Os Melhores Livros de 2025, Poesia,
A nave dos desejos
Antologia reúne produção poética da escritora considerada ‘inominável’ pela ditadura no Uruguai
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Em 1972, a poeta Cristina Peri Rossi foi declarada “inominável” pelo governo uruguaio. Os jornais estavam proibidos de mencionar seu nome e seus livros estavam banidos. Em seu país, ela não tinha mais o direito à palavra.
O que a colocou na mira da censura foi seu primeiro e único livro publicado até então. Evohé (1971) escandalizou os censores da época com poemas sobre sexualidade e o amor entre mulheres. E, mais do que isso, o livro inaugura uma obra que é inteira pautada pelo amor às palavras.
A ditadura uruguaia começaria no ano seguinte, em 1973. A poeta partiu, então, rumo ao exílio. Fixou morada na Espanha, onde vive até hoje. Publicou, ao todo, dezoito livros de poesia. Mas foi só em 2025 que seus versos ganharam a primeira tradução no Brasil — não sem antes ganhar, em 2021, o devido reconhecimento com o Prêmio Cervantes. “Falo a língua dos conquistadores/ mas digo o oposto do que eles dizem.”
Mais do que dar protagonismo às mulheres, Peri Rossi retrata o ridículo da performance patriarcal
Apesar de a editora Gradiva ter publicado, em 2017, sua coleção de contos Espaços íntimos (edição esgotada) no Brasil, a estreia de sua poesia demorou, mas foi em grande estilo: uma antologia com 150 poemas selecionados e traduzidos por Ayelén Medail e Cide Piquet, reunidos sob o título Nossa vingança é o amor pela Editora 34. A seleção contempla poemas de todos os dezoito livros, dando ao leitor brasileiro uma boa amostra de sua produção poética ao longo de mais de cinquenta anos de carreira.
Depois de Evohé, Peri Rossi publicou Descripción de un naufragio (Editorial Lumen, 1975), livro marcado pela travessia feita de navio da América para a Europa, cheio de imagens relacionadas ao mar, como uma mulher que encara um novo horizonte que se oferece imenso e desconhecido, “inundada de tristezas”.
DEDICATÓRIA
Mais Lidas
A todos aqueles navegantes
argonautas de um país em ruínas
desaparecidos em diversas travessias,
várias,
que um dia empreenderam navegações
de incertos desenlaces.
A esta “Dedicatória”, seguem-se poemas com versos longos e numerosos, que imprimem na página uma mancha densa. Os poemas em tom narrativo dão ao texto um ritmo tempestuoso e constante, como ondas que não cessam.
A poeta que teve a coragem de publicar, anos antes, um poema-oração dizendo “Silêncio./ Quando ela abre as pernas/ que todo mundo se cale” deu lugar a uma escritora melancólica e profundamente tocada pela violência do exílio imposto (“Tenho uma dor aqui/ do lado da pátria”), mas não resignada:
Nossa vingança é o amor, Veronique,
eu te disse aquela noite na Pont des Arts,
[…]
Sem dúvida nossa vingança será o amor
poder amar, ainda
poder amar, apesar de tudo
apesar de conforme sem onde como quando
mas antes, te juro — me disse Veronique —
eu queria
queria muito
mandar à merda uns quantos filhos da puta,
de maneira indolor, é claro,
porque sou civilizada
e faço amor com preservativo.
Deslocamento
Uma década depois, nada ficou no lugar. Em Europa después de la lluvia (1987), Peri Rossi assenta seu território poético usando, curiosamente, imagens de deslocamento: um vulcão, uma ilha de gelo à deriva, o regresso de Ulisses à pátria, um homem que anda sob a chuva e amigos que recomendam viagens. Ela o faz como quem deseja naturalizar a travessia, tirando-a do lugar comum do trauma.
Nos anos 90, Peri Rossi publica cinco livros. Em Babel bárbara (1991), no ano em que completa sessenta anos, ela volta sua libido de novo às palavras e ao ato da criação literária.
O PARTO
Do fundo do ventre,
como uma montanha,
a obscura força do desejo.
O desejo, obscuro como uma semente.
A semente fechada e muda
como uma ostra.
Os lábios da ostra
lentamente se abrindo,
como a vulva.
A vulva, úmida e violeta,
às vezes, fosforescente.
[…]
A palavra apontando para fora.
A palavra, sobressaindo do vestido.
A palavra, empurrando seu broto,
sua alegria, sua maldição.
Otra vez Eros (1994) toma emprestado como título um fragmento de um verso de Safo, revelado na epígrafe do livro. Há poemas dedicados à poeta grega, a Virginia Woolf e a outras escritoras:
doces antepassadas minhas
afogadas no mar
ou suicidadas em jardins imaginários
trancadas em castelos de muros lilás
e arrogantes
esplêndidas em seu desafio
à biologia elementar
que faz da mulher uma parideira
antes de ser de fato uma mulher
O poema acima se chama “Genealogia” e invoca o início de sua relação com os livros, na biblioteca de seu tio — um “funcionário público, culto, grande leitor e ferozmente misógino” — que a alertou logo cedo que “as mulheres não escreviam, e que quando escreviam se suicidavam, como Safo, Virginia Woolf e Alfonsina Storni”. É a própria Peri Rossi quem conta essa história em seu discurso para a cerimônia de entrega do Prêmio Cervantes, publicado na íntegra como apêndice da antologia brasileira.
Mais do que dar protagonismo às mulheres em seus poemas, Peri Rossi retrata o ridículo da performance patriarcal com humor e ironia. No livro Aquella noche (1996), ela denuncia seus contemporâneos que se exibem em conferências de escritores “como machos no cio”:
Eu os vi dar autógrafos
paquerar
se embebedar
subir para o quarto
com a admiradora arrebatada
[…]
Todos eles sabiam algo
que as leitoras não sabem:
a literatura não é de verdade
E sobra até para Flaubert:
Somente um macho francês
esnobe e cheio de si
para zombar a tal ponto
dos sonhos de uma mulher
[…]
Flaubert sonhou Emma Bovary
mas pode-se dizer, com toda certeza
que Emma Bovary jamais sonhou Flaubert
Em Las musas inquietantes (1999), ela volta seu olhar (“O olhar é a ereção do olho”, diz Lacan na epígrafe) para as musas nas pinturas clássicas feitas por artistas como Courbet, Balthus e Uccello. O título é emprestado de uma obra de Giorgio de Chirico, na qual mulheres são retratadas “descabeçadas, incompletas/ solenes no pedestal ridículo”.
Mais adiante, em Estrategias del deseo (2004), ela retoma o chiste da musa com divertida ironia:
DESPEDIDA DA MUSA
Ontem expulsei a musa
por mau comportamento:
despojou-se dos véus
dos vestidos das palavras
dos versos das rendas
e quis ser ela mesma
recuperar sua identidade
falou de seus direitos femininos
e reclamou sua liberdade
Pobre musa sem poeta
pobre corpo sem investidura
pobre mulher sem quem a sonhe.
Sei o que acontece
a musa teve inveja do poeta
já não quer ser musa
agora quer escrever versos.
O amor pelas mulheres transborda de todos os versos do livro. É algo da experiência pessoal da autora, homossexual assumida desde o início de sua vida pública, mas também invoca o “continuum lésbico”, conceito de Adrienne Rich (1929-2012), poeta estadunidense com quem Peri Rossi tem muito mais em comum do que os escritores do boom latino-americano, no qual insistem em diluí-la.
O “continuum lésbico” se refere ao amor entre mulheres de forma mais ampla, baseado numa identificação mais profunda, que transcende a ideia da experiência sexual ou romântica para incluir um espectro de solidariedade, reconhecimento, apoio e trocas.
Uma imensa nave como útero de baleia
onde as palavras navegam sem cessar
disputam desfrutam se amam e pelejam
descansam em poltronas deixadas ao sol
trocam entre si sandálias e túnicas
e depois, saciadas de sal, de sol e de lutas
amam-se para conjugar os verbos
Ou, como disse Cristina Peri Rossi em entrevista recente ao jornal O Globo: “Se eu pudesse definir completamente o que são o amor e o desejo, não teria por que continuar escrevendo”.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “A nave dos desejos”
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