Os pesquisadores Fillipi Nascimento e Michael França (Divulgação)

Desigualdades,

A origem da diferença

Michael França e Fillipi Nascimento mostram, em narrativa simples e eficaz, como o local de nascimento, e não o mérito, dita destinos no Brasil

28jan2026 | Edição #102

Em A loteria do nascimento, Michael França e Fillipi Nascimento desmontam, com precisão e sensibilidade narrativa, a confortável ilusão de que o Brasil seria um país onde o mérito individual determina os destinos. O livro evidencia o caráter ficcional da crença de que “quem quer vence”, um mito útil à manutenção de privilégios e ao mesmo tempo pernicioso para qualquer horizonte democrático.

França e Nascimento fazem algo raro: combinam densidade teórica e leveza narrativa, costurando dados, histórias e reflexões em um texto que se lê com fluidez, mas que incomoda, como deve incomodar tudo o que expõe os mecanismos silenciosos da desigualdade. Logo nas primeiras páginas, o estudo assume explicitamente esse propósito: denunciar o modo como “o local do nascimento dita grande parte dos resultados atingidos na vida dos cidadãos”. Ao rejeitar explicações moralizantes, os autores recolocam o debate na dimensão estrutural.

Ilustração de Mayara Smith

Como enfatiza o filósofo estadunidense Michael Sandel em A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? (Civilização Brasileira, 2020), o discurso meritocrático opera uma enganosa pedagogia da culpa, culpabilizando os indivíduos pelos obstáculos criados por estruturas que antecedem e ultrapassam suas vontades.

Em consonância com a literatura sobre o tema, França e Nascimento mostram que a desigualdade brasileira funciona como herança material, simbólica e relacional, que é reproduzida de forma quase automática entre gerações. Quando descrevem como “o patrimônio herdado pelos filhos dos ricos, por exemplo, transcende a concepção de mérito individual” e como as vantagens se perpetuam independentemente do esforço dos envolvidos, os autores revelam o verdadeiro motor das diferenças de trajetória: não o mérito, mas a origem.

Essa perspectiva é reforçada pela narrativa ficcional dos gêmeos Espedito e Espeditiano, utilizada como dispositivo pedagógico para evidenciar o contraste entre desigualdades “justas”, derivadas das escolhas individuais, e “injustas”, derivadas de circunstâncias como raça, classe e gênero. A construção, ao mesmo tempo simples e eficaz, ecoa o argumento de que nenhuma sociedade pode se dizer democrática se naturaliza a distribuição tão desigual de oportunidades, ideia central neste e em outros títulos que abordam a meritocracia em sociedades marcadas por desigualdades estruturais.

Cotas

O livro dá especial atenção à expansão do acesso ao ensino superior nas últimas duas décadas, destacando a centralidade das ações afirmativas nesse processo. Ao recordar como “as portas das universidades foram parcialmente abertas para os mais desfavorecidos”, os autores reconhecem o caráter transformador das políticas de cotas. Elas romperam, ainda que de forma incompleta, o monopólio das elites sobre o espaço universitário, produzindo efeitos simbólicos e materiais que reverberam para além das universidades.

No entanto, ampliar o acesso não garante igualdade de condições. O estudo mostra que a democratização do ingresso não foi acompanhada por políticas robustas de permanência: estudantes de baixa renda enfrentam obstáculos que vão de moradia precária a jornadas exaustivas de trabalho, passando por racismo, sexismo e ausência de redes de apoio. “A aprovação no vestibular está longe de ser o último dos desafios”, dizem os autores, sublinhando que a estrutura universitária, ainda elitista, é capaz de causar danos à saúde mental dos estudantes em vez de acolhê-los.

Se as cotas escancaram portas, é a permanência que sustenta trajetórias. Bolsas insuficientes, falta de apoio psicológico, distância geográfica entre moradia e universidade e ambientes acadêmicos marcados por discriminações contribuem para que muitos desistam ou tenham experiências universitárias devastadoras. A crítica dos autores converge com o argumento central de Michael Sandel: a meritocracia falha não apenas porque ignora os pontos de partida, mas porque se recusa a ver os obstáculos do percurso.

Ampliar o acesso à universidade não garante igualdade de condições, apontam os pesquisadores

Outra virtude de A loteria do nascimento é demonstrar que, mesmo quando o diploma é conquistado, a desigualdade não se dissolve. As redes de contato e influência aparecem como um mecanismo decisivo de reprodução das elites. Os autores descrevem, a partir de suas próprias trajetórias, como “grande parte das movimentações no mercado de trabalho ocorre por indicações e recomendações” e como isso privilegia quem já estava conectado às esferas de poder. Ou seja, o discurso meritocrático não dá conta da dimensão estrutural das redes de privilégio. Para França e Nascimento, a ausência de capital social e cultural, uma dimensão imaterial mas eficaz, impede que filhos de porteiros e filhas de empregadas domésticas convertam suas conquistas educacionais em mobilidade profissional.

O estudo, assim, reforça a necessidade de políticas públicas que atuem para além da universidade. Não basta garantir o acesso: é preciso garantir que estudantes de baixa renda, mulheres, negros, indígenas e quilombolas tenham apoio para ingressar no mercado de trabalho público e privado. A equidade, portanto, é uma condição e não um efeito colateral do desenvolvimento.

Ao final, A loteria do nascimento reafirma um argumento essencial: uma sociedade que se pretende democrática não pode aceitar que o ponto de partida de cada pessoa defina sua perspectiva de futuro. A ética do vencer pelo esforço, que sustenta a meritocracia, não pode ignorar que as pessoas enfrentam barreiras diferentes no acesso às oportunidades e não controlam o próprio destino.

França e Nascimento recordam que políticas públicas não servem para premiar indivíduos, mas para “equalizar oportunidades e diminuir o peso das condições fora do controle do indivíduo nos resultados alcançados em suas vidas”. Eis o cerne do debate. Não se trata de apagar diferenças, mas de impedir que elas se convertam em destino. A loteria do nascimento, afinal, não precisa continuar decidindo quem pode sonhar e quem deve apenas sobreviver.

Quem escreveu esse texto

Anna Carolina Venturini

Doutora em ciência política pelo Iesp-Uerj, é diretora na Secretaria-Executiva do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “A origem da diferença”

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.