não faria sucesso. Conto isso para dizer que essa liberdade custa caro.” 

O colibri rendeu para o autor o prêmio literário mais importante da Itália e foi considerado “um romance magistral” pelo britânico Ian McEwan, um dos ídolos literários de Veronesi, que, ao receber o elogio, jogou-se no chão. “Só tinha me jogado assim quando fui a Barcelona torcer para a Juventus na Champions League. Quando recebi o elogio do McEwan, me joguei de novo. Tenho provas, minha esposa me fotografou estendido no chão.”

A dor comum

Veronesi também falou sobre luto, sofrimento e relações familiares, assuntos recorrentes em sua obra. “Em nossa época, procuramos evitar o sofrimento de todas as formas. Esquecemos que viemos ao mundo com a dor; ela faz parte de nossa existência”, disse o escritor, que contou sempre perguntar, ao fazer entrevistas, para que serve a dor — “para ver se é uma ideia fixa só minha” e acreditar que a dor é algo compartilhado. “Sofremos até o que não sofremos; [a dor] é de todos. Aceito e, como qualquer animal, não tento fugir dela.” 

Já a família, outro tema de seus romances, é, para ele, fonte de dor. “A minha era uma dessas famílias felizes do Tolstói [“Todas as famílias felizes são iguais”]; não eram personagens de romance. Mas o núcleo familiar é potencialmente uma zona de conflito infinito”, afirmou o escritor, para concluir que “o homem passa a miséria para outro homem”. 

Além da família comum, o homem comum é protagonista na obra do escritor. Veronesi afirmou que é atraído pelas coisas heroicas que as pessoas fazem sem estar preparadas e sem que ninguém saiba. “Minha forma de rezar por elas é colocar em meus romances essas pessoas comuns enfrentando problemas difíceis.” 

O escritor contou que, quando pessoas o procuram dizendo que ele escreveu a história da vida delas, sua resposta é um “sinto muito”, embora fique contente. “Ninguém demonstrou irritação por eu estar contando sua própria história. Posso continuar inventando para que o leitor possa dizer: ‘esse sou eu’.”


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Autêntica e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.