Literatura brasileira,
Mais rara do que a flor-de-maio
Celebrada por Drummond e Bandeira, Zila Mamede dialogou com modernistas e concretos, mas sua obra ainda carece de reconhecimento
19fev2026 | Edição #103Carlos Drummond de Andrade, que conhecia bem as palavras e as manejava com exatidão, escolheu estas para descrevê-la: “mais rara do que a flor-de-maio”. Enxergava a unicidade que a poeta com quem se correspondia conferia aos versos. Entre as muitas cartas que trocaram, registrou essa metáfora delicada. A destinatária singular era Zila Mamede.
Um dos nomes mais expressivos da literatura gestada no Rio Grande do Norte chamou a atenção de Drummond, que tinha a autora e sua obra em altíssima conta. O fio vivo de seus poemas alcançou também Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, completando a trinca modernista que a reconhecia como maioral. Ainda assim, Zila carece de reconhecimento à altura do que deixou lavrado no papel.
Nascida em 1928 em Nova Palmeira, então Picuí, sertania mansa da Paraíba, mudou-se ainda menina com a família para Currais Novos. No centro algodoeiro do Seridó potiguar, viveu o restante da infância “modesta, porém feliz”. O interior, enquanto espaço de memória, ocuparia lugar amplo em sua obra: o que cunhava como sua “geografia sentimental”.
Os primeiros lampejos poéticos surgiriam em Natal, para onde se mudou na adolescência. Seu pai se estabeleceu na capital, movido pela Segunda Guerra, para colaborar com a base aérea estadunidense. A esquina do Brasil transformada em “Trampolim da Vitória”. Foi ali que Zila teceu vínculos com o mar, que, assim como o sertão, se assentou firme na sua escrita.
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A autora contava que, na infância, ouvindo relatos de colegas que passavam férias na praia, ansiava tanto por vê-lo que um dia, a caminho de Recife, avistou a ondulação verde de um canavial e perguntou ao pai se aquilo era o mar. O mar verdadeiro, ela veria horas depois — e a visão nunca mais deixaria seus versos.
A obra mamediana foi construída justamente nessa confluência: a pedra rígida do interior banhada pelas águas da praia — uma imagem que poderia muito bem representá-la. Seus versos transitam do sólido ao líquido, sempre tratados com um cuidado sensorial, como gostava a poetisa. Aliás, a poeta: Zila não admitia o termo “poetisa”, por considerá-lo diminutivo, coisa de passatempo; “poeta”, para ela, era a palavra que cravava dignidade intelectual.
Medo de alma
Antes dos primeiros versos, Zila quase se recolheu ao hábito, mas concluiu que a reclusão não seria possível, “tinha medo de alma”, e os livros lhe deram companhia e vocação mais forte: neles encontrou a comunhão possível. Seguiu o caminho da biblioteconomia e a biblioteca se tornou uma espécie de convento — em cada ficha, uma oração. O rigor científico nessa função ajuda a compreender a poeta: de novo, o sólido e o líquido, a ordem e a fluidez, dois modos de enxergar o mundo.
Converteu seu ofício em referência. Nos anos 50, estudou biblioteconomia no Rio de Janeiro e, depois, especializou-se nos Estados Unidos. Ao regressar a Natal, reestruturou as duas maiores bibliotecas da cidade: a Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) — que ela dirigiu por 21 anos e hoje leva seu nome — e a Biblioteca Estadual Câmara Cascudo. Participou do Conselho Federal de Biblioteconomia, atuou no Instituto Nacional do Livro, em Brasília, e tornou-se parâmetro cuja influência ultrapassou os estreitos muros do estado.
Ingressou no cenário literário em 1951, assinando colunas nos jornais Tribuna do Norte e Diário de Natal, nas quais, aos poucos, começou a inserir seus poemas — compromisso que lhe deu “certidão de poeta”. É a partir dessa lavragem quase diária que surge Rosa de pedra (1953), que rompe com os requififes retóricos que o neoparnasianismo de 1945 ainda espalhava com profusão.
Antes dos primeiros versos, quase se recolheu ao hábito, mas nos livros encontrou a comunhão possível
O título, seco como a própria palavra “pedra”, anuncia a poética que se afirma ali: imagens concretas a serviço de temas íntimos; a contenção rigorosa que convive com um mundo interno fragmentado. A forma fixa do soneto domina a estreia, produzindo o que muitos chamaram de ambiguidade: um pé fincado na tradição e outro no modernismo, o que tensiona e expande o poema.
A engenhosidade imagética de Rosa de pedra não passou despercebida. Manuel Bandeira o considerou um dos melhores volumes de poesia publicados no país à época, consagrando, de saída, uma voz capaz de deslocar o eixo do que se lia no Rio Grande do Norte. Com entusiasmo, disse a Zila: “És poeta até debaixo das águas do Capibaribe”, evocando o rio de sua terra natal, presente no soneto “Mar morto”.
Parado morto mar de minha infância
sem sombras nem lembranças de sargaços
por onde rocem as de gaivotas
perdendo-se num rumo duvidoso.
O jornalista potiguar Vicente Serejo, amigo próximo de Zila, recorda que foi Recife que a lançou ao país, conduzindo-a ao convívio da chamada Geração de 1945, a mais vigorosa depois de 1922. Seu “lirismo preso ao bom verso”, como ele define, abriu portas, recebeu olhares, garantiu-lhe lugar em antologias e fez com que seu segundo livro saísse pela Coleção Aspectos, do Ministério da Educação e Cultura. “É difícil tirar ou acrescentar uma palavra em Zila”, diz Serejo, “e foi essa precisão que conquistou os que entendiam de poesia.”
O entroso com os modernistas se adensou a partir de então. A correspondência com Manuel Bandeira permanece inédita. Já as cartas trocadas com Drummond — mais tarde reunidas em Cartas de Drummond a Zila Mamede, com organização de Graça Aquino — dão testemunho dessa aproximação. É curioso observar que, embora compartilhassem conselhos e leituras, não havia no diálogo a figura da mulher jovem, nordestina, buscando a chancela do escritor mais velho e consagrado do Sudeste. Zila e Drummond conversavam de igual para igual, porque reconheciam, um no outro, a grandeza da poesia de ambos.
A poeta publicaria na sequência Salinas (1958), que a fortuna crítica costuma apontar como momento de transição. Permanece o tom intimista, mas já se percebe um afastamento das imagens dispersivas e do caos interior que marcaram o primeiro título. A representação de cenas familiares e de elementos da realidade social ganha relevo, assim como a figura feminina, que abandona o campo simbólico inicial e se inscreve num quadro mais definido.
Popularidade
Até então reconhecida como poeta das águas, aquela que chegara ao mar tardiamente e o transformara em matéria de deslumbre e linguagem, Zila volta os olhos para o sertão em O arado (1959). A mudança, porém, não se dá por ruptura: o meio aquático permanece insinuado, como se a poeta percebesse água onde quer que a vida pulsasse. O mar cede lugar a outras superfícies líquidas, às fontes mínimas, aos veios subterrâneos que alimentam a terra.
O arado finca os pés no chão agreste e ergue, a partir dele, uma poética profundamente amparada na tradição rural. “A terra era muito poderosa para mim”, disse na entrevista registrada em Memória viva (1987). Não por acaso, a coletânea ganhou enorme popularidade: suas cenas sertanejas vinham da vivência íntima, extraída das lembranças de Nova Palmeira e de Currais Novos. Esse enraizamento deu aos poemas um caráter vivo e coerente, como se cada verso brotasse do chão que ela conhecera ainda menina.
No centro, está a imagem do arado, instrumento que revolteia o solo e o prepara para receber a semente. Zila o utiliza como metáfora da própria escrita: uma força que rasga, remexe e fertiliza. Há, contudo, mais que lirismo nesse movimento. Em boa parte das imagens que compõem os poemas, pulsa um tom de crítica social, discreto, mas incontornável: “uma dor de menino sacudia/ as miragens de pão que o habitavam” (“O prato”). A poeta canetava sofrimentos, carências e labores do mundo rural.
É também em O arado que Zila entrega “Antecolheita”. Ao deparar-se com os versos, Drummond confessou em carta: “O poema que eu gostaria de ter feito. Vou me sentir sempre incompleto”.
Não sei que faça dos celeiros. Vem:
setembro amadurece nos folhados
deixando-se nascentes para o estio.
Vem que me espanta o apascentar das ramas
e minhas mãos, de frágeis, agonizam
nessa visão de lavras, de eira e sol.
Juntamente com “O rio” e o soneto “Bois dormindo (I)”, ele considerou serem “coisas de grande classe”. Sobre o compilado, comentou ainda: “Tão puro ele é em sua aderência à terra, aos bichos, à vida natural — e tão enriquecido pelos requintes de espírito daquela que o escreveu”.
Depois de O arado, instala-se um hiato poético. Zila se afasta momentaneamente dos versos para se dedicar a um projeto de fôlego: organizar a bibliografia do historiador potiguar Luís da Câmara Cascudo. O encargo consumiu anos de pesquisa até desaguar, em 1970, no lançamento de Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918-1968 — bibliografia anotada, feito basilar para estudiosos de Cascudo e da cultura brasileira.
Experimentos
Zila chegou a duvidar da própria potência lírica, mas retornou ao ofício com ousadia após encorajamento de Drummond, entregando-se a novos experimentos de linguagem. O exercício da palavra (1975) revela uma poeta em pleno domínio de seus recursos, capaz de alternar entre o fôlego de poemas longos como “Flamengol”, com seus mais de cem versos, que evocam transmissões radiofônicas de futebol, e a concisão de composições como “A ponte”:
Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e de aço
onde não
permaneço
— p a s s o
Apontada pelos especialistas como o seu trabalho mais refinado, a coletânea dialoga com ideias do concretismo e captura o processo de modernização que transformava Natal. A solidez das imagens, que ecoa o crescimento vertical da cidade, foi o caminho que encontrou para dar forma poética às novas linhas do urbano que se erguiam diante de seus olhos.
Em Corpo a corpo (1978), a autora reúne treze poemas que conservam o rigor retórico de Exercício da palavra. As camadas de sentido percorrem os lugares que definiram seu itinerário poético, revisitados não com mágoa, mas com profunda intensidade emocional. Esse volume e os outros quatro se encontram reunidos na antologia Navegos (1978), um compêndio apurado que atravessa e revela a totalidade da obra.
Em Zila, o sertão é substância, não estereótipo; memória viva, não ornamento
Quase como uma despedida, um acerto de contas com as próprias emoções, surge A herança (1984), em que escreve sobre os pais, irmãos e outras figuras afetivas eleitas — entre as quais o próprio Drummond. O título nasce enquanto ela se dedica a outro projeto audacioso: o estudo sobre João Cabral de Melo Neto, intitulado Civil geometria, que só viria a público após sua morte.
Zila Mamede “exilou-se” no mar de Natal, em 1985, aos 57 anos, nadando como quem cumpre um ritual cotidiano, um gesto íntimo de liberdade — mas, naquele dia, foi definitivo. O mar que tantas vezes ondulou sua poesia chamou-a para um último verso e ela atendeu. “Canção do Afogado” funciona quase como um epitáfio, sua obra resumida em corpo e água:
Cabelos de musgos
lavados de espumas
caminha o afogado
que o mar conquistou.
A força de sua trajetória intelectual levou Zila a integrar antologias de projeção nacional, a exemplo de Palavra de mulher (1979), organizada por Maria de Lourdes Hortas, e Rio de Janeiro em prosa e verso (1965), organizada por Drummond e Bandeira. Seu poema “Banho (rural)” foi incluído em Os cem melhores poemas brasileiros do século (2001), antologia organizada por Italo Moriconi.
Além de batizar a Biblioteca Central da UFRN, seu nome hoje identifica uma escola estadual e um coletivo feminino de leitura. Sua poesia é inescapável em qualquer estudo dedicado à literatura potiguar e continua a inspirar gerações. Ainda assim, as homenagens permanecem concentradas no Rio Grande do Norte. Mas Zila não se deve confinar: sua obra tem sustância para realizar qualquer travessia.
Uma poesia “tão digna e tão funda”, como definiu o dileto amigo de Itabira, precisa atravessar barreiras indiferentes ao que não se encontra no suposto centro. O reconhecimento de uma literatura que extrai do interior seu impulso mais genuíno — e o faz sem nunca resvalar no regionalismo piegas. Em Zila, o sertão é substância, não estereótipo; memória viva, não ornamento. Coisa de quem tem o próprio verso como arado.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Mais rara do que a flor-de-maio”
