Biografia,
Diplomata da floresta
Líder indígena, Raoni narra sua história de engajamento político a partir dos mitos e da cultura de luta do seu povo
31ago2025 | Edição #97Após ter sua vida retratada em reportagens e documentários no Brasil e no exterior, assim como em uma biografia publicada em francês — Mémoires d’un chef indien (2010), de Jean-Pierre Dutilleux —, Raoni Mẽtyktire, de 88 anos, um dos mais importantes líderes indígenas do mundo, e provavelmente o mais longevo, decide ele mesmo contar a sua história.
Em Memórias do cacique, seu objetivo é não somente transmiti-la a seus netos, ouvintes de seus relatos e tradutores das histórias contadas em sua língua materna, mas também aos demais indígenas e não indígenas por meio da conversão de suas palavras à forma escrita. Os mebêngôkres — povo do qual o subgrupo mẽtyktire de Raoni é parte — são também conhecidos como kayapós. Fazem parte dos povos falantes de línguas do tronco jê, que se distribuem de norte (Maranhão) a sul (Rio Grande do Sul) do Brasil, com maior concentração no centro do país.
No ano do nascimento de Raoni, 1937, em uma aldeia onde hoje se localiza a Terra Indígena Capoto-Jarina, em Mato Grosso, seus pais e parte de seu povo viviam em meio a conflitos com seus inimigos indígenas (os kubes) e com os não indígenas que havia muito invadiam suas terras. No ano anterior tinha acontecido o primeiro contato pacífico entre outro grupo mebêngôkre e os brancos, mas seriam necessários mais treze anos para que Raoni e sua família encontrassem os irmãos Claudio e Orlando Vilas Bôas, em 1953, para estabelecer com eles uma parceria intelectual e de lutas pelos direitos indígenas que se prolongou até a morte dos dois indigenistas, em 1998 e 2002, respectivamente.
Com reconhecimento internacional e impressionante trato diplomático, Raoni viajou a diversos países e lançou mão de parcerias inusitadas, entre elas a com o cantor Sting, para assegurar a demarcação de terras e protestar contra projetos que violavam os direitos indígenas — impossível esquecer seu protagonismo nas manifestações contra a instalação de hidrelétricas no rio Xingu nos anos 80 e, mais tarde, contra a construção da usina de Belo Monte.
Não há imagem idealizada, como a de povos em perfeita harmonia entre si e com a natureza
No palco da política, conversou em pé de igualdade com sucessivos presidentes do Brasil. Em encontro com Juscelino Kubitschek, que planejava fazer da ilha do Bananal, povoada por indígenas, um polo turístico, disse: “Kubitschek, esta terra que a gente está pisando é a terra dos nossos parentes. Você já fez uma cidade [Brasília] pros brancos. A ilha do Bananal é dos indígenas”. Em diálogo com Sarney, declarou: “Como você é o chefe maior do seu povo, eu vim aqui falar contigo. Brancos e indígenas precisam viver em paz, sem conflitos, e pra isso preciso demarcar nossos territórios. Eu preciso que você assine umas demarcações de terras pra mim, por isso estou aqui”.
Seguindo sua trajetória de lutas, Raoni foi indicado ao Nobel da Paz, tornou-se doutor honoris causa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), recebeu a Ordem do Mérito Cultural em Belo Horizonte e foi tema de mais de uma escola de samba. Em 2023, subiu a rampa do Planalto ao lado de Lula em sua posse, e no mesmo ano recebeu do presidente a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, o grau máximo da condecoração.
Retrato multifacetado
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Mas Memórias do cacique vai muito além desses fatos, já conhecidos através de sua repercussão na mídia, constituindo um precioso documento etnográfico e histórico sobre os mebêngôkres que se torna acessível ao público não acadêmico. A narrativa de Raoni aborda a mitologia, a vida social, a intensa atividade ritual (“nossos antepassados viviam em festa”), os conflitos internos e guerras, assim como diferentes momentos do contato entre seu povo e os não indígenas.
As acertadas escolhas da edição de Fernando Niemeyer, também autor da pesquisa etnográfica e documental que serviu de guia para as entrevistas realizadas pelos netos de Raoni, fazem do relato um texto fluido e de leitura agradável, facilitada pela inserção, ao final, de um glossário de termos indígenas e de uma preciosa cronologia que localiza os fatos narrados no contexto mais amplo da história do Brasil.
O leitor não encontrará aqui uma imagem idealizada dos indígenas, como a de povos em perfeita harmonia entre si e com a natureza, tampouco uma representação simbólica de guerreiros que lutam apenas por meio de discursos ou aparições públicas em trajes tradicionais. Assim como outros povos amazônicos, os mebêngrôkes também se engajavam em conflitos, muitas vezes como forma de retaliação por ataques anteriores, mas também porque tais ações compunham um aspecto relevante da formação dos homens adultos.
Raoni fala livremente sobre esse ethos combativo, que mais tarde se transformaria em engajamento político e diplomático. Ainda menino, já queria enfrentar os invasores de suas terras, ao que seu pai ponderou: “Não, filho. Espere crescer mais um pouco”.
A centralidade da comida e a relação de continuidade entre caça, pesca e guerra, tão presente nas etnografias de diversos povos amazônicos, são ilustradas aqui com vários exemplos. O leitor se surpreende ao constatar que, em meio a expedições guerreiras, quando, imaginamos, todos deveriam estar focados no perigo do confronto, de modo algum abrem mão de possibilidades alimentares. Numa dessas ocasiões, um grupo de jovens realizava uma pescaria com timbó quando se ouviu o assobio do pássaro alma-de-gato, que anuncia a proximidade dos inimigos. Continuaram a pegar os peixes, que boiavam intoxicados pelo veneno, até que os mais velhos, preocupados, foram chamá-los: “Terminem essa pescaria e subam. Todos vocês! […] Os inimigos estão por perto e podem atacar. Vamos pegar nossas flechas, vamos nos preparar para nos defender!”. Ao que os jovens retrucaram: “Vovô, espere a gente pegar mais peixes…”. Tiveram sorte: “Se os inimigos tivessem atacado naquele momento, teriam matado todos nós naquela beira de rio”, conta Raoni.
Verdades míticas
A feliz escolha editorial de situar os relatos de eventos históricos entre dois blocos de narrativas míticas deixa claro um ponto focal do pensamento de Raoni e dos povos indígenas em geral: os mitos tratam de eventos verdadeiros, embora sucedidos em um passado remoto, constituindo a referência central para a compreensão do presente. O relato da origem dos indígenas a partir da descida à Terra do povo habitante do céu é seguido do mito de origem do milho, mostrando que foi a partir do momento em que ele se transformou de árvore alta nas plantas acessíveis que conhecemos hoje que o povo originário, uno, distribuiu-se em grupos distintos, que se tornaram inimigos entre si.
Do mesmo modo, relações com espíritos animais coexistem com aquelas entre aliados e inimigos. Faceta menos conhecida de Raoni, sua atuação como pajé, respeitada entre seu povo e outros povos da região, é parte importante de sua biografia. Ele relata que, ainda menino, começou a sair do seu corpo e viajar com os espíritos, seguindo o rastro dos antepassados que “se comunicavam com outros seres. Assim, adquiriam os conhecimentos dos tatus, das onças, dos peixes, das conchas de caramujo”.
Esses homens saíram de suas aldeias para transitar por cidades e gabinetes, dando voz a seus povos
Animais apareciam-lhe em sonhos, ora para revelar suas moradas, ora para ameaçá-lo com doenças. Mas não somente espíritos de animais. Nos últimos anos, sem ter acesso direto ao então presidente Jair Bolsonaro, passou a encontrá-lo em sonhos e lhe dizia: “Bolsonaro, você está falando muita besteira. Suas ameaças, seus projetos… isso está errado. […] Pode aguardar que você vai sair da Presidência. Eu vou te tirar”. Raoni conta que o sonho e a conversa se repetiram no mês seguinte. “Comecei a assoprar Bolsonaro. Então o Lula foi eleito e me mandou o convite [para a posse].”
Três pensadores
Não é possível dissociar Memórias do cacique de duas outras biografias: A queda do céu: palavras de um xamã yanomami (Companhia das Letras, 2015, trad. Beatriz Perrone-Moisés), relato de Davi Kopenawa realizado em parceria com o antropólogo Bruce Albert, e Dono das palavras: a história do meu avô (Todavia, 2024), biografia póstuma de Nahũ Kuikuro, escrita por seu neto Yamaluí Kuikuro Mehinaku.
Essas três biografias pioneiras — que, esperemos, abram portas para mais produções literárias indígenas —, embora revelem histórias e culturas distintas, mostram importantes continuidades. Kopenawa e Raoni escolheram como ouvintes não só seus descendentes, cada vez mais avessos aos modos de vida tradicionais (“a nova geração está interessada somente na cultura do branco”, diz Raoni), mas sobretudo nós, os não indígenas, que, além de não entendermos nada da floresta, estamos destruindo-a.
Da mesma forma, Yamaluí dá a conhecer às novas gerações e aos não indígenas a trajetória de seu avô, que veio a se tornar um mediador junto a órgãos governamentais e autoridades. Ainda muito jovens, esses três homens saíram de suas aldeias, conviveram com outros povos indígenas e com os chamados brancos, aprendendo o suficiente de sua língua e de seus costumes para transitar por cidades e gabinetes, dando voz a seus povos. Estamos diante de três importantes líderes, diplomatas e intelectuais poliglotas. Sabem melhor que nós a urgência do momento que vivemos e a importância de seus conhecimentos para tentarmos reverter a crise que, mesmo os afetando de modo mais contundente, ameaça todos nós.
Convivi longamente com outro deles, o mestre de cantos e contador de mitos Paletó OroNao’, protagonista dos primeiros contatos do povo wari’ de Rondônia com os brancos e também testemunha de massacres perpetrados por invasores. Suas lembranças, que relatei em Paletó e eu: memórias de meu pai indígena (Todavia, 2018), somam-se às dos três grandes pensadores mencionados ao revelarem a profundidade e a riqueza do conhecimento indígena, não só sobre a floresta mas também em termos filosóficos e políticos. Eles querem, insistem, que os escutemos. Prestem atenção!
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Diplomata da floresta”
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