Literatura japonesa,
Irreverente e ambiciosa
Na contramão da escrita produzida por mulheres no Japão, Mina Miyajima se tornou fenômeno literário no país com a saga da adolescente Naruse
01out2025 • Atualizado em: 30set2025 | Edição #98Se Akari Naruse, moradora de Ōtsu, capital da província japonesa de Shiga, decidisse escrever um livro, talvez seguisse o conselho dado a toda escritora: sentar e passar para o papel tudo o que lhe viesse à mente. No entanto, essa não foi a linha de sua criadora. A escritora japonesa Mina Miyajima aguardou alguns bons anos, entre a formação em Letras pela Universidade de Quioto e o seu romance de estreia, para se dedicar à ficção.
Aos 29 anos, a escritora hoje com 41 se afastou da trajetória literária para criar sua filha. Voltou a escrever só em 2017. “Não sinto que aquilo que eu escrevo tenha mudado a partir do momento em que me tornei mãe”, conta a autora por e-mail à Quatro Cinco Um. “Tive um pouco de arrependimento por ter uma vez desistido do meu sonho de me tornar escritora, penso que se tivesse continuado a escrever sem interrupção poderia ter iniciado minha carreira mais cedo. Mas sinto que agora é um bom momento para mim.”
Com mais de 1,4 milhão de exemplares vendidos somente no Japão, Naruse vai dominar o mundo (no original, Naruse wa Tenka o Tori ni Iku), lançado no Brasil pela Intrínseca em tradução de Natália Rosa, relata as peripécias irreverentes de uma garota ambiciosa, que quer não só viver até os duzentos anos como também se tornar a maior comediante de seu país.
Após o retorno à literatura, a trajetória de Miyajima vem sendo marcada por reconhecimentos. Em 2021, seu conto “Arigatō Seibu Ōtsu-ten” venceu as três principais categorias do Prêmio Literário R-18, que reconhece produções escritas por e para mulheres. No ano passado, a coletânea das histórias da menina Naruse recebeu o Honya Taisho Booksellers’ Award, um dos maiores prêmios literários do Japão.
“O R-18 sempre me fascinou. Depois de quatro tentativas, finalmente fui agraciada com ele. Muitos de meus escritores prediletos foram revelados por esse prêmio e continuei a me candidatar, sempre imaginando que ele poderia ser também o início da minha carreira. Quando ganhei, me senti como se estivesse, por fim, de pé na linha de partida. Nunca poderia imaginar que seria aceita por um número tão grande de pessoas”, conta a autora.
‘Naruse deve ter rompido com a opressão social por afirmar aos leitores que eles devem viver com liberdade’
Leitora de escritoras como Sayaka Murata, Mieko Kawakami e Asako Yuzuki — as duas primeiras com obras traduzidas no Brasil nos últimos anos —, Miyajima afirma ter ido na contramão da atual literatura japonesa produzida por mulheres, embora as considere “ótimas fontes de encorajamento”. Muitas dessas autoras têm abordado a estranheza da contemporaneidade em meio a dilemas, imposições e violências de gênero que marcam as vidas e as literaturas femininas ao longo dos séculos.
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Estaria o público leitor japonês especialmente atraído por histórias emocionalmente fundamentadas e esperançosas? “A maioria dos romances escritos desde a pandemia de Covid-19 tem como tema as dificuldades da vida. Decidi escrever uma história alegre e divertida. Naruse deve ter rompido com a sensação de opressão social por ser alguém que afirma aos leitores que eles devem viver com liberdade e sendo eles mesmos”, diz.
Estranha
Assim como Naruse, Mina Miyajima vive em Ōtsu, apesar de ter nascido em Fuji, província de Shizuoka, em 1983. Nos enredos protagonizados pela adolescente, a cidade de Ōtsu pode ser lida como um elemento que vai além da ambientação.
Destemida e inquieta, a jovem caminha por espaços públicos, como o lago Biwa, de onde parte o barco turístico Michigan, ou o parque Banba, onde toma um sorvete comprado na Seven-Eleven. Também perambula por estações, como a de Quioto ou a Zeze, e registra pontos históricos distantes, após uma viagem de trem–bala, como é o caso do Akamon, portão histórico e um dos símbolos da Universidade de Tóquio. No entanto, é a Seibu Ōtsu, única loja de departamentos da cidade, o palco de um dos planos mirabolantes de Naruse, narrado pela amiga Miyuki Shimazaki: ficar parada em frente ao estabelecimento durante os seus últimos dias de funcionamento e se ver transmitida no jornal local. O resultado? A jovem de catorze anos viraliza nas redes sociais, é claro.
“Romances são um meio [de expressão] bastante livre. O escritor pode ambientar a ação em qualquer lugar e descrever qualquer época. Optei pelo lugar onde moro e pela época em que vivo”, diz a autora. “O cenário de Naruse tem fortes cores locais e o fato de descrever minuciosamente esse lugar do ponto de vista de um morador da região talvez tenha possibilitado criar uma sensação de realismo.”
Nas palavras da amiga Shimazaki, que mora no mesmo condomínio da protagonista, no jardim da infância “Naruse sempre se destacava entre as outras crianças — era a mais rápida, a melhor desenhista da turma, cantava bem e conseguia escrever hiragana e katakana [silabários da escrita japonesa] do jeito certo”.
Para a criadora, Naruse é do tipo de garota que não deixa transparecer suas preocupações — uma nova perspectiva para Miyajima. Antes dessa personagem, experiências femininas que atravessavam da adolescência à vida adulta, “as inseguranças e a força silenciosa das mulheres em diferentes fases da vida” habitaram o imaginário da autora.
Já Naruse vai dominar o mundo, diz, “não é uma história sobre dominação do mundo”. “Dei esse título a partir da imagem de uma garota com grandes ambições”, explica Miyajima. “Pensei que um título ostentoso daria destaque, mas não imaginei que pudesse atrair tanta atenção por se tratar da estreia de uma escritora novata, desconhecida.”
Oito anos depois de retomar a carreira literária com Naruse vai dominar o mundo e de vender mais de 1 milhão de exemplares, a autora segue com ambições supostamente modestas. “Minha meta é, primeiro, concluir o trabalho que tenho em mãos e, depois, aos poucos, ir escrevendo o
que eu puder.”
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025.
