O escritor estadunidense Edmund White em Nova York, em 2000 (David Corio/Michael Ochs Archive/Getty Images)

Livros e Livres,

O ‘flâneur’

Morto em 2025, Edmund White viveu intimamente as últimas décadas do século 20 e se despediu com obra-prima cheia de memórias sexuais; escritor faria 86 anos na terça-feira (13)

08jan2026 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102

Li Edmund White (1940-2025) pela primeira vez aos 21 anos, em uma quitinete no extremo sul de Paris. Um estudante como outros, eu morava no sexto andar de um prédio sem elevador, em um quadrado que, de dia, era uma sala e, à noite, quando o sofá se tornava cama, virava um quarto. Vivia à base de café e sanduíches de atum e quinoa, bebia muito, indecentemente, dormia pouco — os olhos tentando se concentrar nas páginas de um livro dentro de um ônibus da madrugada ou no primeiro metrô da manhã.

Era junho de 2011, o começo do verão, e eu estava na França havia um ano. Algumas questões angustiantes me ocorriam: minha bolsa de estudos vai acabar — e agora? Volto para Fortaleza ou fico aqui? Se fico, onde vou arrumar uma nova bolsa, um emprego? Como renovar meu visto? O que vai ser da minha vida? Então comprei O flâneur, de White. 

O livro é um passeio por Paris; uma miscelânea de retratos de escritores da cidade ou dos que passaram por ela; um comentário sobre haver estrangeiros do mundo inteiro ali; sobre uma experiência particular do tempo quando se passa grande parte dele na rua, naquelas ruas, deambulando. Muitos dos escritores retratados eram homens que faziam sexo com homens; muito da reflexão sobre a cidade remetia aos efeitos da aids — o livro data de 2001. 

Lembro pouco do texto. Dos livros de White, não foi o que mais me marcou. Não saberia dizer qual foi sua contribuição concreta em relação às perguntas que me levaram a lê-lo. Mas entendi imediatamente que estava diante de um grande escritor, em um sentido preciso: que viria a desestruturar a minha ideia de literatura. Não foi a forma original do livro — um híbrido de guia turístico, ensaio sobre deambulação urbana, crítica literária e comentário sobre a homossexualidade — o que mais me impressionou. Foi a frase de White: informal e informada, simples sem ser simplória, fria e robusta sem deixar de ser carismática, sua humanidade subjacente e sua sinceridade.

O choque maior veio três meses depois, quando li, em uma semana, Genet, a biografia de 860 páginas que White fez do autor de Nossa Senhora das Flores. O outono tinha começado, acabei ficando em Paris. Ali eu estudaria Jean Genet no ano seguinte, financiado pelo trabalho administrativo que acabei conseguindo. Agora, diante de mim, havia o livro de White: uma brochura de capa cor salmão com a fotografia de um Genet calvo e de olhos franzidos, parcialmente coberto por uma sombra. 

Ler Edmund White é receber aulas vivas de literatura de maneira inesperada e fluida

O livro, de 1993, suspendeu qualquer resistência em mim antes do início: nos agradecimentos, White comenta que a biografia tinha sido pedida por seu editor, que, pouco depois, morreu em decorrência da aids. O livro foi então dedicado a ele, Bill Whitehead, e a um antigo amante de White, Hubert Sorin, também vítima da epidemia. O próprio White, soropositivo desde 1985 — um caso raro de paciente cuja doença não progride, como descobriria depois —, vivia um dia após o outro ignorando se estaria vivo no ano seguinte. 

Colegas cobravam por ele estar na França, ocupado com a biografia de um escritor francês, em vez de nos Estados Unidos militando contra a catástrofe. Mas a escrita da vida extraordinária e improvável de Genet — da orfandade às prisões; das errâncias na Síria e no Marrocos ao engajamento pró-Panteras Negras e pró-Palestina — talvez remetesse a esse contexto, como a afirmação de uma vida que não pode ser contida, que transcende a si mesma.

Lembro de experimentar, em cada frase e inflexão de Genet, um sentido de urgência e um tom de vulnerabilidade que são, sobre um fundo de perda, uma luta contra as circunstâncias. Poucos livros me obrigaram a interromper a leitura para chorar por causa disso e da impressão de que, através deles, estou em contato direto com a vida e as relações. Além de Genet, há pelo menos três outros de White no mesmo grupo: The Farewell Symphony, O homem casado e My Lives.

Nos dois anos seguintes, li um livro dele depois do outro, escrevi inúmeros exercícios de prosa inspirados por sua escrita, redigi uma monografia de mestrado sobre ele. Trocamos algumas mensagens: White foi o primeiro escritor para quem escrevi, pelo simples motivo de ele ter um olhar no qual eu confiava sem restrições. Não fui julgado pelas inconsistências de uma prosa jovem ou pelo inglês estranho de um estudante brasileiro, mas recebi elogios inusitados, acolhedores, e encorajamento. 

Com White, aprendi que, na literatura, a verdade, e o risco que vem com ela, deve prevalecer sobre qualquer vaidade institucional; e que, na vida, o que desejamos é central no que somos. Lê-lo é receber aulas vivas de literatura de maneira inesperada e fluida, sem os assujeitamentos que marcam por vezes os procedimentos universitários. Depois de ter me ajudado com Genet, ele foi uma porta de entrada para Proust, Colette, José Lezama Lima. Foi quem me fez descobrir Um homem só, de Christopher Isherwood, O quarto de Giovanni, de James Baldwin, e L’armée du salut, de Abdellah Taïa, entre muitos romances.

Reencontro

Cheguei a encontrar White em 2014, três anos depois da primeira leitura, em mais um começo de verão em Paris. Naquela altura, aos 24 anos, eu começava a me distanciar de sua obra, me via “brigando” internamente com ela. Minhas reservas eram duas faces do mesmo problema: a apologia ao mundo do prestígio, do dinheiro, até de aristocracias caducas, e a acomodação numa segurança ocidental; o fato de White ser, apesar do espírito de amizade, um escritor do e para o Norte. Talvez isso explique seus títulos serem pouco traduzidos no Brasil.

Durante anos, não li uma página de White. Em junho de 2025, soube que tinha morrido. Então abri seu último livro, The Loves of My Life: A Sex Memoir, de título sensual, uma provocação, publicado em janeiro daquele ano. No prefácio, ele aborda o alvo da minha antiga reserva, ainda que com termos como first world. Problemas à parte, é uma obra-prima: cativante, cerebral, magnificamente explícita, sombria e de fazer cair da cadeira de rir. White penetrou o íntimo do período desde os anos pré-Stonewall até a era prep (a profilaxia pré-exposição que revolucionou a prevenção ao hiv) e, na despedida, deixou um dos melhores livros de 2025.

Quem escreveu esse texto

Luciano Brito

Doutor em literatura comparada pela Sorbonne Nouvelle e autor, entre outros, de As falésias (Editora Machado).

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.