O antropólogo e pesquisador carioca Michel Alcoforado (Renato Parada/Divulgação)

Desigualdades,

Na selva da elite brasileira

Michel Alcoforado suou para furar a bolha dos endinheirados e entregou um estudo divertido, que esbanja a sabedoria dos algoritmos

06nov2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100

Quando eu ouvia que alguém era antropólogo, logo imaginava a pessoa morando em uma aldeia indígena ou empenhada em lançar um olhar crítico sobre o sincretismo do progressista brasileiro que se diz do candomblé, mas esbanja uma imensa Iemanjá branca na entrada de casa. Ostento livros de antropologia (alguns ainda plastificados) em minha biblioteca. Mas nenhum deles eu li ou leria em dois dias, devorando as páginas, como aconteceu com Coisa de rico, do antropólogo e também pesquisador e consultor de tendências Michel Alcoforado.

Estudar o comportamento dos milionários, tanto os tradicionais do dinheiro velho quanto os novos-ricos desesperados por pertencimento, não torna Alcoforado um antropólogo diferente só pela escolha do tema, mas também pela ambição. Desde o início dessa pesquisa, tanto autor quanto seus editores certamente sabiam que se tornaria um best-seller — o que achei sacanagem justo no ano em que lancei meu livro rindo da elite intelectual. Mas sacanagem é sempre melhor do que livro chato.

Outra previsão óbvia é que irritaria quem se leva a sério demais. Alguns dos meus amigos torceram o nariz: “Ele não parece sofrer por estar nessas rodas”; “Ele se deslumbra com esses ambientes” e, óbvio: “Prefiro antropólogo que retrata as minorias!”. E existe fazer imersão sem estar deslumbrado? O antropólogo na aldeia indígena não ama o que faz? O que estuda religiões africanas não é fascinado pelo tema? Deixa o antropólogo do luxo salivar! Até porque, no final, o que sobressai das suas análises é ironia e veneno.

Segundo o autor, sociólogos não saberiam explicar o desespero dos brasileiros por quinquilharias de luxo

Conforme o autor avança em casas, jantares e viagens, aumenta o seu refinamento. Mas é fácil perdoá-lo: quanto mais camadas de roupas caras ele adquire, mais pelados e escancarados estão seus perfilados. Ao se defender, logo no começo, ele escreve:

Se o cotidiano é uma invenção coletiva na qual as elites têm mais poder, revelar o que elas fazem e como agem para se manter no topo é importante para mostrar os mecanismos que regem a disputa. Só revelando o que tem sido segredo é que será possível abrir um novo campo e novas formas de ação.

Segredo? Em várias passagens eu pensava: “Qual é a novidade? Sempre imaginei que milionário vivesse assim”. Mas até então eu estava só imaginando.

Segundo Alcoforado, economistas adeptos a termos técnicos, historiadores enfurnados em bibliotecas e sociólogos agarrados a gráficos não saberiam explicar o desespero dos brasileiros por quinquilharias de luxo. Era preciso estar junto deles, conviver com — ou seja, aturar — gente como o primeiro casal de quem o antropólogo fica “amigo”: Mário Jorge e Claudette.

A arrogância sutil e refinada dos ricos tradicionais é indigesta. Mas a breguice dos emergentes metidos a besta, precisando ser vistos a qualquer custo, tratando o próprio autor com certo desprezo, é intragável. Imaginar um acadêmico se sujeitando a isso me fez repensar o conceito de “ir a campo” levado a sério apenas quando se trata de embrenhar-se na mata. Selva podia ser Miami com esse casal berrando, maltratando garçons e torrando o pib de Curitiba em bolsas medonhas.

Foi depois de observar o funcionamento desatinado de Mário Jorge e Claudette que começou a obsessão de Alcoforado em analisar os endinheirados do país. Para tal, com a ajuda de uma amiga do grand monde, perdeu um tempão como o pesquisador mala que aparecia na casa dos ricaços com uma lista de perguntas. Não sei como achou que esse método daria certo: são pessoas ou muito ocupadas ou que precisam parecer muito ocupadas. Não por serem reservados, só não queriam se exibir para alguém preocupado com um doutorado.

O que esses patriotas precisavam é que Alcoforado se tornasse um adereço de rico ao modo dos professores de arte que viajam com famílias bilionárias em jatinho e dos curadores de saraus em salas quatrocentonas. Ao perceber isso, ele muda de estratégia: se torna o antropólogo de luxo e passa a ter mais acesso às casas, às festas, ao modus operandi e até às angústias do seu objeto de estudo.

Cinismo afiado

Coisa de rico se torna original à medida que o autor acrescenta seu cinismo à sua percepção sobre as diferenças entre os ricos “de dentro” e os “de fora”, descrevendo cenas prontas para um roteiro cinematográfico. A teoria sobre os “testes de reconhecimento” é um desses momentos. Entendemos como os nobres do dinheiro velho, saudosos de uma corte que nem vivenciaram, controlam quem entra e quem sai — e como operam a diferença, vista em detalhes sutis, que os torna tão raros.

Alcoforado nos lembra das páginas de Sociedade brasileira, um guia da alta-roda que durou cerca de cinquenta anos e acabou em 2012. Era preciso ser muito “de dentro” para ter o nome, o telefone e o endereço expostos nessa lista acessível apenas à elite frequentadora do Country Club em Ipanema (aquele que deu bolas pretas para Guilhermina Guinle).

O que fazer com os forasteiros que ganharam muito dinheiro, mas não tinham o “passado” ou sobrenome corretos? Segundo o antropólogo, o perfil do empresário brasileiro vive em transformação, e a partir da década de 60 a elite precisou começar a se adaptar. Acreditando na meritocracia do pertencimento, os novos-ricos achavam que uma hora furariam a bolha (assim como fez Alcoforado): “A grande batalha das elites brasileiras não é pela construção de um império, é pela conquista das coisas de rico”.

Entre as coisas de rico que era preciso esbanjar, estavam outros ricos, de preferência “ricos de verdade”. Até porque, como o autor nota desde o início, nenhum dos endinheirados se dizia propriamente bem de vida, “rico era sempre o outro”. Para quem duvidar, lembra bem, é só ver a entrevista de João Moreira Salles ao Pedro Bial na qual se diz de classe média alta.

Os tradicionais “de dentro” (que operam no que o autor chama de “tempo legitimador”, em que o passado é apagado ­e eles estão ali “desde sempre”) submetem os forasteiros milionários do “tempo transformador” (que já começa atrasado, com esses ansiosos pelo “novo eu” e por colecionar seus grandes marcos da ascensão) a uma análise minuciosa sobre símbolos financeiros.

Faziam parte de uma primeira conversa: patrimônios, salários, números de subordinados, títulos, que países conhecem, se podem viajar a qualquer momento, onde se hospedam em Paris, o que entendem de arte, se abraçam com elegância em vez de parecerem minhas tias da Mooca, se sabem se vestir e, sobretudo, a pergunta derradeira: se têm ou não secretária (era bom que tivessem várias).

Além disso, era preciso ter o comportamento muito elogiado pelos internos da bolha. Eike Batista, que já foi um dos homens mais ricos do Brasil, foi barrado por completo ao abandonar a noiva patricinha praticamente no altar. O termo “patricinha”, aprendi ao ler Alcoforado, vem justamente do nome de Patrícia Leal, a moça com bons modos e contatos que Eike largou na década de 90 para ficar com uma atriz sexy e malvista pelos conservadores da elite.

Racismo

Ao falar sobre a herança escravocrata nas casas dos emergentes, milionários e bilionários, o autor, um homem preto, não cita se sofreu ou não racismo nesses ambientes. Sabemos que ele sofreu preconceito por ser de classe média e por não ter um sobrenome conhecido (e por ser acadêmico, tenho certeza), mas a referência à sua cor não é explicitada. Isso me gerou curiosidade e uma esperança de que em seu próximo título ele conte mais sobre isso.

Nesse que já escreveu, Alcoforado esbanja a sabedoria dos algoritmos. Para quem gosta de histórias divertidas e fofocas de famosos, ele entrega aos montes. Para quem busca análises embasadas acerca da desigualdade social do país, com citações cabeçudas de europeus, números e bibliografias infinitas, tem também. Coisa de rico é ótimo e está vendendo bem — e isso deve incomodar quem precisa decidir o que é e o que não é um livro de antropologia. Mas duvido que incomode os ricos. Esses eu aposto que estão adorando — até porque muitos certamente mentem ao dizer que leram.

Quem escreveu esse texto

Tati Bernardi

Escritora e roteirista, é autora de A boba da corte (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.

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