Fac-símile da primeira página do manuscrito (Arquivo Nacional Torre do Tombo [ANTT]/Divulgação)

Poesia,

Um sátiro no Brasil Colônia

Primeira coletânea nacional de poemas não religiosos de que se tem notícia joga luz sobre a Salvador do século 16

27jan2026 • Atualizado em: 23fev2026 | Edição #102

O ano era 1592 e Bartolomeu Fragoso estava em apuros. No Engenho da Cidade, em Salvador, onde residia com o tio exportador de açúcar, o jovem luso-brasileiro recebera a desagradável visita da Santa Inquisição, sendo surpreendido em tripla heresia. A denúncia que motivou a batida era a de que, numa aula no Colégio dos Jesuítas da Bahia, onde a elite local se educava, Fragoso blasfemara: disse que “nem Jesus” o convenceria de que seus cálculos relativos à curvatura da Terra estavam errados. 

Durante a inspeção, a situação se deteriorou, pois ele possuía trechos copiados da picante novela pastoril La Diana, proibida no índex do Santo Ofício. A revelação mais escandalosa, porém, foi outra. Fragoso era autor de “sonetos jocosos”, que ofendiam a moral, a família e os bons costumes, e que, cúmulo dos cúmulos, foram dedicados a duas meretrizes — que eram irmãs!

Sua provável condição de cristão–novo não facilitava as coisas, mas, para um jovem bem relacionado na colônia nascente, a tudo dava-se jeito. Fragoso passou dezoito dias preso enquanto respondia à acusação, e sua pena até que foi branda. Ao fim do processo, o inquisidor menciona novidades — o jovem trajava um ainda inédito “hábito clerical” e estava bastante arrependido. Sem receber chibatadas ou pena de prisão, foi degredado de Salvador e teve os escritos sequestrados.

“Desconfio que esse ‘hábito clerical’ veio bem a calhar. Talvez tenha havido corrupção, como outros perseguidos, como Bento Teixeira [autor da Prosopopeia, de 1601], denunciavam à época”, especula Sheila Hue, professora de letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em entrevista à Quatro Cinco Um.

Descoberta

Não se sabe o destino de Fragoso após o degredo, mas seus poemas, remetidos pela Inquisição a Portugal, permaneceram guardados por mais de quatrocentos anos, até serem descobertos por Hue no Arquivo Nacional Torre do Tombo, em Lisboa. O caso se deu durante a pandemia do coronavírus, quando a pesquisadora folheava o processo de heresia contra Fragoso. Entre os anexos, havia cartas e o rascunho de traduções feitas pelo poeta, mas o que mais chamou atenção foi o manuscrito do que ela logo reconheceu ser um livro. 

“É uma espécie de panfleto poético que circulava na Salvador daquele tempo. Fiquei extremamente espantada, porque nunca tinha visto isso. Que eu saiba, não existe, em língua portuguesa, algo assim no século 16.”

O poeta foi degredado e seus escritos redescobertos quatrocentos anos depois nos arquivos da Inquisição

Hue fala com conhecimento de causa. Os textos produzidos nos primeiros anos da colonização, bem como a literatura ibérica desse período, são seu campo de estudos. Nos últimos anos, ela publicou edições comentadas de 20 sonetos, de Luís de Camões, e Carta de achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, ambos pela editora da Unicamp, e Ingleses no Brasil: relatos de viagem, 1526-1608, pela Chão, junto com Vivien Kogut Lessa de Sá. 

O padre José de Anchieta, por exemplo, precursor da literatura na Colônia, escrevia poemas e peças de teatro no século 16, mas sempre sobre temas religiosos. Nada que se pareça com os sete sonetos e a balada que Fragoso dirigiu às irmãs Beatriz e Magdalena Correa, as “baldaias” (baldias, sem dono), escritos antes de 1591 e finalmente publicados, em setembro de 2025, sob o título O cancioneiro das baldaias.

Já no primeiro soneto, parodiando a métrica de Petrarca, então na moda, Fragoso canta os dotes de Beatriz (“Em Portugal nascida e lusitana/ A quem igual não há em ser fermosa”), criando talvez o mito da mulher brasileira. É que, aos olhos do poeta, a moça era “fresca mais que cana/ sendo duma tal verdura sobre-humana”. 

O panfleto poético presta um testemunho do fim do primeiro século da colonização

Nenhum frescor de lírio ou de rosa italiana, mas sim de cana-de-açúcar; tampouco tinha a irmã Correa a pele “branca como a neve”, porém verdíssima qual um canavial. Versos possíveis de ser escritos apenas por quem, como analisa Hue no rico posfácio do cancioneiro, foi “criado entre o engenho e a cidade de Salvador, chupando cana, uma poesia que é testemunha da transformação da paisagem da Colônia pela monocultura”. 

Parte da relevância do panfleto poético de Fragoso está no testemunho sobre o fim do primeiro século da colonização. Amparada nos versos cômicos do autor e em relatos de viajantes, Hue descreve a primeira capital da Colônia como uma cidade boêmia, repleta de “instrumentistas, atores, declamadores e cantores”, que realizavam performances em praças, nas casas luxuosas da elite colonial e nos rendez-vous que a Igreja até tentava (mas não podia) suprimir. A cidade ostentava uma escola como o Colégio dos Jesuítas, comparável ao Colégio de Artes de Coimbra ou ao Colégio de Paris, dois dos principais centros acadêmicos da Europa, onde se estudavam cosmografia, teologia, música, teatro e poesia.

Abandono

Fragoso era capaz de debochar da bagagem jesuítica que recebera, arremedando, nas palavras de Hue, “as poesias que pregavam o abandono do mundo secular e a entrega à vida religiosa”, porém implorando às baldaias que se entreguem não a Jesus, mas a ele (se não as duas, ao menos uma, pondera num dos sonetos). Também podia ele escrever um livro completo ignorando solenemente a realidade a sua volta — não há, em todo o cancioneiro, menção aos africanos e indígenas que sustentavam, com o trabalho forçado, a nascente opulência baiana.

É interessante notar ainda o caráter instrumental dos versos de Fragoso, cujo objetivo declarado era convencer as baldaias a não tomar o navio para Portugal. Como um anti-Camões, que tenta incitar a covardia e não a coragem de enfrentar os oceanos, ele enumera, na balada que fecha o livreto, “os grandes e peligrosos sucessos do mar, seus desvios, crueldades, ajuntando-lhe algumas boas sentenças de filósofos”. Nesse ponto, o luso-brasileiro não se afasta da poesia de seu tempo. “A poesia naquele período servia para várias coisas: Camões escreveu um poema pedindo camisas. Há um poema cômico em que outro autor pede uma galinha, outro mais em que o poeta solicita que seu amigo seja libertado da prisão”, explica Hue.

Mas certas coisas parecem nunca mudar, reflete a pesquisadora. “A inquisição buscou fazer a mesma coisa que os censores da ditadura militar e que o governo de Bolsonaro: destruir a célula cultural que existia então. A Igreja processou todo mundo que fazia música, poesia e teatro em Salvador.” Para Hue, isso é ilustrativo de como os regimes autoritários veem a arte, o pensamento livre e o humor. “Os versos de Fragoso desafiavam a sociedade daquela época. Por isso, um livro como esse cancioneiro nunca poderia ser publicado no século 16. A gente teve sorte de ele ter sido costurado junto ao processo da Inquisição, chegando até os nossos dias. É um capítulo da literatura produzida no Brasil que a gente ainda não conhecia.”

Quem escreveu esse texto

Leandro Aguiar

Jornalista, é doutorando em Comunicação pela Universidade de
Brasília (UnB).

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Um sátiro no Brasil Colônia”