
As Cidades e As Coisas,
Mapas estranhos
Quais são as informações trazidas por cartografias inusitadas e como elas podem ajudar na construção das nossas cidades
04ago2020Os mapas sempre estiveram por todos os lados. Explodiram em popularidade nos últimos anos, em grande parte devido à democratização das tecnologias de mapeamento e à febre dos grandes dados. Grandes corporações e novas tecnologias impulsionaram essa explosão. Muitos números são produzidos todos os dias, legíveis para os algoritmos em sua forma crua. Para os seres humanos, a leitura dessas informações requer uma tradução por meio de técnicas de tratamento de dados e de visualização.
A cartografia é justamente uma dessas ferramentas de tradução: permite a visualização espacial dessas bases de dados. Mas os mapas não são neutros: existe um funil informacional e tecnológico por trás de qualquer mapa digital. Quem produz esses dados delimita as informações que podem ser obtidas a partir deles, quem os publica define quem poderá tratar esses dados, e quem produz as representações espaciais propõe o que pode ser aprendido a partir deles. Na última ponta, leitoras e leitores do mapa têm acesso a apenas uma parte pequena dos dados, já transformada numa composição visual. Muitas disputas de poder sobre a informação e as visões de mundo dos técnicos ficam retidas nesse funil.
Faz parte de uma cartografia crítica dar destaque ao que fica oculto nesse processo, como uma forma de lembrar que todo cuidado é pouco quando se trata de tirar conclusões a partir de mapas. O exercício da crítica pode se dar de muitas maneiras. Costumo recorrer a mapeamentos que expõem como foram feitos. Com isso, busco deslocar esses mapas das disputas políticas travadas sobre os dados representados, na tentativa de abrir uma discussão sobre a própria cartografia, seus cânones e seus modos de fazer. Esse exercício sobre projeto de imagem e representação resulta em mapas com leituras incomuns. São mapas estranhos.
Olhando de relance, talvez o primeiro olhar leve à conclusão de que, de tão estranhos, esses mapas não dizem nada. Mapas sempre dizem alguma coisa, a depender do que procuramos observar a partir deles. Dados que servem de objeto para um mapa temático não são seu único conteúdo. Alguns mapas de capitais brasileiras podem nos ajudar a explorar o estranhamento com este tipo de cartografia.
Mapa de Salvador
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Mapas topográficos geralmente são planos e usam “curvas de nível” para representar mudanças de altitude. Utilizei dados de levantamento a laser feito pela Prefeitura de Salvador e pela Escola Politécnica da UFBA para fazer um mapa do centro de Salvador usando uma mistura dessas técnicas de topografia, em que incluí os edifícios como um elemento da paisagem. As curvas também foram deslocadas para criar um aspecto tridimensional, mais familiar para quem conhece a cidade do ponto de vista do pedestre. O gradiente de cores divide o espaço em cidade alta e baixa a partir da altitude do Elevador Lacerda, que funciona como critério de altura, em substituição ao nível do mar: os azuis estão abaixo do nível do Elevador Lacerda, e os amarelos e laranjas representam os territórios que estão acima. Quanto mais profundo o azul, menor a altitude; quanto mais laranja, maior.
Já este mapa de São Paulo foi feito a partir de dados abertos sobre os contribuintes pelo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), disponibilizados pela Prefeitura de São Paulo. Aqui, experimento uma forma de representar os usos não residenciais do solo (comércio, escritórios e indústrias) a partir da mistura de cores. O cânone de representação de uso do solo no planejamento urbano consolidado no último século reserva uma cor para cada uso: residencial é amarelo, comercial é vermelho, industrial é roxo. Trata-se de um repertório de representação modernista, que pressupõe a uma funcionalidade única. Sabemos que nossas cidades não são assim: os usos se misturam com frequência. Assim, outro repertório é necessário para representá-las. A escolha das cores não é arbitrária: escolhi usar o suporte (a tela ou a impressora) para favorecer a representação. Cada uso recebe uma das três cores fundamentais usadas pelos pixels das telas digitais ou pelos cartuchos de impressora para reproduzir o espectro cromático – vermelho, verde e azul (RGB) ou ciano, amarelo e magenta (CMYK).
Por último, desenvolvi este mapa de Porto Alegre a partir de vários roteamentos de viagem por transporte público, partindo de vários pontos da cidade em direção à praça Montevideo, no centro. Cada área colorida representa uma região da cidade cujos moradores pegam uma mesma combinação de linhas de ônibus para chegar ao destino. É comum que a cartografia de transporte público retrate a rede de forma esquemática, para facilitar a navegação entre as linhas, ou represente o quanto são lotados os corredores da cidade. Aqui, procurei olhar para o tema a partir do alcance dos serviços de transporte na malha urbana, observando a similaridade dos trajetos das pessoas pela cidade. Em período de pandemia, esse tipo de análise poderia ser útil para traçar estratégias espaciais de mobilidade urbana.
Acesso aos dados
Em todos esses mapas, a questão do domínio do acesso ao dado é fundamental. Nenhum deles poderia existir sem a disponibilização de dados abertos pela administração pública. A exposição de mapas como esses também ajuda a ilustrar as maneiras como informações antes privadas são mobilizadas na produção de estatística. O valor estético é outra parte fundamental e costuma exigir bastante tempo e cuidado dos cartógrafos. Esses mapas metalinguísticos têm se tornado cada vez mais comuns nas páginas de empresas que desenvolvem soluções tecnológicas proprietárias de cartografia. Com o crescimento de softwares de mapeamento e bases cartográficas livres, como o QGIS ou o OpenStreetMap, as empresas recorrem ao desenvolvimento de ferramentas de visualização com grande apelo estético como diferencial em seus produtos. Nesse jogo, mapas “bonitos” servem, de um lado, como peças de publicidade de ferramentas pagas e, de outro, como prova da potência das tecnologias livres, pouco importando o tipo de dado representado.
Na urgência de criar narrativas cartográficas sobre dados, seja no embate político ou mesmo na elaboração de políticas públicas, ensaios cartográficos como esses retornam como repertório técnico, teórico e visual. No fim das contas, trata-se de uma corrida tecnológica pelo domínio da leitura e pelo processo de mapeamento. Cabe aos ativistas cartográficos não deixar de fazer a lição de casa — e mapas estranhos podem ajudar nesta tarefa.