O médico e escritor mineiro Marcelo Henrique Silva (Gresley Guimarães/Divulgação)

Livros e Livres,

Memória de sangue

Romance de estreia de médico inspira-se em histórias reais para narrar, sem metáforas, a epidemia de HIV/aids nos anos 80

26nov2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100

A ciência afirma que o corpo humano é composto, em sua maioria, de líquidos: sangue, água e outros fluidos. Dizem os místicos que há nele uma dimensão invisível, feita de energia quântica que se projeta na aura, no tempo ou no espaço, em ecos de antigas palavras, para citar Chico Buarque. Para os poetas, somos memória. E, se na Bíblia “o verbo se fez carne”, em Sangue neon, romance de estreia do mineiro Marcelo Henrique Silva, é a carne que se faz verbo.

A partir da carne, o autor constrói uma narrativa em três vozes. O cenário é a cidade de São Paulo; o elo entre as histórias, a explosão da epidemia de HIV/aids nos anos 80, tempo aparentemente distante, mas com cicatrizes, frágeis, que vez ou outra insistem em sangrar.

O corpo é o grande protagonista do romance, entendido não apenas como matéria, mas como território de violência, desejo e sobrevivência. Nesse sentido, Henrique Silva transporta para a ficção a experiência de sua primeira profissão: médico do SUS, esteve na linha de frente da pandemia da Covid-19.

Segundo o autor, a inspiração para o romance — que lhe rendeu um Jabuti na categoria Escritor Estreante — surgiu ao ler a história dos comissários da Varig que, aproveitando-se das regalias no despacho de bagagens, passaram a contrabandear o AZT, primeiro medicamento que demonstrou alguma eficácia no combate aos sintomas da aids. Na época, o governo federal se negou a comprar o antirretroviral — sim, o déjà vu não é obra de ficção. A partir disso, duas outras histórias se uniram à narrativa: a de Brenda Lee, travesti que manteve, por algum tempo com recursos próprios, uma casa de acolhimento para pacientes da doença, e o processo da Oitava Conferência Nacional de Saúde, que culminou na criação do SUS — um dos mais avançados sistemas governamentais de saúde pública.

O romance não faz concessões, e talvez aí esteja sua força narrativa. A emoção é capturada pela crueza das cenas. Ao leitor, cabem as imagens cuidadosamente talhadas, com metáforas que beiram a crueldade, no sentido artaudiano da palavra — um confronto radical com a realidade, sem ilusões ou consolos. Um verdadeiro cenário de terra arrasada.

Logo no primeiro capítulo, “Óleo”, narrado em primeira pessoa, acompanhamos uma jovem travesti submetida a uma sessão de aplicação de parafina industrial para moldar o corpo e garantir o “aqué” na viração dos arredores do Arouche. O realismo é desconcertante: é quase possível sentir na pele o êmbolo empurrando a substância viscosa nas áreas desejadas — peito, perna, nádegas —, e os cortes improvisados e fechados com Super Bonder. O episódio, brutal por si só, é apenas a porta de entrada para um cotidiano ainda mais devastador: a precariedade das ruas, a violência policial, a miséria habitacional, as drogas e, quando o fundo do poço parece ter sido alcançado, a chegada da “peste gay”.

Já no segundo capítulo, seguimos em terceira pessoa uma estudante de medicina diante de uma “peça”, denominação dada aos corpos (ou partes dele) utilizados pelas faculdades para a formação de novos profissionais de saúde — geralmente corpos de indigentes, doados pelo Estado. Pessoas sem nome, identidade ou história. “Antes do bisturi havia o corpo. Depois, o objeto.” A frase que abre o capítulo resume a violência do descaso, mas um detalhe rompe a aparente neutralidade: trata-se de um corpo travesti.

O autor não faz concessões, e talvez aí esteja sua força narrativa: a emoção vem da crueza das cenas

O capítulo avança num tom quase cínico, expondo a formação médica como testemunha de uma época em que a epidemia ainda não tinha nome definido — ora peste, ora câncer, mas sempre com o adjetivo “gay” determinando a que classe de pessoas se acreditava que o vírus pertencia. Uma doença cujos sintomas apareciam na “pele acobreada pela bilirrubina em erupção” ou como sarcoma de Kaposi, mas invariavelmente com olhares assustados de pacientes e médicos.

Já em “Tomografia”, também narrado em terceira pessoa, o ritmo da escrita se acelera e se apresenta sem pontuação formal. Sua leitura não é confortável. O texto parece ter sido escrito a um só fôlego, como se o narrador não tivesse tempo. E, de fato, não tem: Caio, o personagem que conhecemos a partir deste capítulo, é um comissário de bordo recém-promovido que recebe soro após desmaiar em pleno trabalho. O diagnóstico se impõe sem rodeios: ele está condenado.

As três vozes vão se alternando ao longo do romance, ajudando a recompor um cenário que muitos de nós acompanhamos pelos noticiários ao longo dos anos 80 e 90, seja através das matérias alarmantes, seja pelas mortes que ofuscaram o brilho das capas de revista com famosos sorrindo. O vírus, como se soube depois, não escolhe gênero, raça ou classe social.

Justiça poética

Apesar de ser inspirado em histórias e pessoas reais, e de reconhecermos alguns pontos factuais, como a trajetória de Brenda e seu Palácio das Princesas, o autor optou por utilizar nomes fictícios, permitindo-se maior liberdade e até mesmo certa justiça poética, porque há, além daqueles que já conhecemos, outras personagens anônimas que estiveram no front e das quais nunca ouvimos falar.

Seja qual for o tipo de leitor, é quase impossível sair ileso da narrativa. À medida que se avança, a história impele a ir ao teatro assistir ao musical sobre Brenda Lee, estimula a maratonar a série brasileira Máscaras de oxigênio não cairão automaticamente (HBO) ou agradecer a existência de profissionais como Marcia Rachid, médica infectologista pioneira no tratamento humanizado a pessoas que vivem com HIV. Junto com o ativista Herbert Daniel, Rachid fundou o grupo Pela Vidda no Rio de Janeiro em 1989 — os relatos de ambos sobre essas histórias também merecem ser lidos.

Sangue neon é também uma carta de amor ao SUS, sistema que, mesmo constantemente ameaçado, fez do Brasil um exemplo global no combate e na prevenção ao HIV/aids. A publicação do livro, decorrente de um concurso que Henrique Silva venceu também como autor estreante, não retrata só um período. Restitui voz a uma parte da sociedade ainda à margem, narra histórias que resistiram à invisibilidade e revela abismos do passado recente que permanecem.

Quem escreveu esse texto

Jean Cândido Brasileiro

É editor de livros, escritor, tradutor, produtor cultural e ator

Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.