
Literatura,
O absurdo da realidade
Escritor russo, filho de ex-membro da elite política soviética, lança no Brasil sua autobiografia ficcionalizada
31mar2023 | Edição #68A realidade é um absurdo e o dissidente russo Víktor Eroféiev, 75, sabe bem disso. Em seu livro de estreia Encontrar o homem no homem: Dostoiévski e o existencialismo (Kalinka, 2021), escrito aos 23 anos como tese de doutorado, ele trata ostensivamente do tema. Seria ainda muito fácil descrever fielmente em seu livro mais recente — O bom Stálin, lançado em 2004 e que chega agora ao Brasil — a realidade que viveu, como filho de um diplomata russo que chegou a ser intérprete de Stálin, em meio à elite da burocracia soviética. Mas para ele a questão não é a realidade fidedigna: esse que imaginaríamos ser mais um livro sobre Stálin trata de um acerto de contas entre Víktor e o pai, Vladímir Eroféiev.

O bom Stálin, de Víktor Eroféiev
Ao descrever sua infância e juventude, o narrador topa com figuras como a poeta Bella Akhmadúlina, o pintor Picasso, o poeta Ievguêni Ievtuchenko, a escritora Evgenia Ginzburg e seu filho Vasili Aksiónov, também escritor, entre outros, enquanto discorre sobre os existencialistas franceses. Ele também conhece pessoalmente, em Paris, o filósofo Gabriel Marcel e tem contato com figurões soviéticos, como Viatchesláv Mólotov, de quem o pai foi assessor.
O “aviso legal” que surge na folha de rosto de algumas edições do livro é instigante: “Todas as personagens deste livro são inventadas, incluindo as pessoas reais e o próprio autor”. Tudo é mentira e tudo é verdade.
Pseudo-autobiografia
Como reforçou o autor em entrevista por telefone à Quatro Cinco Um, trata-se de um romance. Nessa jornada de um herói às avessas, o narrador transita da primeira à terceira pessoa para nos conduzir por essa pseudo-autobiografia, sem seguir uma sequência cronológica, rompendo propositadamente as fronteiras entre realidade e ficção. A memória é uma mentira e seu autor, um mentiroso. “Quando criança, eu gostava de mentir. Eu mentia sem nenhum proveito próprio, apenas pelo prazer de mentir”, afirma o narrador. Com esse mentiroso, passeamos por momentos cruciais da história da União Soviética.
O livro também faz rolar de rir. Por exemplo, quando o narrador busca, por todos os meios, achar no pai um agente secreto — e não precisa ir muito longe, pois a imprensa ocidental acusou Eroféiev pai de atividades de espionagem mais de uma vez.
O narrador também conta ter “inventado completamente” uma historiografia da literatura canadense, com enredos e títulos tirados de sua cabeça, para uma publicação acadêmica. Assim, ele coloca sob suspeita, para o leitor desavisado, todo o sistema de publicações acadêmicas e estabelece um caráter de “bagunça” soviético. Mas a autossabotagem do trecho é refutada pelo pesquisador Boris Orekhov, da Escola Superior de Economia de Moscou, que resolveu tirar a teima e afirmou que tudo que Eroféiev escreveu no artigo sobre a literatura canadense é verdade. Mais um exemplo do narrador oscilando entre a ficção e a invenção.
A história é uma mentira e seu autor um mentiroso com quem passeamos pela história da União Soviética
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A exemplo de vários escritores emigrados, renegados e revoltados — Nabokov, Aksiônov e Býkov, entre outros —, Eroféiev inicia seu percurso com leituras em universidades pelo mundo. Ele veio ao Brasil para lançar O bom Stálin e dar um curso de literatura na Universidade de São Paulo, em março e abril.
Mas se o livro trata mais da relação do narrador com seu pai, por que o Stálin no título? E por que o “bom”? A capa da edição brasileira traz um mosaico de fotos idênticas de Stálin ora voltado à direita, ora espelhado à esquerda, mas algumas edições estrangeiras trazem a foto em preto e branco de um homem que sorri com uma criança em seus ombros, dando pistas para decifrar o título.
A imagem remete a outra, bastante difundida: aquela de Stálin com uma criança de traços mongólicos nos braços, em 1936. A menina retratada com sua blusinha de marinheiro é Enguelsina Markizova, que, logo em seguida, ficou órfã de pai e mãe como resultado dos expurgos stalinistas. Quem conhece a foto icônica não deixa passar a semelhança com o retrato do menino Víktor nos ombros de Vladímir estampado nas edições estrangeiras: eis o “bom” de Stálin e do stalinismo.
Em entrevista, Víktor Eroféiev fala sobre o romance e sua relação com a família e a realidade da Rússia.
O bom Stálin está sendo lançado agora no Brasil, mas vai completar vinte anos de sua primeira publicação, certo?
Sim, o livro já tinha sido publicado em muitos idiomas — existe até em árabe e em hebraico — e está saindo agora no Brasil. Saiu há muito tempo, mas foi ganhando popularidade.
O bom Stálin chama atenção por questões íntimas ligadas à minha família e a conflitos familiares. Minha mãe se sentiu muito ofendida, achou que o livro abria demais as “janelas e as portas da nossa casa”, meu pai também se ofendeu. Por outro lado, quando começou a ser publicado em vários países, eles perceberam que se tratava de um romance que ajudava a compreender o que estava acontecendo na Rússia. E ainda ajuda. Para entender o país é bom começar com O bom Stálin. Então, pode-se dizer que é um livro sem data de validade, talvez seja lido nos próximos trinta anos. Não acho que esteja envelhecendo, está rejuvenescendo, e as editoras o estão publicando oportunamente.
Além disso, haverá uma sequência: O grande gópnik [em alusão ao Grande Gatsby; gópnik é uma espécie de malandro que surgiu na era soviética e perdura até hoje]. Esses dois livros, misturando ficção e não ficção, dão um ponto de vista bidirecional da Rússia, e não só dela, já que também tratam das contradições entre diferentes gerações. Pais e filhos nunca encontrarão uma língua comum. Eles sempre terão algum atrito e dificuldades.
No livro, você fala de seu irmão, Andrei Eroféiev, que organizou exposições de arte revolucionárias na Rússia. Achei curioso vocês dois terem se saído rebeldes.
É certamente uma situação incomum. Ambos os irmãos acabaram revolucionários, rebeldes e desordeiros em uma família que sempre foi liberal. Isso significa que, se você vive em uma boa família, tem possibilidade de ver tudo o que acontece ao seu redor. Foi assim com a gente, primeiro em Moscou e depois em Paris.
O Andrei nasceu em Paris e, pouco a pouco, nasceu nele o protesto contra a parcialidade e a estupidez do sistema. Mas o protesto pode se dar não apenas contra o sistema soviético, mas também contra o Ocidente. Hoje nosso liberais muitas vezes idealizam o povo russo e o Ocidente. Naquela época, não eram essas as coisas a serem idealizadas.
E foi assim que eu e o Andriucha [diminutivo de Andrei] fizemos dois atos paralelos: o primeiro foi o Metropol, em 1979, um almanaque clandestino que idealizei e produziu um enorme escândalo. Tecnicamente, o Andriucha também ajudou nele: foi quem colou as páginas do almanaque. Ele tinha experiência com o trabalho clandestino e fez duas exposições que foram proibidas. Quando aqueles escândalos aconteceram, tive que ir ao Kremlin e salvá-lo da prisão. Ele poderia ter ido para a cadeia, mais ou menos como as moças do Pussy Riot.
‘Os acontecimentos na Rússia estão forçando as pessoas a partirem imediatamente’
Como era e é a relação de vocês?
Andrei foi um desbravador, um pioneiro. Mas, de alguma forma, eu o salvei. Isso não fez dele menos revolucionário, simplesmente mostrou que não se tratava de uma brincadeira. Quando você luta contra o Estado, ele sempre se revela, primeiramente, como um monstro mítico. Mas, quando esse Estado começa efetivamente a te devorar, você entende que é uma terrível máquina de repressão.
Neste sentido, sim, somos uma família única. Somos amigos. Ele ainda está em Moscou, e eu estou falando com você de Berlim, mas acho que ele estará em breve em Paris ou, pelo menos, na França. Os acontecimentos na Rússia estão forçando as pessoas a partirem imediatamente. Refiro-me às pessoas que estão dispostas a pensar de forma complexa, independente, e que não apoiam o que está acontecendo lá.
A repressão aos artistas piorou ou eles nunca foram realmente livres?
A situação com a guerra pode se aprofundar e se tornar mais trágica, mas em relação à classe criativa da Rússia ela parece já ter atingido o fundo do poço. Foi uma debandada de pessoas interessantes e brilhantes — músicos, artistas, escritores, os que representavam o público liberal. E quem ficou tomou seus lugares. Lembra um pouco o que ocorreu sob o regime soviético, depois da Guerra Civil.
É uma decadência, aqueles que foram embora têm enorme experiência criativa, e a volta deles será muito difícil. Mas os jovens [que ficaram] não aceitarão mais ninguém, essa já será sua plataforma. A proteção contra o marasmo completo é o fato de a política atual do Kremlin não ter uma ideologia sólida. Tem a ideologia do patriotismo, do “mundo russo”, mas esses são mandamentos ideológicos furados e, através desses buracos, é possível, de alguma forma, se reunir.
A ideologia que existe [hoje] foi feita por uma única pessoa. Quando esse homem se for, haverá outra Rússia. Naturalmente, é um período terrível, um pesadelo do qual você quer acordar. E, nesse pesadelo, você vê como a Rússia, em termos de cultura, está novamente decaindo e tomando a forma de um monstro primitivo.
Em O bom Stálin, você conta a história da revista Metropol [que Víktor publicou e custou a carreira de Vladímir na nomenklatura soviética]. É um acerto de contas com seu pai?
Nesse livro, o protagonista é meu pai, enquanto O grande gópnik é dedicado à minha mãe. Para mim, foi muito importante meu pai ter entendido o quanto ele foi heroico nessa história, quanto o sacrifício dele — que perdeu o emprego, o sentido da vida profissional diplomática — teve suas recompensas históricas [quando as autoridades exigem uma carta autocrítica de Víktor sobre a publicação, Vladímir, embora ainda defenda o sistema soviético, desaconselha o filho a escrevê-la].
Também falo disso em O grande gópnik, é um tema que não sai da minha cabeça. Quando um pai perde o emprego e o sentido da vida, é impossível esquecer. Mas o fato é que, em O bom Stálin, esse tema não tem só um matiz dramático, trágico, mas também um ensolarado — de um pai que fica do lado do filho. Meu pai me compreendeu e me apoiou, mesmo tendo uma vida e orientações ideológicas completamente diferentes das minhas. Foi, claro, um milagre.
Você cresceu com personalidades das artes e da cultura, vanguardistas e revolucionárias, mas que eram a favor de um sistema sob o qual você vivia e contra o qual se rebelou. Como foi isso?
Eu tinha essa posição que quase ninguém mais tinha, porque todos [os escritores] vinham ou de famílias pobres ou da classe média baixa. Já meu pai era um embaixador — uma posição muito alta — e eu e Andrei tivemos excelentes condições de vida.
Quando eu olhava, como um insider, para a vida da camada superior da sociedade, havia muitas coisas negativas. Isso está em O bom Stálin: oficialmente, era uma hierarquia que odiava o Ocidente, mas só fumava cigarros americanos, só bebia uísque escocês etc. Era um completo absurdo. É claro que eles mentiam, que dirigiam carros bons e não os Moskvitch russos.
Alguns tiveram êxito e ficaram ricos, outros continuaram pobres. De cima, eu podia ver isso muito bem. Já de baixo dava para ver que era preciso expor e destruir esse modelo, estava tudo errado. De cima também dava para ver que a natureza humana é tal que, quando a pessoa vem de baixo, ela não vira um anjo.
Meu primeiro livro, Encontrar o homem no homem, me ajudou a ter uma atitude mais cética em relação ao homem. Me impediu de cair nesse “humanismo bem-intencionado” que, se não for contido e atento, vira uma orgia de humanismo e leva a uma situação em que tudo gira na direção oposta, em que o homem parece um humanista, mas está no vazio, porque não há análogos humanos à sua frente.
‘Minha mãe se sentiu ofendida com o livro porque abria demais as janelas e as portas de nossa casa’
Essa questão da natureza humana é uma temática na sua vida e obra?
Estar no topo e cair em um buraco negro depois da Metropol — e nós vivemos nesse buraco negro por oito anos — é provar do conto popular russo, quando primeiro você é um tsarévitch [filho do tsar] e, depois, vai parar sabe-se lá onde. Mas essas coisas nos fortalecem e dão uma ideia de como as pessoas vivem, como sobrevivem. Onde as pessoas são originais e onde não são. O mesmo acontece com a mudança de um país para outro. Se você mora em Moscou, mas se muda para Berlim, você também vê o que está acontecendo de verdade: com quais pessoas você pode contar e quais, incluindo velhos amigos, estão escondidas, com medo de que você peça favores demais.
A posição dos que estão nessas camadas superiores é importante. No meu livro Enciclopédia da alma russa (1999), que saiu agora em alemão, tem um capítulo chamado “A Rainha inglesa conhece a vida?”. Algumas pessoas pensam que você só pode descobrir alguma coisa quando está embaixo. Isto está errado. Na verdade, a rainha da Inglaterra sabe muito mais do que muitas outras pessoas. E ela mesma tinha noção de que era bastante sábia. Portanto, a literatura russa há tempos não via um “olhar de cima”, como foi o do conde Tolstói — um ponto de vista de um fidalgo, de um nobre.
Nem o olhar de Tchékhov, nem o de Górki, nem o de Nekrássov eram “de cima”. Eles estavam em algum lugar “dentro”. Esta posição dá novas perspectivas, mas não significa que seja o único ponto de vista vantajoso. Para mim, O bom Stálin e sua sequência, O grande gópnik, são como Guerra e paz, em alguma escala, mesmo mundial, pois O bom Stálin já foi lançado em sessenta idiomas.
Sobre a continuação do livro, o gópnik do título é Putin?
O grande gópnik é a nova máscara de Putin, é claro. São duas vidas. A vida paralela é Putin e eu. Mas o “eu” ali também é uma máscara romântica. O livro está saindo agora. Veja que lindo: trata-se de um gópnik, um bagunceiro que transforma tudo em ouro, assim como a si mesmo. Então você sabe como termina.
Matéria publicada na edição impressa #68 em abril de 2023.