Ilustrações de Pati Peccin

Livros e Livres,

Território em disputa

Psicóloga propõe refletir sobre o útero como espaço político, convocando memórias coletivas e afetos que escapam às lógicas de domesticação

01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103

Entre 1619 e 1620, René Descartes acompanhava tropas francesas durante a Guerra dos Trinta Anos. Era um fidalgo intelectual e não um soldado, de modo que, quando o inverno chegou tão furioso quanto aquele longo conflito, pôde se recolher em um quarto aquecido a fim de suportar o frio glacial. Isolado no seu retiro involuntário, o filósofo criava as condições de introspecção e concepção de seu método, o qual instaurou uma lógica de decomposição, ordenamento e controle que se tornaria central tanto na ciência moderna quanto nas formas de governar corpos e populações.

Anos depois, publicaria um livro de ensaios cujo prefácio, “Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la vérité dans les sciences”(“Discurso do método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências”), eterniza o quarto aquecido como uma espécie de útero no qual o sujeito moderno teria sido gestado. É nessa cena inaugural que se consolida o cogito como fundamento do conhecimento: um eu que pensa, autoevidente e supostamente capaz de se sustentar independentemente do corpo, da emoção e da história. 

O “erro de Descartes”, para citar o neurocientista português António Damásio, não reside só na separação entre mente e corpo, mas na crença de que um sujeito sem rosto, corpo e afeto poderia servir de fundamento absoluto para o conhecimento, convertendo assim uma ficção ontológica em norma epistemológica.

A escritora Laura de Souza Zingra Vomero (Divulgação)

Se o quarto cartesiano funcionou como um útero metafórico da modernidade, gestando um sujeito abstrato, desencarnado e soberano, é justamente essa ficção fundadora que Uterodrama: reflorestando o corpo-território, de Laura de Souza Zingra Vomero, vem tensionar. Ao inverter o gesto cartesiano, o livro propõe uma inflexão metodológica e política no modo de pensar corpos com útero, deslocando-os tanto da matriz biomédica quanto das leituras que os reduzem à função reprodutiva ou à patologia. O órgão deixa de ser “problemático”, como declaram pessoas ouvidas por Vomero, para ser tratado como um espaço político, onde é possível se repensar como sujeito de desejo. 

A partir do diálogo entre psicodrama e esquizoanálise, a autora nos brinda com uma proposta de intervenção e reflexão que toma o útero não como origem naturalizada da identidade, mas como território histórico de inscrição de violências coloniais, saberes médicos normalizadores e pedagogias de gênero. O uterodrama, inspirado na tecnologia de si imaginada por Jacob Levy Moreno, emerge como dispositivo ético-político de escuta, criação e reinscrição do corpo-território, convocando experiências encarnadas, memórias coletivas e afetos que escapam às lógicas de domesticação.

Desobediente

A coletânea de ensaios está organizado em três partes, antecedidas pelas delicadas ilustrações de Patrícia Peccin Carvalho. Assina o prefácio Maria da Penha Nery, que apresenta um “livro desobediente”. Desde a introdução, o texto toca em tabus: o útero e a menstruação, historicamente tratados como vergonhosos e problemáticos. 

Vomero articula gênero, sexualidade, transfeminismo, antirracismo e relações de poder a partir de 

uma extensa revisão bibliográfica sobre essas temáticas na narrativa hegemônica, com o propósito de garimpar textos e reflexões que nos deem pistas dos efeitos dessas ficções discursivas na concretude material que constrói nossa realidade. 

Interessa-lhe pensar o útero e a menstruação como territórios de disputa simbólica e material, que estão para além dos corpos cisgênero, considerados normais porque funcionais, geralmente brancos. A autora convida a pensar o impensável e abre sua metodologia de cura para quem se propuser, como ela, a habitar outros úteros.

Em “Útero: uma ficção da narrativa ocidental”, Vomero desmonta o que chama de “ingenuidade do útero”, abrindo espaço para outras narrativas sobre corpos e desfazendo as fronteiras rigidamente vigiadas da binaridade de gênero. Ainda que a retomada histórica desta primeira parte se estenda a contextos europeus como a Idade Média, o alargamento temporal se mostra necessário: torna possível compreender como o útero foi reiteradamente figurado como um “animal sexual e socialmente frustrado”, na leitura atribuída a Platão, ou como um mero secretor de sêmen, como sugeria Galeno. Traçar essa genealogia não é, portanto, um desvio erudito, mas uma condição para compreender a persistência dessas imagens na produção contemporânea dos corpos.

Interessa-lhe pensar o útero e a menstruação como territórios de disputa simbólica e material

Na segunda parte, “Psicodrama outro”, Vomero desloca o psicodrama de sua tradição eurocentrada e o reinscreve em um território de criações anticoloniais, situado em Abya Yala. O conceito de corpo território ganha espessura analítica e política, articulando ecologia, ancestralidade, memória, regeneração e luta, ao mesmo tempo que rompe com a lógica ocidental que separa corpo, natureza e território. Esse deslocamento se aprofunda quando a autora propõe pensar uma menstruação política e ecológica, situada no contexto brasileiro recente de inflexão conservadora e de intensificação de danos sociais e simbólicos. 

A partir da perspectiva do bem-viver, Vomero afirma que não há justiça menstrual sem justiça socioambiental, contrapondo-se à racionalidade fragmentada do capitalismo e mobilizando as três ecologias formuladas por Félix Guattari — ambiental, social e mental — como chave para compreender a interdependência entre subjetividade, relações sociais e mundo material. Nesse percurso, a pergunta “quem pode menstruar?” desloca o debate do campo biomédico para o terreno das disputas políticas, institucionais e culturais, reafirmando o psicodrama como teoria e método de vocação inclusiva, historicamente comprometido com existências marginalizadas. 

Ao recuperar intervenções de Moreno junto a crianças, profissionais do sexo e refugiados, a autora reinscreve o psicodrama como prática pública, socialmente implicada, e o articula a uma crítica mais ampla às estruturas coloniais que organizam afetos, corpos e hierarquias.

A proposta de reflorestar o psicodrama surge, então, como resposta a esse descaminho: um convite a desmontar monoculturas do pensamento, superando as camadas da cis-heterocolonialidade que aprisionam corpos e emoções. É nesse movimento que o uterodrama se afirma como método situado no campo do psicodrama, mas orientado pela experimentação e pelo reencantamento do corpo como território vivo. 

Assimetria

O “Caleidoscópio vivo”, na terceira parte, desloca a discussão para o terreno das experiências, reunindo narrativas de pessoas que vivenciaram o uterodrama em diferentes contextos terapêuticos. É possível pensar essa seção menos como um caleidoscópio e mais como uma flora viva, já que as seis experiências apresentadas recebem nomes de flores e se organizam como variações singulares de um mesmo campo de forças. Há, no entanto, uma assimetria deliberada nas narrativas. 

Alfazema, mulher cis que acabara de realizar um aborto, é quem ocupa mais espaço. É a partir de sua experiência que se acompanha com maior nitidez como o uterodrama opera na prática, tornando o método inteligível não como protocolo, mas como processo vivido. Gerânio, um rapaz trans de vinte anos, aparece em torno das questões identitárias e do reconhecimento de seu corpo e de sua experiência no mundo, ainda que com menor desenvolvimento narrativo. Acácia, mulher cis branca, traz à cena os atravessamentos entre dependência emocional, ansiedade e a relação com o dinheiro, revelando como afetos e economia cotidiana se entrelaçam. 

Lótus, mulher cis negra, explicita tensões entre trabalho, casamento, racismo e machismo. Margarida, mulher cis branca, articula sofrimento emocional e adoecimentos ginecológicos como endometriose e ovários policísticos, atravessados pela sobrecarga da maternidade e pela invisibilização do trabalho do cuidado. Jasmim, mulher cis de quarenta anos, narra o impacto de relações afetivas controladoras e da menopausa precoce sobre o corpo, o sono e a percepção de si. 

Tomadas em conjunto, essas experiências ampliam o alcance do uterodrama como dispositivo de reinscrição simbólica do útero e do corpo, tensionando conversas coloniais que associam feminilidade à culpa, à contenção e à utilidade reprodutiva. Ao resgatar o órgão como espaço de potência criativa e simbólica, a autora afirma o processo terapêutico como gesto de descolonização do corpo e de construção de novas narrativas, nas quais autonomia, conexão interna e alegria deixam de ser exceção para se tornarem horizonte possível.

Vomero afirma o processo terapêutico como gesto de descolonização do corpo e criação de novas narrativas

Em “Fluxos menstruais outros”, a coletânea se dobra sobre si mesma e assume, de maneira explícita, sua aposta rizomática. As imagens-palavras utilizadas nesse último ensaio retomam os principais eixos mobilizados: útero, menstruação política, psicodrama, corpo-território, descolonização, reafirmando o uterodrama como caminho de cultivo, reconexão e cuidado frente aos processos de (des)territorialização que atravessam corpos e histórias de vida. A metáfora da monocultura, dos agrotóxicos e das relações-florestas sintetiza com força poética a crítica às lógicas hegemônicas que endurecem corpos, empobrecem vínculos e produzem escassez afetiva, social e espiritual. 

Esse movimento de retomada amplia uma característica que atravessa a coletânea: a reiteração de certos argumentos, imagens e diagnósticos, sobretudo no que se refere à crítica às narrativas ocidentais e à patologização dos corpos com útero. Ainda que essa repetição possa ser lida como estratégia pedagógica ou insistência política diante de um campo historicamente resistente à mudança, em alguns momentos ela produz uma sensação de circularidade conceitual. Isso, contudo, não fragiliza a obra; antes, evidencia o quanto Uterodrama se constrói menos como um texto de progressão linear e mais como um campo de ressonâncias, onde conceitos são revisitados, reencenados e reinscritos a partir de diferentes registros — teóricos, clínicos, poéticos e políticos. Nesse sentido, as redundâncias também podem ser lidas como parte do próprio método: um gesto de insistência que recusa o regime da síntese apressada.

Ao reinscrever o útero no corpo, na história e na política, Vomero desativa a ficção fundadora de uma razão que prescinde dos afetos e da experiência encarnada. O uterodrama não busca restaurar uma essência perdida nem substituir uma verdade por outra, mas reabrir o corpo como território vivo, atravessado por memórias, violências e possibilidades de criação. Ao final, o que se oferece não é uma nova ontologia do útero, mas um convite ao reencantamento de corpos, onde alegria, espontaneidade e conexão deixam de ser desvios da razão para se tornarem condições de existência.

Quem escreveu esse texto

Larissa Pelúcio

Professora da Unesp, é coautora de No emaranhado da rede (Annablume).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Território em disputa”