Ministério da Cultura apresenta
O historiador, músico e babalaô Luiz Antônio Simas e o romancista Alberto Mussa (Terebi/A Feira do Livro)

A FEIRA DO LIVRO 2026,

Luiz Antonio Simas: ‘Tudo que está sendo cantado está vivo’

Encontro musical entre historiador e o também carioca Alberto Mussa convoca leitores a se encantar com a cultura brasileira

30maio2026 • Atualizado em: 07jun2026

Um encontro inspirador e afinado entre o historiador, músico e babalaô Luiz Antônio Simas e o romancista Alberto Mussa embalou a manhã de sábado (30) com muita cantoria e especulações acerca de passados e futuros ancestrais n’A Feira do Livro

A mesa Encantarias brasileiras, mediada pela jornalista Fernanda Mena, da Folha de S.Paulo, reuniu os autores cariocas em um debate acalorado, provocando uma conexão direta entre as tecnologias e saberes da rua e do samba das encruzilhadas do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Simas, autor de São Jorge: o santo do povo e o povo do santo (Planeta), e Mussa, que lançou Meu destino é onça (Record), percorreram séculos de memórias e invenções para discutir um Brasil para além da historiografia oficial. Os autores também trataram de como a presença dos encantados desafia a lógica funcional.

Discutir encantarias e espalhar a palavra, como faziam os griôs, tradicionais contadores de história e poetas africanos, é a atividade à qual Simas se dedica há anos pelas ruas, praças e botequins do Rio de Janeiro. A expansão do ofício para lugares extra-classe e para a via pública está na compreensão de vida de terreiro do autor, que disse “terreiritorializar” os espaços desde a infância, como aprendeu com a avó.

“A minha avó era uma ialorixá fundamental. Ela se inicia em uma casa muito tradicional de Pernambuco, a casa da Água Fria, e foi para o Rio de Janeiro, onde planta o axé numa cidade da Baixada Fluminense chamada Nova Iguaçu”, lembrou. “O terreiro evidentemente cruzou com as macumbas cariocas, a umbanda, o omolokô e eu nasci nessa circunstância. O trabalho do historiador é lançar uma pedra de exu.”

Luiz Antônio Simas, Alberto Mussa e a mediadora Fernanda Mena (Terebi/A Feira do Livro)

Coautor com Simas de Samba de enredo: história e arte (Record), Mussa recria mitos em seu repertório literário. Ao reimaginar narrativas já elaboradas, inventa novas interpretações para um Brasil contemporâneo mais próximo das identidades dos povos que habitavam o país antes da invasão dos portugueses e da chegada das comunidades africanas apartadas e sequestradas para o território durante a escravização.

“Uma das coisas que mais me indignou, quando comprei um atlas para meu filho, foi a ideia distorcida de que o Brasil começou na Europa. Nós temos que nos pensar como um país que recebeu todos esses povos para que se crie uma sociedade com um sentimento de nação.”

Educação pelo samba

Esse sentimento de pertencimento, explica Simas, foi erguido em diferentes momentos do século 20 por compositores de samba, responsáveis pela invenção de um “território-terreiro” afetivo. 

“O Brasil como Estado-nação é um projeto de morte, de aniquilação. Fomos projetados para excluir. Diante desse projeto de aniquilação, como se constrói sentido de vida?”, questionou. Acompanhado por Mussa, Simas cantou na sequência um trecho do samba “Destino São Pedro II” (1984), enredo da escola Em Cima da Hora, em 1984. “Tudo que está sendo cantado está vivo”, lembrou.

Para Mussa, as escolas de samba foram expressões de vanguarda a partir do início do século 20. O autor destacou que a relevância historiográfica de figuras como a líder quilombola Tereza de Benguela era pouco conhecida até ser representada em sambas-enredo. 

“Hoje em dia se fala muito de Tereza de Benguela”, disse. “Os enredos, a partir dos anos 60, massivamente passaram a exaltar a cultura popular e isso foi mudando a compreensão da história do Brasil.”

Simas defendeu que há uma pedagogia única nos terreiros. A resistência dentro e fora do currículo escolar tradicional é necessária para reconstruir espaços e imaginários sobre o país, principalmente nos espaços públicos.

“Existe uma diferença entre escolaridade e educação. A escola é institucional, mas o fenômeno educativo é do sujeito e acredito que precisamos da urgência do tempo lento. Essa descontração se dá na praça, no terreiro, no futebol: a gente dá uma gargalhada matreira e dá tempo de fazer uma graça”, disse. 


A Feira do Livro 2026 

A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.

A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro

Horário
Finais de semana e feriado: 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): 14h às 21h

A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.

Nota da Associação: essa mesa foi realizada com o apoio de Civilização brasileira e teve interpretação de libras da EducaLibras.

Quem escreveu esse texto

Mariana Moreira

É jornalista e roteirista carioca. Atua nas coberturas de cultura, gênero e direitos humanos.

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.