Literatura,
‘Meus livros são difíceis de ler’
Aposta constante para o Nobel de Literatura, Can Xue fala sobre a criação de seus personagens e defende ficção que exija mais do leitor
05fev2026 • Atualizado em: 10fev2026 | Edição #103Niu Cuilan amava Wei Bo, que amava Xiao Yuan, que amava Dr. Liu, que não amava ninguém. Wei Bo foi para um centro de detenção, Xiao Yuan mudou de cidade e plantou um jardim magicamente fértil, e Niu Cuilan tornou-se amiga da prostituta Long Sixiang. Isso tudo é menos de um terço dos acontecimentos narrados em Histórias de amor no novo milênio, de Can Xue, lançado pela Fósforo e traduzido do mandarim por Verena Veludo Papacidero.
Can Xue, pseudônimo de Deng Xiaohua, começou a publicar contos em revistas literárias nos anos 1980, quando a situação política e cultural da China permitia maior liberdade criativa e o desenvolvimento de uma cena literária contemporânea no país, da qual a autora diz não fazer parte. Atualmente, ela tem uma carreira internacional estabelecida, sobretudo nos Estados Unidos, onde foi lançada em 1989. Desde então, coleciona indicações a prêmios literários e lugar quase permanente nas listas de apostas para ganhadores do Nobel de Literatura.
Histórias de amor no novo milênio é o primeiro título da autora a chegar ao Brasil. Publicado na China em 2013, o romance ganhou novo fôlego em 2018 com uma tradução nos Estados Unidos, onde conquistou notoriedade como finalista do International Booker Prize em 2019. A narrativa de quatrocentas páginas se organiza em capítulos episódicos, que compõem uma sinfonia surrealista de personagens buscando amor ou uma cura para a solidão. Para isso, criam vínculos insólitos.
‘O desejo é a base da natureza humana; sem exercê-lo, não há liberdade e o espírito atrofia’
Logo na abertura, nos deparamos com uma lista de dramatis personae com mais de vinte nomes. Esses personagens são, em sua maioria, moradores de uma cidade e se cruzam nos arredores de uma fábrica e em uma casa de banho — frequentada tanto por aqueles que querem relaxar depois do expediente quanto por quem busca serviços sexuais.
É a partir desses encontros que redes de relações se estabelecem, mas não só. As ações da narrativa se acumulam com uma velocidade quase violenta, o que exige do leitor confiança cega na autora e em sua proposta literária. É impossível prever o desfecho de cada episódio e é justamente esse o convite feito por Can Xue, mesmo que nem todo mundo esteja disposto a aceitar isso.
A qualidade literária é inegável, e quem aceita o convite ao surreal aproveita as discussões levantadas pelos personagens sobre temas como a autonomia sexual das mulheres, a amalucada urbanização da China e o reflexo que isso tem na relação dos humanos com a natureza.
Mais Lidas
Em entrevista por e-mail à Quatro Cinco Um, a autora falou sobre a construção de seus personagens e sobre a estreia no Brasil.
Em entrevistas anteriores, você disse que Can Xue não é para “leitores preguiçosos” e afirmou que escreve para um público do futuro. Quem são seus leitores ideais?
Meus livros são muito difíceis de ler — tão difíceis quanto livros de filosofia. Se o leitor tenta ler como se fossem literatura realista, fica impossível compreendê-los. Esse tipo de literatura exige mais do leitor; exige experiência na leitura de romances experimentais. Obras como a de Borges, Kafka, Dante, as tragédias de Shakespeare, o Fausto de Goethe, entre outras. Meus leitores ideais são aqueles que têm grande interesse e curiosidade pela literatura experimental e que mantêm sempre uma paixão interior.
A literatura experimental precisa ser lida repetidas vezes para que se possa realmente entrar nela. O ideal é manter o livro sobre a mesa e ler sempre que houver tempo, mais de dez vezes. Se for lido apenas uma ou duas vezes e deixado de lado, é difícil extrair algo dele. Essa é a minha experiência de muitos anos como leitora. Espero que os novos leitores se preparem mentalmente antes de ler meus livros.
Histórias de amor no novo milênio é o seu primeiro livro a ser publicado no Brasil. É um bom ponto de partida para conhecer Can Xue?
Este livro é interessante, tem enredos belos e descreve o amor entre homens e mulheres de forma romântica — foi escrito com grande paixão. Ele é especialmente adequado para leitores jovens e de meia-idade. Além disso, a visão de mundo apresentada é muito ampla, o que facilita atrair leitores de fora da China. A linguagem é simples e cheia de poesia. Por isso, começar por este livro é bastante apropriado. Trata-se de um romance maduro; pode-se dizer que representa o auge da minha produção entre os cinquenta e sessenta anos de idade.
De onde surgiu o título?
O título representa minha visão sobre o amor das pessoas modernas. Espero defender, no livro, uma concepção elevada de amor, uma visão idealista que combina o melhor da cultura chinesa e da cultura ocidental, tal como os personagens expressam em suas práticas. O título também irrompeu do centro do meu próprio eu.
Na maioria das histórias, há mulheres que querem ser amadas e que também buscam satisfação sexual e prosperidade financeira. Por que quis escrever sobre o desejo?
Acredito que o desejo é a base da natureza humana. Chamo meus livros de “livros do desejo”. Os desejos descritos são belos, embora às vezes melancólicos. Estou exaltando a coragem de meus personagens em exercer os desejos para buscar a liberdade. O sexo e o dinheiro, necessários para a sobrevivência, simbolizam a liberdade. A natureza humana se fundamenta nos desejos do corpo; sem exercê-los, não é possível buscar a liberdade e o espírito também se atrofia. A liberdade consiste na busca da satisfação tanto do corpo quanto do espírito.
Minhas personagens são pioneiras corajosas da inovação; todas elas criam grandes modelos de amor, oferecendo exemplos às pessoas de hoje. Elas mostram à sociedade moderna que o amor é sempre possível. Ninguém deveria duvidar disso.
Qual é a importância de escrever sobre a experiência feminina?
Retratar a experiência das mulheres é importante na nossa época, pois a maioria delas não consegue se expressar no mundo. No entanto, também retrato com frequência a experiência masculina. Ambas se complementam, são essência e espelho uma da outra. Somente quando homens e mulheres se esforçam juntos e todos alcançam a libertação é que a verdadeira emancipação feminina pode chegar.
As mulheres em meus livros são cheias de criatividade e não se conformam com o status quo; são filhas extraordinárias da natureza. São fiéis ao amor, ousadas em correr riscos e têm coragem e visão excepcionais. São personagens ideais que há muito tempo admiro, uma fusão das culturas chinesa e ocidental. Mesmo que, na realidade, não consigamos atingir plenamente o nível delas, seu modelo de amor aponta a direção para o nosso esforço. Além disso, as figuras masculinas deste livro comoveram muitos leitores. Acho que poucos escritores retratam os homens como eu faço; a beleza deles não é inferior à das personagens femininas.
Há no romance uma bela cumplicidade entre as trabalhadoras do sexo, as operárias de fábrica e outras personagens femininas. Essa relação é também uma relação amorosa?
Se as relações entre as mulheres no livro são relações de amor ou de amizade não me importa. O leitor pode entendê-las como ambas as coisas. O que importa é que se trata de uma relação encantadora, uma relação ideal entre pessoas do mesmo sexo em um mundo utópico. No livro, as relações entre homens e mulheres são semelhantes, pois todos buscam o mesmo estado: harmonia, liberdade e amor. A comunicação entre eles é de entendimento implícito, muitas vezes marcada por cumplicidade; cada pessoa revela, na troca, do que ela mesma e o outro precisam. Na realidade, é difícil alcançar esse nível, mas a literatura pode inspirar as pessoas a seguir nessa direção.
Muitos dos personagens homens aparecem inicialmente como figuras secundárias, mas depois se revelam. Isso é intencional?
Ao retratar homens ou mulheres, recorro frequentemente à ironia. Ela me permite penetrar facilmente na essência das coisas e liberar a paixão da escrita. A personagem da cantora idosa é construída assim, para evidenciar a beleza de sua arte e seu poder de tocar o coração das pessoas. É preciso lembrar que, em meus livros, cada personagem é um desdobramento de mim mesma. A criação de Can Xue difere da de escritores comuns: é uma escrita que irrompe a partir do eu.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “‘Meus livros são difíceis de ler’”
