Literatura japonesa,
Misticismo e natureza
Menos onírico do que animações que o consagraram, primeiro mangá em série de Satoshi Kon ganha atualidade ao debater modelo de progresso
24mar2026 • Atualizado em: 30mar2026 | Edição #104Quando, em agosto de 2010, a notícia de que Satoshi Kon tinha morrido chegou ao grande público, a tristeza só se equiparou ao espanto. Com apenas 46 anos e em plena produção de um novo filme, o quadrinista e animador japonês foi vítima de um câncer diagnosticado no mesmo ano, já em fase terminal, condição que preferiu manter em segredo até dos amigos mais próximos. Conhecido pela direção de animações consagradas — como Perfect Blue (1997), Millennium Actress (2001), Tokyo Godfathers (2003) e Paprika (2006) —, sua partida pegou de surpresa a legião de fãs e deixou um vazio na veloz indústria de desenhos animados japoneses.
Com tramas marcadas pelo jogo entre realismo e fantasia, Kon não só tinha dado aos animes uma profundidade incomum, mas feito isso com a qualidade de um criador multifacetado. Se a indústria dos quadrinhos e a das animações parecem irmãs, na prática a conversão de um quadrinista a animador passa longe de ser automática. Japoneses que conseguiram tal façanha estão entre os mais memoráveis do gênero, como Katsuhiro Otomo, autor do clássico Akira (1988), e Hayao Miyazaki, cujo Studio Ghibli tem trabalhos celebrados no mundo todo há décadas.
Apesar de a melhor parte da obra de Kon ser os filmes que dirigiu, antes de tomar de vez o caminho dos estúdios de animação ele foi um autêntico mangaká — autor de histórias em quadrinhos serializadas em antologias periódicas. É esse o período de Kaikisen: retorno ao mar, quadrinho lançado em volume único pela Newpop. Originalmente publicado num semanário de quadrinhos em 1990, o mangá em onze capítulos foi o primeiro serializado de Kon, que só tinha assinado histórias de capítulo único, os chamados one shots. Eles e os mangás curtos, em um ou dois volumes, são tudo o que ele deixou antes de partir para os estúdios de animação, o que decidiu fazer em 1996 para realizar seu primeiro longa, Perfect Blue. Em Kaikisen, portanto, vemos o trabalho de um artista em amadurecimento — criação que, quando revisitada, deixava o autor com “rosto vermelho de vergonha”, como diz num depoimento no fim do volume.
É verdade que quem está familiarizado com os temas tratados na obra de Kon pode estranhar Kaikisen. Em lugar do zigue-zague entre sonho e realidade, brincadeira que confere camadas aos filmes, aqui temos uma história mais linear, apesar dos recursos à fantasia. Numa pequena cidade costeira do Japão, uma tradição que mistura fé e superstição é seguida há gerações pela família responsável pelo templo local. A cada sessenta anos, um descendente deve retornar uma relíquia sagrada ao mar, recebendo outra igual em seguida. Reza a lenda que o objeto, um ovo que deve ser mantido dentro d’água, garante a prosperidade da pesca e pertence a um ser mitológico, espécie de sereia.
O traço limpo é um dos trunfos de ‘Kaikisen’ e lembra os quadrinhos de Katsuhiro Otomo
As coisas começam a desandar quando Yosuke, o protagonista adolescente, vê seu pai, sacerdote em exercício do templo, usando a relíquia para atrair a atenção de turistas e empresas para a região. Cético quanto a sereias ou lendas, o homem só deseja buscar investimentos que ajudem a modernizar a cidade, evitando mortes como a da mãe de Yosuke. Após se afogar no mar para salvar o filho ainda criança, a mulher morreu pela falta de hospitais na região, o que veio a gerar o medo que o filho ainda tem de mergulhar.
Como seus amigos, Yosuke quer cursar faculdade num grande centro, sem dar atenção ao que o pai está fazendo. Tudo muda quando uma das empresas atraídas à região, que está construindo um resort à beira da praia, passa por cima de demandas da comunidade de pescadores e desrespeita locais naturais e sagrados, com a anuência do pai do protagonista. Aí entra em cena o sobrenatural, encarnado na junção entre misticismo e natureza, que se atualiza no jovem protagonista em uma espécie de chamado.
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Kaikisen pode ser incluído numa lista de mangás com temática ambiental, caso de Nausicaä do vale do vento (JBC, 2022), de Hayao Miyazaki, e Mushishi (Newpop, 2023), de Yuki Urushibara. No caso do quadrinho de Kon, menos fantasioso que os outros dois, o confronto está na aceitação forçada de certa ideia de progresso, questionamento recorrente em culturas orientais, antigas ou atuais. O debate ganha repercussão mais de três décadas após a publicação original, numa época em que não é mais possível ignorar questões climáticas. Mais ainda, traz para o jogo, embora com certas limitações, uma nova forma de se relacionar não só com a dita “natureza”, mas também com seus entes desconhecidos, igualmente atropelados pela dimensão extrativista do progresso.
Clichês
O primeiro quadrinho serializado não deixava Kon envergonhado à toa. Há clichês narrativos encarnados num maniqueísmo que já vimos em histórias de cidadãos comuns versus grandes empresas. Também não faltam as cenas de ação, com socos e pontapés, ainda obrigatórias nos quadrinhos japoneses destinados a jovens adultos. Natsumi, a personagem mulher, apesar do papel coadjuvante, dá mostras de uma complexidade que Kon iria aprofundar com maestria nas protagonistas dos filmes.
Motivo de grande constrangimento, ainda segundo o depoimento do autor, é também o traço, que considera imaturo, falho. Ao menos essa reserva pode ser encarada como modéstia. O traço limpo, definido e sem exageros é dos grandes trunfos de Kaikisen, estilo que lembra os quadrinhos de Katsuhiro Otomo, de quem Kon seria assistente.
A edição brasileira conta ainda com um one shot após Kaikisen, história mais antiga de Kon, de 32 páginas, chamada Tensão de verão. Sem justificativa para a inclusão, o quadrinho fica perdido e pode confundir o leitor, que não entende sua presença ali. Melhor seria terminar sem ele, apenas com o depoimento do autor. No texto, inclusive, lemos sobre os extremos ritmos de produção e condições de trabalho da indústria de mangás, o que há décadas tem levado dezenas de autores a morrer cedo por complicações médicas. Impossível não associar o relato ao destino de Kon — e Kaikisen está aí para lembrar do que ele já era capaz em seus primeiros passos como autor.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “Misticismo e natureza”
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