Trechos,
Limpeza étnica na Palestina
Em A maior prisão do mundo, o historiador israelense Ilan Pappe denuncia o projeto mortífero implantado pelo Estado judeu na Faixa de Gaza
14jul2025 • Atualizado em: 28jul2025Chega às livrarias pela editora Elefante A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina, em que o autor Ilan Pappe rompe com o argumento de que o genocídio em Gaza seria uma resposta de Israel aos ataques do Hamas em outubro de 2023. Segundo o historiador israelense, o que ocorre hoje na Palestina é apenas o estágio mais recente de um projeto mais amplo de limpeza étnica.
No seu estudo, em tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Pappe recapitula as principais fases da ocupação de territórios palestinos por Israel, desde a Nakba em 1948 até os desfechos do projeto sionista hoje encabeçado pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e legitimado pelos Estados Unidos.
A partir da análise de declarações de ministros e generais israelenses, o historiador denuncia a “maior prisão do mundo”: o sistema de controle e dominação coordenado pelo Estado judeu na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Além disso, o autor relembra que o planeta — em particular, a Europa — tem uma “obrigação histórica e moral de defender os palestinos”.
Leia a seguir o prefácio de Ilan Pappe à edição brasileira.
Trecho de ‘A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina’
Desde que publiquei a primeira edição de A maior prisão do mundo: uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina, em 2017, muita coisa aconteceu em Israel e na Palestina, mas o modelo da “maior prisão do mundo” erigido por Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza permaneceu inalterado. E foi fartamente legitimado pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump (2017-2021), culminando no Acordo do Século (Deal of the Century), anunciado em janeiro de 2020. A proposta de Trump, somada à estratégia de controle populacional e territorial do então primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, constituía um risco existencial para a Palestina e os palestinos: uma ofensiva potencialmente tão destrutiva quanto a Nakba de 1948, definida pela tentativa de despolitizar a Questão Palestina ao considerá-la apenas um problema humanitário e econômico que poderia ser solucionado com a destinação de recursos financeiros dos países árabes e as bênçãos de Washington.
O verdadeiro Acordo do Século, porém, foi a confirmação do sionismo como um movimento de colonização de assentamento legítimo, motivado, em pleno século xxi, por uma lógica que Patrick Wolfe define como “a eliminação do povo nativo”. Como A maior prisão do mundo demonstra, isso não é exatamente uma novidade. E, de certa forma, o acordo firmado entre Trump e Netanyahu em 2020 foi a culminação de políticas praticadas havia décadas pelos Estados Unidos e por Israel no que se refere à Questão Palestina. Desde o final dos anos 1960, quando, ao estilo de uma Pax Americana, teve início o chamado “processo de paz” entre israelenses e palestinos, Washington age de maneira desonesta no papel de mediador. Teoricamente, as sucessivas administrações que assumiram a Casa Branca — e seus enviados para a região — se diziam comprometidos com o direito internacional e, portanto, deslegitimavam a instauração de colônias israelenses e as tentativas de anexação das áreas habitadas pelos palestinos, além de condenarem publicamente a sistemática violação dos direitos humanos nos Territórios Ocupados.
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Esse discurso, porém, jamais se traduziu em políticas efetivas ou mesmo em pressão diplomática para que Israel abandonasse seu comportamento criminoso. Tal abordagem — que se resume a falar e falar, mas não agir — legitimou as violações cometidas por Israel. Se, de um lado, os Estados Unidos reconheciam o direito internacional como régua moral de sua política para a Palestina ocupada, de outro, permitiam — sobretudo por meio da inação — o aprofundamento da colonização israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (nesta, até a retirada dos colonos judeus, em 2006). Até o final do século xx, os principais partidos políticos de Israel empregaram uma abordagem similar, dissociando o discurso da prática, em coordenação total com Washington. Com a chegada do século xxi e, particularmente, com o advento da era Netanyahu — iniciada quando ele foi eleito como chefe de governo pela segunda vez, em 2009 —, a brecha entre o que era dito e o que era feito praticamente desapareceu, tanto nos Estados Unidos como em Israel. As ações israelenses passaram a ser total e publicamente endossadas por Washington e Tel Aviv. Assim, o Acordo do Século serviu apenas para sintetizar e conferir uma nova roupagem às políticas prévias dos Estados Unidos para a região, legitimando oficialmente as ações unilaterais de Israel.
As medidas tomadas pela Casa Branca durante o primeiro governo de Donald Trump incluíram reconhecer Jerusalém como capital de Israel e transferir a embaixada estadunidense de Tel Aviv para Jerusalém Ocidental. Tais decisões foram seguidas pelo reconhecimento das Colinas de Golã [anteriormente território sírio, ocupado por Israel em 1967] como parte do Estado judeu e pela confirmação pública da legalidade das colônias judaicas na Cisjordânia. Por meio do Acordo do Século, portanto, os Estados Unidos concediam imunidade para as futuras ações israelenses na Palestina histórica, as quais se destinavam a redesenhar o mapa político definitivo de Israel por meio da coerção e do estabelecimento de uma situação irreversível no território.
Eis a solução para o conflito entre Israel e Palestina vislumbrada por Trump naquele então — uma solução cuja natureza é bem clara. Suas principais características já haviam sido reveladas em 2010, quando uma legislação agressiva e racista começou a tramitar pelo Knesset, o Parlamento israelense, regulamentando a discriminação contra os palestinos nos dois lados da Linha Verde [fronteiras de Israel definidas pelo armistício de 1949], em todos os aspectos da vida dessa população, como emprego, moradia e direitos civis básicos — afora as preexistentes expropriações de terras, punições coletivas e restrições severas à circulação e a outras atividades humanas banais na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. No verão de 2018, essa movimentação legislativa resultou no estabelecimento da lei de nacionalidade israelense [Lei Básica: Israel como o Estado-nação do povo judeu]. Essa lei de apartheid determina claramente que apenas judeus podem ser reconhecidos como grupo nacional com direito a autodeterminação em Israel. E a definição de “Israel” como “Terra de Israel”, prevista no texto, encoraja futuros governos a prosseguir com a colonização judaica do território palestino. As fronteiras finais do “Estado-nação do povo judeu” não são mencionadas na nova legislação, uma vez que a expectativa é de que a “Grande Israel” vindoura se estenda sobre a Cisjordânia — e em nenhuma parte desse território Israel deverá permitir qualquer manifestação de nacionalismo palestino.
Essa lei rebaixa os cidadãos palestinos dentro de Israel (e potencialmente qualquer pessoa integrada a essa comunidade por meio da anexação de partes da Cisjordânia e da Grande Jerusalém) a um grupo com particularidades linguísticas, desconsiderando o fato de constituírem uma comunidade nacional — mais precisamente, na linguagem adotada pelo texto legislativo, passam a ser vistas como “pessoas falantes do árabe”, com a promessa de que seu idioma gozará de “status especial”. Trata-se de uma “lei básica” e, como Israel não tem uma Constituição, possui força constitucional. Com isso, legitimam-se retroativamente políticas de apartheid e colonização colocadas em prática nas últimas décadas, ao mesmo tempo que se vislumbra a oficialização de Israel como um Estado de apartheid. Muitos setores da sociedade civil internacional condenaram essas ações. Nos últimos anos, três processos discretos contribuíram para desgastar a imagem de Israel: o surgimento do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (bds), a guinada do sistema político israelense para a extrema direita e a ascensão de uma nova geração de políticos pró-Palestina no Ocidente. Em 2016, o establishment israelense reagiu a essa mudança na opinião pública global, investindo contra a narrativa e a memória coletiva palestinas. As lideranças políticas de Israel encaram a memória histórica e a historiografia como armas a serem utilizadas contra a deteriorada imagem pública do país. E a mais recente tentativa de frear essa mudança desfavorável implica despolitizar a Questão Palestina, em uma manobra muito parecida ao que Trump fez em seu primeiro governo, com o Acordo do Século.
Como sabemos, porque já vimos isso acontecer muitas vezes, a interpretação israelense de um “acordo” é tão importante quanto o acordo em si. Aos olhos do governo de Israel, o Acordo do Século legitimou antecipadamente a futura anexação da Área C da Cisjordânia. Em julho de 2019, portanto, Netanyahu declarou que estava pronto para implementar essa parte do “acordo” — a pandemia de covid-19 e a derrocada política do então primeiro-ministro, que deixaria o posto em 2021, impediriam que suas intenções fossem levadas a cabo. Tal interpretação ignora, como se fosse mera conversa mole, o trecho do “acordo” que declarava as áreas remanescentes da Cisjordânia ainda sob controle palestino e a Faixa de Gaza como territórios de um futuro Estado palestino.
O governo israelense eleito em 2021 [chefiado por Naftali Bennett, do Partido Nova Direita] era uma bizarra coalizão anti-Netanyahu formada pelo partido político islâmico, siglas de direita e grupos sionistas liberais. O que os mantinha juntos era o desejo compartilhado de preservar o status quo — ou seja, o sistema de prisão a céu aberto na Cisjordânia e na Faixa de Gaza descrito em A maior prisão do mundo permaneceria intacto.
Durante o governo de Joe Biden (2021-2025), a Casa Branca permitiu ao novo governo israelense assumir o “processo de paz”, com o compromisso de não alterar o status quo — o que, na prática, significava dar continuidade à anexação incremental da Área C por Israel, além da manutenção do modelo de “prisão aberta” para os palestinos que vivem nos demais setores da Cisjordânia e do modelo de “prisão de segurança máxima” para quem mora na Faixa de Gaza. Ambos os modelos são discutidos exaustivamente em A maior prisão do mundo.
Fragmentar e dividir o território palestino em pequenos bantustões, como ocorreu na África do Sul do apartheid, e investir contra a narrativa e a identidade coletiva palestinas são parte integrante do mesmo “roubo do século” (steal of the century) planejado em Washington e Tel Aviv. O novo governo israelense continuou, assim, com as mesmas políticas, agora com o apoio do novo governo estadunidense. Na época, os reflexos da pandemia de covid-19 e a inabilidade de Netanyahu em formar um governo não permitiram nenhuma grande mudança no modus operandi da maior prisão do mundo. Não havia um esforço real de avançar com o “processo de paz”. O exército e os colonos israelenses continuavam assediando os palestinos na Cisjordânia. E a Faixa de Gaza continuou padecendo com o cerco desumano imposto por Israel. Em maio de 2021, porém, o Hamas reagiu não apenas ao cerco mas também às operações de limpeza étnica conduzidas por Israel em Jerusalém Oriental e às crescentes ameaças aos lugares sagrados do Islã na cidade. Um foguete foi lançado contra Jerusalém, dando início a um movimento de solidariedade em toda a Palestina histórica, inclusive dentro de Israel. Por onze dias, essa onda de protestos conhecida como “Intifada unificada” (Unity Intifada) tentou colocar um freio à opressão israelense — sem sucesso.
Esses acontecimentos empurraram o sistema político israelense ainda mais para a direita. Em novembro de 2022, Israel elegeu o governo mais direitista de sua história, representante do que eu denomino “Estado da Judeia”. Trata-se de uma coalizão política e ideológica formada por colonos da Cisjordânia, judeus ortodoxos mizrahim [com origens no Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central] e partidos de extrema direita que desejam transformar Israel em uma teocracia judaica, despovoada de árabes, cujas fronteiras se estendem para além dos limites da Palestina histórica. O modelo que defendem para lidar com os palestinos não é a maior prisão do mundo até então em vigor, mas o genocídio, e eles têm usado o ataque empreendido pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 para levar adiante o massacre a que estamos assistindo na Faixa de Gaza. Há um temor real de que, posteriormente, expandam esse projeto genocida à Cisjordânia. Na mira desse grupo ideológico também está o que podemos chamar de “Estado de Israel”, ou seja, os setores laicos da sociedade, que costumavam integrar as elites políticas do país, mas que são considerados pelos partidários do “Estado da Judeia” como um grupo que já cumpriu seu papel na história e agora precisa se tornar mais “judeu”, tanto em termos religiosos como nacionalistas.
Ao ser enfrentada pelo ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, essa nova classe dirigente de Israel revidou transformando a grande prisão da Faixa de Gaza em um campo de extermínio. Várias razões levaram o Hamas a executar a Operação Dilúvio em Al-Aqsa. Uma delas era a obsessão de um de seus líderes, Yahya Sinwar, com o destino dos milhares de prisioneiros políticos palestinos detidos em Israel — um tema tratado com muita seriedade e que preocupa toda a sociedade palestina. Em segundo lugar, a Questão Palestina corria sério risco de ser escanteada no cenário global pela guerra na Ucrânia (iniciada em 2022) e pelo processo de normalização das relações entre Israel e os países árabes (os chamados Acordos de Abraão), então em curso. Finalmente, havia a revolta contra a agressiva limpeza étnica conduzida por Israel em toda a Cisjordânia e as sucessivas violações à sacralidade da mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém por grupos judeus, as quais já haviam levado a enfrentamentos entre o Hamas e as forças israelenses nesse território ocupado.
As paredes da grande prisão da Faixa de Gaza foram temporariamente derrubadas pela resistência palestina em 7 de outubro de 2023, com um ataque brutal não apenas contra o exército israelense mas contra centenas de civis, destruindo famílias inteiras e sequestrando mais de duzentos soldados e cidadãos comuns, incluindo crianças e trabalhadores estrangeiros. Essa ação serviu de pretexto para que o governo israelense de extrema direita testasse sua nova estratégia para as grandes prisões dos Territórios Ocupados. Na Faixa de Gaza, como já sabemos, a proposta é destruir tudo e todos, por meio do genocídio e da limpeza étnica. Quase dois anos depois da implementação desse projeto, há sérias dúvidas de que o governo israelense concretizará totalmente seus objetivos. Contudo, o número de palestinos mortos é imenso — e, provavelmente, muito maior do que dizem as cifras oficiais. Na Cisjordânia, a ideia é reduzir o tamanho da grande prisão, expulsando os palestinos da Área C (que corresponde a cerca de 60% da Cisjordânia) e os espremendo nas áreas A e B.
Os governos do Norte global têm se mostrado indiferentes a esse novo modus operandi ainda mais desumano do sistema de controle descrito em A maior prisão do mundo, enquanto a sociedade civil no Ocidente reage parcialmente, formando poderosas iniciativas de solidariedade. Alguns governantes do Sul global romperam ou restringiram as relações de seus países com Israel, impondo sanções parciais a Tel Aviv. O tempo dirá se essa nova versão da maior prisão do mundo finalmente fará com que o planeta — particularmente, a Europa — cumpra com a sua obrigação histórica e moral de defender os palestinos.
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