Biografia,
A banalidade do mal
Memórias de Gisèle Pelicot, violentada pelo próprio marido, chocam por lembrar que qualquer uma poderia estar em seu lugar
23fev2026 • Atualizado em: 14mar2026Não há aviso de gatilho que prepare para a leitura de Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado. O ponto sensível das memórias de Gisèle Pelicot, escritas em parceria com a jornalista Judith Perrignon, não é a descrição da violência em si: o que torna o livro difícil é a banalidade da vida daquele casal, é a possibilidade palpável de as atrocidades cometidas contra a francesa pelo próprio marido estarem acontecendo comigo, com você, com sua vizinha ou sua mãe.
É também a falta de lógica, de aviso, de ferramentas capazes de prevenir tamanha brutalidade, no lugar em que Gisèle deveria se sentir mais segura, cometida pela pessoa de sua maior confiança. Fica evidente o componente aleatório e tão fora do controle que torna o crime de estupro quase inescapável. Qualquer mulher poderia ser Gisèle Pelicot.
A maior dor, na narrativa, está nas tentativas vãs de dar sentido ao que aconteceu
A dor, na narrativa, está menos na reconstrução das imagens da vítima sedada e violada centenas de vezes, durante anos, pelo marido e outros homens, e mais nas suas tentativas vãs de dar sentido ao que aconteceu. “Eu precisava reexaminar minha vida, em busca dos momentos e dos sinais que não soubera interpretar”, escreve. Gisèle tenta justificar as cinco décadas de casamento, perdoar as ilusões da jovem de dezenove anos que viu nele um caminho para a sua felicidade. E tenta, até, deixar vazar alguma culpa. Quem sabe Dominique ainda tivesse ódio daquela traição que ela um dia se deixou cometer. Quem sabe não tenha sido um pouco responsável por tamanha agressividade.
A culpa — um dos três pilares da reação típica de uma sobrevivente de agressão sexual, ao lado do medo e da vergonha — faz parte dos esforços para compreender o crime hediondo e continuado ao qual foi submetida. Em Missoula: o estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária (Companhia das Letras, 2016), Jon Krakauer escreve que “a autoculpabilização se torna uma estratégia irracional para recuperar um senso de controle, pois aceitar que o que aconteceu estava além do seu controle é muito mais assustador do que se culpar”.
A teoria é do psicólogo David Lisak. Num depoimento à Justiça citado por Krakauer, o pesquisador diz que “muitas vezes é mais difícil se recuperar de um estupro por conhecido, pois, ‘se você foi agredido por alguém que achava que era confiável, como vai restaurar o seu sentimento de confiança no mundo ou nas pessoas? E como vai confiar em si mesmo?’”.
Abismo
Quando Gisèle foi à delegacia da pequena Carpentras, na região no sul da França escolhida pelo casal para envelhecer tranquilamente, ela estava disposta a defender o marido. Era 2 de novembro de 2020, e Gisèle pensava saber o motivo de terem sido convocados a depor: dois meses antes, ele havia sido flagrado por um segurança de supermercado filmando por baixo da saia de três mulheres.
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Denunciado pelo funcionário, Dominique foi levado à polícia e teve celular e computador apreendidos. Gisèle, que estava fora da cidade, voltou alguns dias depois para encontrar um marido mais magro, choroso, dizendo que não queria perdê-la. Sua primeira reação foi pensar que ele estava doente, que o câncer tinha voltado.
Quando finalmente me confessou que […] havia filmado por baixo da saia de algumas mulheres […], fiquei arrasada, mas quase aliviada. Foi terrível imaginar meu marido perseguindo essas mulheres, insuportável visualizá-lo como um agressor, mas não foi tão trágico em comparação com os meus medos.
A esposa garantiu que o episódio ficaria entre os dois, desde que se desculpasse com as vítimas e procurasse um psicólogo. Quando recebeu um telefonema do inspetor Laurent Perret, ficou orgulhosa de saber do que se tratava: “meu marido me conta tudo”. “Acrescentei que vivia com aquele homem havia 50 anos e ele nunca tinha agido de má-fé.”
Na véspera da ida à polícia, foi ela quem separou as roupas que o marido usaria. Pediu que ele não se preocupasse, seria uma “simples formalidade”. Na delegacia, Dominique foi chamado a depor antes dela. Quando entrou, foi avisada de que ele havia sido detido, acusado de estupro qualificado e administração de substâncias nocivas. Pior: a vítima era ela.
Na sala do inspetor, viu pela primeira vez imagens de seu corpo inerte, sendo penetrado e manipulado. “Eu não reconhecia os homens. Nem a mulher”, escreve. “Sua bochecha era tão caída, a boca tão mole. Parecia uma boneca de pano.” Desde que recebeu a fatídica notícia do inspetor, Gisèle viu suas certezas despencarem. Ela não tinha culpa nenhuma do abismo que se abria.
Dali em diante, entre o estado de choque e a necessidade de dar a notícia aos filhos, acompanhamos a francesa se debatendo para não rasgar todas as décadas passadas com seu algoz. Mas a dificuldade para recuperar algum sentido ficava cada vez maior. Quando já estava em casa, recebeu mais um telefonema do inspetor, avisando que haviam encontrado uma foto de sua filha, Caroline, dormindo. Depois, imagens da filha e das duas noras, feitas com uma caneta espiã. E uma montagem de mãe e filha, lado a lado, de lingerie, publicada na internet.
Pior do que a certeza de ter sido violentada por ao menos oitenta homens (trinta dos que apareciam nos vídeos não foram identificados, outros cinquenta foram condenados), surge então a dúvida sobre a integridade sexual da filha, das noras e dos netos. O que mais Dominique havia feito? A sombra dessa pergunta perpassa todo o livro.
Nessa falta de respostas, o relato de Gisèle encontra o da filha, publicado em 2025. Em Eu nunca mais vou te chamar de pai: transformando o trauma familiar em uma luta coletiva (Planeta), Caroline Darian preenche algumas das lacunas deixadas pela mãe, em tom conciliatório, a despeito dos desencontros familiares que as duas narrativas deixam transparecer.
Apesar de íntimos, os relatos de mãe e filha são o registro de um crime que pode parecer excepcional por sua grandiosidade, mas que deverá entrar para a história como só mais um exemplo. O que tem de excepcional, no caso Pelicot, não é o tamanho da violência, mas a coragem de denunciá-la e a disposição da polícia em investigar e prender os agressores. Se outras vítimas tiverem a mesma sorte, muitos outros Dominiques aparecerão.
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