O poeta Fernando Pessoa (Arquivo Manuela Nogueira/cedido pela Casa Fernando Pessoa)

Poesia,

Nove poemas de Fernando Pessoa nos 90 anos de sua morte

A convite da Quatro Cinco Um, o professor Jerónimo Pizarro selecionou alguns versos da vasta obra do poeta português e seus heterônimos

28nov2025 • Atualizado em: 01dez2025

Conhecido por versos antológicos e pelos mais de cem heterônimos, Fernando Pessoa (1888-1935) não chegou a testemunhar o interesse mundial que sua obra ganharia, publicada quase toda postumamente. 

Nos noventa anos da morte do poeta, a Quatro Cinco Um convidou Jerónimo Pizarro, um dos maiores especialistas em Pessoa e organizador da coleção sobre o escritor português na Tinta-da-China Brasil, para selecionar nove poemas que ajudam a conhecer mais da sua extensa obra. 

A seguir, leia a seleção preparada por Pizarro:

1. Ulisses 

O mito é o nada que é tudo. 

O mesmo sol que abre os céus  

É um mito brilhante e mudo —  

O corpo morto de Deus, 

Vivo e desnudo. 

Este, que aqui aportou, 

Foi por não ser existindo.  

Sem existir nos bastou. 

Por não ter vindo foi vindo  

E nos criou. 

Assim a lenda se escorre  

A entrar na realidade, 

E a fecundá-la decorre.  

Em baixo, a vida, metade  

De nada, morre. 

(Mensagem, Fernando Pessoa)

2. 

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,  

Não há nada mais simples. 

Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.  

Entre uma e outra coisa todos os dias foram meus. 

Sou fácil de definir. 

Vi como um danado. 

Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. 

Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.  

Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.  

Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; 

Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.  

Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. 

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.  

Fechei os olhos e dormi. 

Além disso, fui o único poeta da Natureza. 

(Alberto Caeiro)

3.  

As rosas amo dos jardins de Adónis,  

Essas vólucres amo, Lídia, rosas, 

Que em o dia em que nascem,  

Em esse dia morrem. 

A luz para elas é eterna, porque  

Nascem nascido já o sol, e acabam 

Antes que Apolo deixe 

O seu curso visível. 

Assim façamos nossa vida um dia,  

Inscientes, Lídia, voluntariamente 

Que há noite antes e após  

Do pouco que duramos. 

(Ricardo Reis)

4. P-HÁ 

Hoje, que sinto nada a vontade, e não sei que dizer, 

Hoje, que tenho a inteligência sem saber o que qu’rer, 

Quero escrever o meu epitáfio: Álvaro de Campos jaz 

Aqui, o resto a Antologia Grega traz… 

E a que propósito vem este bocado de rimas? 

Nada… Um amigo meu, chamado (suponho) Simas, 

Perguntou-me na rua o que é que estava a fazer, 

E escrevo estes versos assim em vez de lho não saber dizer. 

É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo. 

Mas às vezes rimar é preciso. 

Meu coração faz como um saco de papel socado 

Com força, cheio de sopro, contra a parede do lado. 

E o transeunte, num sobressalto, volta-se de repente 

E eu acabo este poema indeterminadamente. 

(Álvaro de Campos) 

5. 

How many masks wear we, and undermasks, 

Upon our countenance of soul, and when, 

If for self-sport the soul itself unmasks, 

Knows it the last mask off and the face plain? 

The true mask feels no inside to the mask 

But looks out of the mask by co-masked eyes. 

Whatever consciousness begins the task 

The task’s accepted use to sleepness ties. 

Like a child frighted by its mirrored faces, 

Our souls, that children are, being thought-losing, 

Foist otherness upon their seen grimaces 

And get a whole world on their forgot causing; 

And, when a thought would unmask our soul’s masking, 

Itself goes not unmasked to the unmasking. 

(35 Sonnets, Fernando Pessoa)

6. 

Não meu, não meu é quanto escrevo.  

A quem o devo? 

De quem sou o arauto nado? 

Porque, enganado, 

Julguei ser meu o que era meu?  

Que outro mo deu? 

Mas, seja como for, se a sorte  

For eu ser morte 

De uma outra vida que em mim vive,  

Eu, o que estive 

Em ilusão toda esta vida  

Aparecida, 

Sou grato 

Ao de quem sou, erguido pó,  

Símbolo só. 

(Fernando Pessoa) 

7. António de Oliveira Salazar

Coitadinho 

Do tiraninho! 

Não bebe vinho, 

Nem sequer sozinho… 

Bebe a verdade 

E a liberdade, 

E com tal agrado 

Que já começam 

A escassear no mercado. 

Coitadinho 

Do tiraninho! 

O meu vizinho 

Está na Guiné, 

E o meu padrinho 

No Limoeiro 

Aqui ao pé, 

Mas ninguém sabe porquê. 

Mas, enfim, é  

Certo e certeiro  

Que isto consola  

E nos dá fé: 

Que o coitadinho  

Do tiraninho  

Não bebe vinho,  

Nem até 

Café. 

(Um Sonhador Nostálgico do Abatimento e da Decadência)

8. 

Pobre velha música!  

Não sei por que agrado,  

Enche-se de lágrimas  

Meu olhar parado. 

Recordo outro ouvir-te.  

Nem sei se te ouvi  

Nessa minha infância  

Que me lembra em ti. 

Com que ânsia tão raiva  

Quero aquele outrora! 

E eu era feliz? Não sei:  

Fui-o outrora agora. 

(Fernando Pessoa)

9. A voz de Deus

Brilha uma voz na noute…  

De dentro de Fora ouvi-a… 

Ó Universo, eu sou-te…  

Oh, o horror da alegria  

Deste pavor, do archote  

Se apagar, que me guia! 

Cinzas de ideia e de nome  

Em mim, e a voz: Ó mundo  

Sêrmente em ti eu sou-me…  

Mero eco de mim, me inundo  

De ondas de negro lume 

Em que pra Deus me afundo. 

(Fernando Pessoa)

Episódio especial 451 MHz

Marcando os noventa anos da morte de Pessoa, o 451 MHz publicou um episódio especial, em formato narrativo, que investiga a vida e o legado do poeta português. 

Para traçar um retrato do mais multifacetado dos poetas, o programa reúne entrevistas com os especialistas Jerónimo Pizarro e Ida Alves, professora de literatura portuguesa da UFF, e com os poetas e professores Eucanaã Ferraz e Leonardo Gandolfi. Conta ainda com a participação do escritor Eduardo Giannetti, autor de Imortalidades (Companhia das Letras, 2025), que comenta a relação do poeta com a posteridade, e com a leituras de poemas de Pessoa pela atriz portuguesa Maria de Medeiros. Ouça aqui.

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