A escritora mineira Conceição Evaristo em sua conferência na Festa Literária Internacional de Niterói (Flin) (Divulgação)

Bagagem Literária, Festival literário,

Literatura pode tudo, diz Conceição Evaristo na Festa Literária Internacional de Niterói

Para a escritora mineira, ficção brasileira vive grande momento em que sujeitos historicamente excluídos tomam a palavra sobre os mitos fundadores da nação

17out2025

“A literatura tudo pode”. Com essa afirmação, Conceição Evaristo iniciou sua conferência na Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), nesta quinta (16). Aberto oficialmente com a palestra, o evento acontece até domingo (19) na cidade fluminense e reúne grandes autores em debates sobre temas atuais, como IA, autoria feminina e Amazônia. 

Para a escritora mineira, estamos vivendo um grande momento da literatura brasileira. “Quando pensamos na literatura criada por comunidades que sofrem exclusão, essa é uma forma dessas pessoas dizerem sua história. E também um processo de libertação.”

Evaristo argumenta que as nações utilizam a escrita literária no processo de liberdade, como aconteceu nas lutas de independências de ex-colônias europeias no continente africano, onde, segundo ela, “o discurso da pátria nasceu primeiro na literatura”. 

No Brasil, principalmente nas últimas décadas, a literatura tem sido o lugar onde sujeitos excluídos produzem seus mitos de fundação, afirmou a escritora na mesa “Escrevivência, vozes do eu/nós na literatura brasileira”, a mais esperada do primeiro dia da Flin.

Desde o começo da tarde, pessoas se aglomeravam na fila para a retirada de ingressos (gratuitos e por ordem de chegada) para assistir a Evaristo na sala Nelson Pereira do Santos, auditório do espaço Reserva Cultural Niterói. 

Lembrando os primeiros cânones da ficção nacional, eurocêntricos, e os próprios mitos fundantes do Brasil, ela afirmou que as lacunas da história oficial são preenchidas pela ficção. E citou como exemplo o romance histórico Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, que “preenche esse vazio deixado premeditadamente”. 

Evaristo defendeu uma visão ampla da literatura: “Gosto do pensamento de Antonio Candido, que coloca a literatura como um direito humano”, disse a escritora para a plateia que lotou o auditório, numa fala que remete a uma discussão atual, sobre o que é ou não literatura. 

Em conversa com a Quatro Cinco Um no camarim, logo após o término de sua apresentação na Flin, Evaristo disse que esse tipo de debate é inerente ao nosso tempo. “Talvez o conceito oficial de literatura se sinta ameaçado, porque grupos que tiveram suas falas interditadas estão se apropriando desse objeto nobre que pertencia aos homens brancos, e estão criando uma estética que foge a esse padrão. Tudo isso causa uma reação.”

Na conversa, a escritora lembrou de quando ganhou o Jabuti, em 2015, pela coletânea de contos Olhos d’água. Ela contou que, embora nesta edição do prêmio também houvesse premiados indígenas, ela era a única negra. “Para mim, foi o prêmio da solidão.” 

A escritora explica: “Se o discurso literário simboliza uma nação pluricultural, uma literatura que não contemple todos esses saberes será uma representação manca. Estamos caminhando, mas ainda falta muito”. 

Escrevivência

Evaristo também discorreu sobre o tema da mesa, escrevivência, conceito que criou. “Temos a experiência grandiosa de ver esse conceito apropriado por várias áreas.” Ela contou que tudo começou na década de 80, ao perceber a cumplicidade entre autores, criações e voz lírica ao ler poemas de pessoas negras. 

“Escrever não é só aglutinação de palavras. Talvez outros conceitos de literatura não tenham nascido a partir de um dado histórico e ancestral. Mas eu fui buscar o papel histórico e ancestral das mulheres que viviam na casa-grande”, disse ela, citando Gilberto Freyre – e acrescentando suas ressalvas ao sociólogo pernambucano, especificamente às suas ideias que sustentaram uma suposta “democracia racial” no Brasil. 

“Pensar a escrevivência é pensar a escrita de um lugar de liberdade. Não é para ninar a casa-grande, é para acordá-la de seus sonhos injustos.”

Festa Literária Internacional de Niterói (Flin)
16 a 19 de outubro de 2025
Reserva Cultural Niterói
Av. Visconde do Rio Branco, 880 • Niterói (RJ)

A repórter viajou a convite da organização da Flin

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).