Literatura japonesa,
No encalço da verdade
A investigação de um suposto suicídio opõe, com a visão de dois detetives, a intuição e o cálculo típicos de histórias policiais
01jan2026 • Atualizado em: 05jan2026 | Edição #101“A carta roubada” é um conhecido conto de Edgar Allan Poe e envolve a investigação do roubo de uma carta da realeza, cujo conteúdo poderia causar um escândalo. Por isso, é urgente que o documento seja recuperado, em sigilo. A primeira atitude da polícia é revistar de cima a baixo a casa do ladrão, partindo da premissa de que a carta foi escondida em algum lugar. O detetive Dupin, no entanto, não acredita nisso. O desenlace é a sacada do personagem de procurar a carta bem onde seria normalmente guardada, um porta-cartas, concluindo que o ladrão, querendo proteger seu trunfo, em vez de esconder, deixou a carta à vista em um local óbvio.
A breve divagação é uma forma de chegar a O expresso de Tóquio, de Seichō Matsumoto — originalmente publicado em 1958 e recém-lançado pela Todavia —, que, à sua maneira, remete ao conto de Poe. À sua maneira sobretudo porque a caracterização dos detetives não se assemelha em nada à esperteza provocadora de Dupin. A construção, porém, envolve o árduo trabalho de colocar a versão oficial sob uma lupa para separar a verdade do verossimilhante e, assim, tentar reconstruir a história por trás de dois corpos encontrados em uma praia numa manhã de inverno.
Matsumoto (1909-1992) começou a publicar seus primeiros contos em jornais e revistas japoneses na década de 40. O expresso de Tóquio é seu primeiro romance, que, aliás, já tinha sido traduzido para o português em 1970 com o título Dois pontos e uma reta. Autor prolífico, que nos últimos anos ganhou novas traduções, é reconhecido como um expoente do gênero policial.
Autor prolífico, Seichō Matsumoto é reconhecido como um expoente do gênero policial
O romance é aberto com a apresentação de Tatsuo Yasuda, poderoso comerciante que mantém relações com membros do governo e é habitué de um restaurante — um tipo agradável e simpático. Um dia, Yasuda convida duas garçonetes para almoçar e ambas aceitam o convite de bom grado. O almoço acontece e, em seguida, ele diz que precisa pegar um trem para visitar a esposa doente. As duas mulheres vão com ele à estação e lá veem outra garçonete, Otoki, acompanhada de um homem. As garçonetes ficam surpresas: não sabiam que Otoki tinha um namorado. Mas se despedem do cliente simpático e vão trabalhar. Uma semana depois, Otoki e o homem, que se chama Kenichi Sayama, são encontrados mortos em uma praia.
Não há sinais de violência; os corpos estão incólumes, limpos. Com eles, há uma garrafa de suco. A dedução dos investigadores que chegam à praia na manhã seguinte à morte soa inequívoca: trata-se de um duplo suicídio amoroso. Em parte, as informações disponíveis corroboram a hipótese: a autópsia detecta que a causa da morte foi a ingestão de cianeto; além do mais, há o testemunho das duas garçonetes que viram os dois embarcando em um trem. Por outro lado, há elementos estranhos: por exemplo, nos dias anteriores, o homem ficou hospedado sozinho em uma pensão na cidade. Onde estava a mulher? Seria crível que os dois, que decidiram tirar a vida juntos, passassem separados os dias que antecederam a morte?
Há outro fator insólito: Sayama era funcionário de um ministério envolvido num esquema de corrupção. Embora ainda não tivesse sido intimado a depor, era de se esperar que, por causa da natureza do cargo, ele detivesse informações relevantes para uma investigação que poderia comprometer figurões do governo. Ou seja, sua morte não era má notícia para determinadas pessoas.
Pontas soltas
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Os detetives das histórias policiais costumam unir dois atributos: a intuição e o cálculo. A intuição é aquele saber que antecede o raciocínio, que resiste a acreditar nas primeiras explicações e que, através do engenho e da criatividade, se agarra a pequenos detalhes capazes de iluminar a realidade com uma luz diferente. O cálculo é o raciocínio esquemático, que desvenda os detalhes e busca a norma em elementos dispersos e o particular no geral, para assim fornecer uma hipótese que dê conta do que realmente aconteceu.
Uma das graças de O expresso de Tóquio é que Matsumoto segrega os atributos típicos em dois detetives diferentes. O primeiro, que se recusa a comprar a versão do duplo suicídio amoroso, é Jutaro Torigai, de Fukuoka, cidade onde os corpos foram encontrados. Detetive experiente, ele decide tentar puxar o fio das pontas soltas, por mais que seus superiores estejam satisfeitos com a versão oficial. Sua investigação solitária apenas reforça que algo está estranho e que a história é verossímil demais para ser verdadeira. No entanto, nenhuma das suas inquietações leva a uma conclusão concreta.
O romance tem uma toada paciente de raciocínio, não a ponto de comprometer a vontade de virar as páginas
E aqui entra o segundo detetive, Kiichi Mihara, de Tóquio, encarregado de se aprofundar no caso por causa das relações do morto com o alto escalão político. Ele vai a Fukuoka, escuta as desconfianças de Torigai e delas elabora sua tentativa de elucidar o caso, particularmente inquieto com a incrível coincidência de Yasuda e as duas garçonetes verem o casal entrando juntos em um trem na sempre tão movimentada estação de Tóquio. Ele incorpora a tenacidade e o raciocínio calculista buscando dados que comprovem as fragilidades da história oficial.
Do romance, segmentado em treze capítulos, daria para depreender uma estrutura de três partes determinadas pelo olhar que tenta desvendar a verdade: primeiro, somos conduzidos pela intuição de Torigai; depois, pela teimosia racional de Mihara; e, por fim, os últimos dois capítulos são compostos de um diálogo epistolar entre os detetives. É nessa parte final que aparece uma fala de Torigai bastante reveladora da atmosfera da história:
Por vezes o ser humano, sem perceber, deixa noções preconcebidas ofuscarem algo óbvio. Isso é perigoso. Muitas vezes esse senso comum se torna crônico e cria pontos cegos. Mesmo o senso comum estabelecido deve ser rompido e examinado no curso de uma investigação.
Hipóteses
Para o teórico da literatura Tzvetan Todorov, romances policiais costumam ter duas narrativas: a do crime e a da apuração. A primeira oculta ou desfalca o que a construção da segunda tenta elucidar por meio de uma mistura de fabulação e cálculo, segundo Todorov, juntando os fragmentos factuais e os traços apreensíveis de caracteres para recompor as peças do quebra-cabeça.
Com a fabulação e o cálculo cindidos entre Torigai e Mihara, a segunda narrativa é construída com uma atenção meticulosa aos detalhes, que ganha forma, sobretudo, no modo como Mihara perscruta as linhas de trem japonesas tentando compreender os passos das vítimas e do suposto assassino. Cada vez que chega a um beco sem saída, ele volta um passo atrás e a história se bifurca em novas hipóteses.
Sem epifanias mirabolantes, sem um pulo do gato que milagrosamente resolve o mistério, o romance de Matsumoto tem uma toada paciente de raciocínio, quase obsessivo, não a ponto de comprometer o atributo eletrizante que desperta a vontade de virar as páginas. Ao mesmo tempo, como paira sobre as mortes a sombra de disputas políticas e esquemas de corrupção, a conclusão do caso não necessariamente coincide com a justiça, indicando que a narrativa privilegia a verdade à verossimilhança.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “No encalço da verdade”
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