A atriz, cantora e ativista Claudia Wonder (Divulgação)

Livros e Livres,

A maravilha que é Claudia

Flor do asfalto expande a memória de Claudia Wonder, multiartista que tensionou a cultura e embaralhou as fronteiras de gênero, arte e política

30out2025 | Edição #99

Na cena cultural paulistana dos anos 1980 e 1990, houve um vórtice. Cruzava teatro, música e cinema. Uma ventania que se equilibrava na corda sinuosa entre gêneros e se encarnava num só corpo. Era Claudia Wonder (1955-2010).

Um de seus redemoinhos mais intensos foi o show punk “O vômito do mito”, no underground paulistano, em 1985. Claudia começava a cantar vestida de samurai, se transformava em Batgirl e, por fim, surgia com uma máscara de labaredas. No centro da pista, a bandeira do Brasil cobria uma banheira cheia de um líquido vermelho feito de groselha e vinho. Depois de se despir completamente dos símbolos associados às masculinidades, ao som de um tiro e de uma marcha nazista, ela caía no líquido e, inerte, simulava a morte. Ressurgia como Cristo, coberta por um pano branco que virava sudário e, em seguida, envolta pela bandeira. A performance era um “grito de revolta”, dizia. O “sangue” que jorrava no público confrontava o medo da aids e a solidão da epidemia.

O show “O vômito do mito”, em 1985 (Acervo pessoal/Divulgação)

Wonder foi atriz, cantora e ativista de uma das primeiras gerações de travestis brasileiras a ganhar notoriedade. Em 2009, virou tema do documentário Meu amigo Claudia, de Dácio Pinheiro, com título emprestado de uma crônica de Caio Fernando Abreu escrita em 1986. O documentário não deu conta de tudo. Com o material que ficou de fora, Pinheiro lançou Claudia Wonder: flor do asfalto, expandindo a memória da artista, apesar da estrutura convencional que soa tímida diante da exuberância da personagem.

Repleta de fotos, a narrativa se dá em primeira pessoa. Nos depoimentos, Wonder revisita a relação com a família e a ocasião em que se vestiu de mulher pela primeira vez, ainda adolescente:

Botei uma saia, uma blusa, botei um aplique da minha irmã com uma faixa na frente. Na época, ainda estavam construindo o metrô do Bosque da Saúde. Atravessei a ponte e tinha uns caras trabalhando embaixo, no buraco da construção do metrô. Eles me olharam, e eu me senti o máximo!

As lembranças traçam uma cartografia do movimento LGBTQIA+ em São Paulo. Foi no centro, entre a Galeria Metrópole e a Praça da República, em espaços hoje espremidos pela especulação imobiliária, que Wonder criou vínculos com a “sociedade alternativa das bichas”, como brinca.

Seu nome surgiu por acaso. Uma amiga a chamava de Maria Claudia em referência a uma atriz de TV dos anos 70. Maquiagens, cabelos altos e roupas extravagantes fizeram com que logo a associassem a Elke Maravilha. Para ser única, adotou Wonder no sobrenome — “maravilha” em inglês. Pegou. Elke chegou a chamá-la de “minha prima americana”. A estreia nos palcos veio cedo: na boate NostroMondo, na rua da Consolação, aos dezessete anos. Nunca mais parou.

Dácio Pinheiro e Claudia Wonder (Divulgação)

Com a perseguição policial a travestis na ditadura, foi presa várias vezes. Em uma delas, descobriu que o próprio pai, um militar, ordenara que permanecesse detida. “Meu pai falou: ‘Deixa ele mais uns dias, para aprender a não se vestir de mulher’. Acho que na cabeça dele eu ia aprender e não ia mais fazer isso”, lembra. Os dois não romperam a relação. Foi ele quem pagou sua viagem a Paris, em 1978.

Na capital francesa, Wonder trabalhou no famoso cabaré Le Carrousel e desfrutou a cena noturna. “Não fui pra Paris decidida a colocar seios. Para ser sincera, nunca desejei ter seios. […] Mas para trabalhar no Carrousel você precisava ter.” Wonder sabia da ruptura que provocaria no retorno ao Brasil.

Em uma das detenções, descobriu que o próprio pai, um militar, ordenou que permanecesse detida

Enquanto mergulhava no underground, transitava pelo teatro de revista, pelo cinema e até pelas pornochanchadas. Em 1981, apareceu no longa Eu te amo, de Arnaldo Jabor. No teatro, esteve no elenco do cultuado Nossa Senhora das Flores, de Jean Genet, montado no Teatro do Bixiga em 1985.

No circuito alternativo, aproximou-se dos escritores Glauco Mattoso e Roberto Piva. E ganhou o palco do Teatro Oficina, a convite de José Celso Martinez Corrêa. “Claudia Wonder é a história dessa cidade”, disse uma vez o dramaturgo, lembrando de sua atuação como Camarada Verdade em O homem e o cavalo (1985), de Oswald de Andrade, personagem ambígua e provocadora como ela.

Esse trânsito a levou, porém, a experiências incômodas. Posou nua para uma revista masculina e estrelou o filme pornô Sexo dos anormais. “Não gostei de fazer. Fiz para poder dar um up na carreira, porque no Brasil, infelizmente, antes de mostrar o talento você tem que mostrar a bunda.”

Militância

Nos anos 2000, predominou a persona militante. Wonder não se envolveu com partidos, mas assumiu o papel de porta-voz. Criou a ong Flor do Asfalto — daí o título da narrativa —, “um grupo de estudos sobre identidade de gênero, mulheres masculinas, homens femininos, transgêneros, transexuais e intersexos”, como definia. A revelação mais íntima das memórias surge nesse contexto: a artista nasceu intersexo. “Quando eu nasci, o meu pênis não era desenvolvido, os médicos queriam amputar meu testículo para que eu crescesse como menina. Dois meses depois ele brotou.”

Wonder morreu em 2010, aos 55 anos, de criptococose, doença provocada por fungos comuns em fezes de pombo. Sua trajetória, no entanto, abriu clareira e segue reverberando para que outras existências sejam possíveis. No prefácio de Flor do asfalto, a escritora Amara Moira escreve: “Das babadeiras artistas que forjaram esse caminho, um nome decisivo é sem dúvida o de Claudia Wonder”. É essa linhagem que explica figuras atuais como Verônica Valentino, que levou para os palcos a vida de Brenda Lee (travesti que acolheu pessoas trans portadoras de HIV em São Paulo, nos anos 90) e construiu uma carreira de atriz e cantora punk na cena paulistana.

Desde 2013, a SP Escola de Teatro concede o prêmio Claudia Wonder a iniciativas culturais ligadas à diversidade. A honraria lembra que o nome ainda pulsa: Wonder não cabe numa recordação datada. Sua presença continua a cruzar a cultura brasileira, que não se explica sem quem a tensionou por dentro, embaralhando fronteiras de gênero, arte e política. Ela já dizia na canção “Diva da dúvida”: “Meu olho de Diana/ Meu peito de Afrodite/ Minha verdade de Atena/ Quem quiser que acredite/ Sou diva da dúvida/ Wonder pra você/ A verdade do que sou não está no RG”.             

Quem escreveu esse texto

Mateus Araújo

Jornalista e mestre em artes, é repórter do UOL e cofundador da Agência Diadorim.

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025.