Fichamento,
Bruna Beber
A poeta e pesquisadora fluminense lança o segundo volume de sua trilogia filológica do paladar, iniciada em 2023 com Sal de fruta
20maio2026 | Edição #106Pó de arroz (Círculo de Poemas) usa do humor e do sublime para tocar descaradamente no desejo, fazendo poesia com cheiros e texturas de receitas culinárias.
Como começou sua trilogia filológica do paladar?
Quando escrevi Sal de fruta (2023) queria fazer um livro de receitas, mas fui abandonando e remendando essa ideia. Agora, retomei um texto longo que tinha escrito em 2019 e transformei nos seis poemas do ovo que viraram o centro de Pó de arroz. A estrutura tem um quê de ensaísmo e um quê de humor, diferente da escrita do poema em si, com textos mais prosaicos. Eu me sinto à vontade nesse gênero e me divirto bastante escrevendo.
Quais são os macronutrientes de sua poesia?
Música. Cigarro. Viagem.
Quando sua batata está assando?
Quando alguém me inferniza. Infernizar alguém é a dificuldade de respeitar os limites, o tempo das coisas. Hoje as pessoas lidam com a urgência de um jeito muito egoísta. Eu não pensava nisso antes. Talvez agora o mundo esteja mais exagerado, mas também é porque estou numa fase de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
Quantas coisas está fazendo?
Lançando o livro, fazendo curadoria, dando aula, fazendo a coluna do podcast 451 MHz e o doutorado na Unicamp, sobre as prédicas do Antonio Conselheiro e da Estamira.
Em um dos poemas da plaquete você pergunta se generosidade se aprende. Tem receita?
A gente não sabe bem de onde vem isso, mas acho que é das boas relações, do amor mesmo. Aprender a escutar os outros é um grande exercício de generosidade. Cresci ouvindo pessoas contarem suas histórias, cantarem suas músicas, num ambiente com pessoas de muitos lugares do Brasil. Isso ajudou a construir minha poesia.
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Em outro poema, você conta que pergunta aos seus alunos o que é a imaginação. Para você, o que é?
Nossa, tanta coisa. Posso ficar te devendo essa? É a pergunta que de certo modo tento responder em Pó de arroz. Eu vivo disso, exercito isso. E, mesmo que não trabalhasse com criação, viver já é um exercício de imaginação, de inventar a vida, mudar os caminhos. O que me propus a fazer nos livros da trilogia é um exercício nessa direção, mas bem mais radical, sem medo. Ah, nem foi tão difícil assim de responder…
Como foi trabalhar a relação do paladar com a memória?
Na trilogia, tem uma junção do olfato com o tato. A vontade de cercar esses sentidos talvez seja para levantar memórias que estavam intactas ou pouco acessadas e pensar nisso em relação ao presente, à fabricação de memórias no agora. O instante, como na composição de um poema. A relação não é só com a comida, mas com o desejo sexual, a paixão.
Essa relação com o desejo e a paixão também é recorrente na sua produção poética?
Eu sempre toquei nesses temas, mas nesses dois últimos livros toco descaradamente. Parece que não, mas ainda hoje falamos de sexo muito pouco despudoradamente. Precisamos explorar mais o tato e o paladar. A gente tem mais poemas sobre o sol e as estrelas do que sobre sexo.
Por que seria tão difícil escrever sobre sexo?
Falta pensar sobre o tema com graça, com mais leveza, suspender alguns pudores. Graça não é chacota. Em Pó de arroz também quis puxar para uma relação com o sublime. Trouxe um certo estilo, certos cacoetes do simbolismo, do surrealismo, adoro essas escolas. É um humor sofisticado, que está olhando a poesia feita há um século. É uma cooperação: para eu poder dizer “buceta” hoje, alguém precisou dizer “cona” há 130 anos.
Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Bruna Beber”
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