A escritora japonesa Minae Mizumura (Toyota Horiguchi/Divulgação)

Literatura japonesa,

Mulheres reais

A autora de A herança da mãe fala sobre como a literatura pode ser libertadora para as mulheres

01mar2026 • Atualizado em: 14mar2026 | Edição #103

A publicação de A herança da mãe: um folhetim pela editora Carambaia, com tradução de Lídia Ivasa (e, aviso ao leitor, posfácio meu), oferece ao Brasil a oportunidade de enfim conhecer a literatura de Minae Mizumura, uma das mais vultosas escritoras do Japão contemporâneo. Publicado originalmente entre 2010 e 2011, em folhetim, o romance revisita, com frescor, temas que podem soar antigos na vida de muitas mulheres: a necessidade de cuidar da mãe doente e a descoberta da infidelidade do marido. 

O livro rendeu à autora uma condecoração singular: Mizumura recebeu simultaneamente o prêmio Osaragi Jiro de melhor obra de ficção e de não ficção, distinção que tensiona e ironiza as fronteiras que insistimos em impor à literatura.

Na primeira parte de A herança da mãe, Noriko, mãe da protagonista Mitsuki, sofre um acidente e sua saúde passa a declinar. A necessidade de assumir os cuidados obriga a filha a reexaminar uma relação marcada pela dureza: Noriko, longe de ser maternal, é uma mulher cruel e egoísta.

Na segunda parte, o cenário do romance muda, assim como a atmosfera, que passa a rondar o suspense. Noriko morreu e Mitsuki decide viajar sozinha a um hotel antigo às margens do lago Ashinoko. Longe do marido infiel e envolvida com hóspedes enigmáticos, a protagonista empreende um atento e, por vezes, implacável exame da própria vida.

‘Leitores japoneses frequentemente acreditam que uma ficção seja baseada na vida de quem escreve’

A prosa pungente de Mizumura mergulha nas minúcias dos dilemas de Mitsuki, em suas insônias, seus cálculos e hesitações. Composto das ansiedades mais ordinárias de uma mulher japonesa de cinquenta anos, A herança da mãe reafirma que a conjunção de ritmo e densidade, detalhes e termos precisos pode dar origem a um romance magistral, e que a literatura continua sendo o lugar privilegiado do encontro simultâneo com o outro e consigo mesmo.

Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Minae Mizumura fala sobre as decisões narrativas, a relação do Japão com o Ocidente e o protagonismo das mulheres na sua obra e na esfera pública. 

Na abertura de A herança da mãe, desestabilizando o estereótipo das mulheres abnegadas, as filhas fazem cálculos da herança deixada pela mãe recém-morta. Ao longo do romance, contas são retomadas, como quando Mitsuki decide se divorciar. Por que decidiu escrever sobre esse aspecto tão concreto da existência, o dinheiro? 
Fico feliz em saber que a passagem inicial entre as filhas causou desconforto. Minha intenção era provocar uma sensação de choque ou até de ofensa para que, conforme a narrativa avançasse, o incômodo pudesse gradualmente dar lugar a uma compaixão por Mitsuki. Ela pertence a uma geração de mulheres que cresceram imaginando que os maridos basicamente as sustentariam por toda a vida. A possibilidade de que o marido a abandone por uma mulher mais jovem dá origem a uma ameaça iminente de infelicidade. Em vez de me deter nas emoções de Mitsuki ou reproduzir a fúria e os lamentos de uma esposa traída, quis ser mais prosaica, mais realista. Daí a lista de números e cálculos.

Neste romance, o dilema de Mitsuki está enraizado em um sistema social japonês que tradicionalmente atribuía papéis distintos aos homens, como provedores, e às mulheres, como donas de casa. Nesse sentido, o dinheiro é inseparável da política patriarcal. No entanto, escrever sobre dinheiro não precisa ser político. Quando Jane Austen escreve sobre dinheiro — como ela frequentemente fez —, raramente se trata de um comentário político. Em vez disso, surge como uma observação moral aguda: a maneira como cada personagem se relaciona com o dinheiro revela sua retidão moral, ou a falta dela. Essa, creio eu, é a maneira mais convincente de tratar o dinheiro na literatura.

Você já tinha publicado outros romances em folhetim, mas não num jornal de tanta circulação como Yomiuri. Como isso interferiu nas decisões narrativas? 
O Yomiuri, jornal que é nacional, tem a maior circulação impressa do mundo. Quando comecei a escrever para ele, o número oficial de exemplares era de 10 milhões. Para se ter ideia, costumo escrever para revistas literárias que vendem talvez 10 mil exemplares. Quando aceitei escrever para um jornal desse alcance, senti a obrigação de criar uma história que pudesse cativar o maior número possível de leitores.

Me fiz perguntas muito práticas: quem teria maior probabilidade de acompanhar a publicação semanal de um romance escrito por uma mulher? Muito provavelmente, mulheres. Quais mulheres? Provavelmente as de meia-idade, já que os leitores mais jovens tinham começado a se afastar dos jornais. E qual seria a maior preocupação dessas mulheres? O trabalho incessante de cuidar de pais idosos, sejam os delas ou os do marido.

Por coincidência, eu havia perdido minha própria mãe apenas alguns anos antes, então os contornos básicos da trama já estavam definidos quando comecei a escrever. Introduzi a história do divórcio para dar ao romance um forte impulso narrativo, para que não se tornasse meramente um relato do interminável sofrimento de cuidar de alguém. A herança da mãe é o único romance que escrevi com uma estratégia tão deliberada para alcançar um público amplo, ao mesmo tempo que tento permanecer fiel ao meu senso de honestidade como escritora. 

Em An I-Novel, ainda não traduzido no Brasil, você parte de sua experiência de imigrante nos EUA para escrever ficção. Há um movimento semelhante em A herança da mãe
Obrigada por mencionar An I-Novel. Embora esse romance seja baseado na minha experiência nos Estados Unidos e, portanto, seja mais autobiográfico, A herança da mãe pode ser entendido como um “mundo paralelo” — uma exploração da trajetória que minha família poderia ter seguido se nunca tivéssemos saído do Japão.

Percebe alguma diferença em como os leitores dos seus livros no Japão e no mundo ocidental lidam com o caráter autobiográfico do texto?
Ainda existe uma divisão na forma como leitores japoneses e ocidentais interpretam a ficção. No Japão, a tradição do romance autobiográfico ainda exerce forte influência sobre os leitores, mesmo que inconscientemente. Eles frequentemente acreditam que uma ficção seja baseada na vida do autor.

‘As mulheres japonesas não sentem, tanto quanto as ocidentais, a necessidade de ter um marido’

Tomei consciência disso enquanto A herança da mãe estava sendo publicado em série. Para muitos leitores japoneses, foi natural presumir que o marido infiel de Mitsuki fosse o meu. Recebi mensagens meio constrangidas de pena, enquanto meu marido — um homem extremamente decente — se viu alvo de olhares desconfiados de seus colegas. Coitado! Ele realmente não devia ter se casado com uma escritora. 

A certa altura, Mitsuki diz que ninguém escreve um romance sobre uma mulher como ela, de cinquenta anos. Isso parece uma piscadela que você dá ao leitor, pois estamos lendo esse romance. Como foi a decisão de colocar essa mulher no centro da história?
A frase é de fato uma piscadela. Dado que eu sabia que minhas leitoras seriam, em sua maioria, mulheres de meia-idade, colocar uma heroína na casa dos cinquenta no centro da história foi uma decisão natural. O que eu não previa completamente era a rapidez com que as mulheres já não tão mais jovens começariam a firmar presença globalmente nas mais variadas áreas. Tenho certeza de que haverá cada vez mais romances centrados não apenas em mulheres na casa dos cinquenta, mas também na casa dos sessenta, setenta e até mais!

O lugar da mulher que cuida também é desestabilizado em A herança da mãe. A protagonista assume o desejo de que a mãe morra, opta por não ter filhos, por não cuidar do marido na própria velhice. Como o romance foi recebido no Japão, onde o cuidado é tradicionalmente delegado à mulher?
Acredito que o tema é extremamente oportuno e o romance foi muito bem recebido no Japão. Recebi inúmeras cartas comoventes de mulheres que eram, ou haviam sido, cuidadoras. Muitas compartilharam suas histórias e disseram experimentar uma sensação de libertação ao se deparar com a cena em que Mitsuki e sua irmã desejam claramente a morte da mãe. 

As irmãs haviam feito tudo o que podiam para tornar os últimos anos da mãe minimamente felizes. O “desejo de morte” não era cruel, mas uma resposta natural e profundamente humana a uma situação impossível. Muitas das mulheres que me escreveram confessaram que nutriam o mesmo desejo, mas que eram atormentadas pela culpa por somente pensar nisso.

O Japão está passando por uma transição. À medida que o fardo imposto às mulheres se tornava cada vez mais incompatível com o mundo moderno — e à medida que se tornava evidente a necessidade de as mulheres permanecerem no mercado de trabalho —, o governo introduziu uma lei, em 1997, que previa assistência pública para o cuidado de idosos. Levou algum tempo para que as pessoas adotassem o novo serviço, mas hoje ele apoia não apenas mulheres, mas também homens. As filhas estão cada vez mais recusando os papéis tradicionalmente atribuídos a elas, enquanto um número crescente de filhos está assumindo a responsabilidade de cuidar dos pais.

Noriko tinha uma “fascinação desesperada pelo Ocidente”, herdada, em certa medida, pelas filhas. A tensão entre as culturas japonesa e ocidental é expressa por duas obras que atuam como compasso narrativo do romance: Madame Bovary e O demônio dourado. O que esses dois títulos representam para você, como autora e como leitora?
Como leitora, sou eclética. Como autora, sou bastante conservadora, pois gosto de colocar meu trabalho em diálogo explícito com os clássicos. Gosto de lembrar aos meus leitores que a escrita nasce de escritos anteriores e que grandes textos do passado são o alicerce que torna possível uma obra contemporânea.

‘Quanto mais velha fico, mais valorizo o fato silencioso, mas inegável, de estar viva, aqui e agora’

O “fascínio desesperado do Japão pelo Ocidente” enraizou-se quando o país abriu suas portas e se deparou com a literatura europeia traduzida. E, assim como Emma Bovary se apaixonou pela vida romântica retratada nos romances que lera quando jovem, o público japonês se apaixonou pelo mundo estranho descrito nos romances importados. O que encantou Madame Bovary e o que encantou o povo japonês podem ser coisas diferentes, mas o poder transformador que o ato de ler exerce sobre o leitor é o mesmo. A avó de Mitsuki, cativada pelo herói de O demônio dourado, é uma parente espiritual de Emma Bovary. 

Sempre me fascinou a coexistência de nossas diferenças culturais irreconciliáveis e das profundas universalidades que nos unem — e que tornam traduções literárias como esta possíveis.

Ainda que Mitsuki parta do clichê de “ser substituída por uma mulher mais nova”, ela se desvencilha dele ao entender que sua própria história prescinde de um homem, trilhando um caminho muito diferente de Madame Bovary, não é?
Concordo plenamente. Além disso, se me permite uma observação etnográfica, a tradição romântica — ou talvez o que devesse ser chamado de “ideologia romântica” — não está tão profundamente enraizada na sociedade japonesa quanto no Ocidente. As mulheres japonesas não sentem, com a mesma intensidade que as ocidentais, a necessidade de ter um namorado ou marido. Sejam jovens ou idosas, elas frequentemente vão ao teatro e jantam sozinhas — quando jantam com outras pessoas, geralmente é com amigas em vez de parceiros.

A mãe de Mitsuki, Noriko, que personifica o bovarismo, é, portanto, uma exceção, não a regra. Para muitos leitores japoneses, a paz de espírito que Mitsuki alcança ao final do romance — encontrando a plenitude fora de um relacionamento romântico — não parece uma ruptura radical, mas um retorno a um estado natural.

Tomo a liberdade de dividir com você e pedir que comente um trecho do posfácio que escrevi para a edição brasileira do seu livro: 

A saída [de Mitsuki] não é um novo relacionamento, não é um outro homem. A saída é a do padrão de vida ditado para uma mulher, padrão que sustenta tudo — uma casa, um país, um sistema econômico —, menos a felicidade. Não à toa, o final feliz aqui não é mais o casamento, como era nos contos de fada e romances antigos, mas a separação. E a felicidade não é mais estar ao lado de um homem: é a singela e magnífica alegria de estar viva.

É uma passagem belissimamente articulada. Obrigada por tê-la escrito. Admiro especialmente a frase final sobre a felicidade: “é a singela e magnífica alegria de estar viva”. Seja qual for a história, seja qual for o final, o meu maior desejo como escritora é que o leitor, ao fechar o meu livro, experimente, ainda que brevemente, essa “singela e magnífica alegria de estar vivo”. 

Tenho plena consciência de que tal epifania não é, de forma alguma, um pré-requisito para a grande literatura — afinal, quem termina Madame Bovary com esse sentimento em particular? —, mas ficaria profundamente grata se o meu trabalho ajudasse, mesmo que modestamente, a despertar essa alegria. Quanto mais velha fico, mais valorizo o fato silencioso, mas inegável, de estar viva, aqui e agora, neste exato momento.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Mulheres reais”