(Rafael Heiber/Divulgação)

Fichamento,

Jean Wyllys

Escritor e jornalista baiano lança coletânea de contos sobre o lado sombrio de Salvador e seus personagens à margem da sociedade

28jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96

O anonimato dos afetos escondidos (Tusquets) reflete as sombras de uma metrópole solar e da violência urbana e, também, o delicado amor homoerótico.

Quando decidiu ser escritor?
A pobreza tira muita coisa da gente, e a primeira coisa que tira é o sonho. Lembro de estar aos pés da minha mãe, Nalva, que ainda é viva, desenhando no chão com um palito de fósforo e, quando ela elogiou o desenho, eu disse que queria ser artista. Minha mãe, muito pragmática, uma capricorniana que pariu sete filhos, disse que isso não era para mim. Foi um pequeno trauma. Comecei a trabalhar aos dez anos, entrei em um colégio interno aos catorze. Foi lá que li O feijão e o sonho, do Orígenes Lessa, maravilhoso! O embate entre o escritor, a pessoa que quer viver de literatura, mas tem que trabalhar [em outra coisa] para comer. Num país de poucos leitores, os grandes escritores sempre tiveram outras profissões, não precisavam viver de literatura. Eu queria ser escritor, e o jornalismo foi o lugar que eu encontrei para estar mais próximo disso.

Salvador é a grande personagem dos seus contos?
A maioria dos contos foi publicada pela primeira vez em 2001, no livro Aflitos — uma referência ao Largo dos Aflitos, em Salvador. O mote é a cidade e suas estruturas opressivas. Outro tema são os corpos negros e LGBTQIA+ — mas dizer que é sobre corpos dissidentes virou um jargão, não gosto muito. Digo que o livro é uma expressão sobre indivíduos posicionados por diferentes misérias: a que vem da classe social, da etnia, da cor da pele, a miséria que vem da orientação sexual. Pensei em chamar o livro Odiado, um contraponto à Amado — de Jorge Amado, porque ele ajudou a construir uma Bahia mítica, glamourizada, não a Salvador que conheci como migrante vindo do interior. Queria representar a cidade que existia para mim, bem na época em que eu me assumia como homossexual. Os contos refletem tanto o homoerotismo quanto as relações violentas da cidade com os homossexuais. Por isso textos escritos há mais de vinte anos continuam atualíssimos. Incluí contos novos que também trazem essas questões de identidade. Eu já tratava disso antes de virar moda, hoje há muitos autores negros escrevendo sobre questões raciais, escritores LGBTQIA+ falando de suas vivências, fazendo autoficção.

Há também autoficção no livro?
Não. São observações de um escritor, de alguém que busca dar uma certa estética literária a essas contradições e essas histórias. E sou baiano, também sou herdeiro de Jorge Amado, ainda que tenha
pensado em me contrapor ao universo dele.

Falar do lado B de Salvador?
Salvador já é solar demais na publicidade, e esse sol às vezes projeta sombras. Sei que tem felicidade também, mas acho que podemos representar o mal na literatura. Só a arte, nas suas múltiplas expressões, pode conter o mal e nos ajudar a lidar com o mal dentro de nós.

No livro, você cita várias canções da música popular brasileira. A música é um respiro?
Adoro MPB, o livro está cheio de referências musicais. O título, inclusive, O anonimato dos afetos escondidos, é um verso da canção [de Luiz Ramalho] “Foi Deus quem fez você”, interpretada por Amelinha.

Quais são seus afetos anônimos?
São umas seis pessoas que, de alguma maneira, se relacionam com todo o resto da humanidade. Quando as pessoas pretas ou as crianças pobres são assassinadas, isso não gera tanta comoção como, por exemplo, o caso da menina [Isabela] Nardoni. Esse roteiro hierarquiza a vida humana. Escrevi os roteiros dos anônimos, os que estão à margem da sociedade.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025.

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