Literatura,

Paz e amor com crueldade

Romance se inspira nas seguidoras de Charles Manson para contar história de adolescente

09nov2018 | Edição #4 ago.2017

Parada dura a escritora Emma Cline. Escolheu entrar para o mundo do romance, aos 27 anos, cruzando o terreno mais pedregoso e sangrento: o rancho da Família Manson, grupo de seguidores de Charles Manson, líder de uma comunidade cujos membros foram condenados por uma série de assassinatos no fim dos anos 60 na Califórnia. Não deu outra. As garotas colocou Cline este ano no hall das melhores jovens romancistas norte-americanas da revista Granta

A narrativa toma como ponto de partida um fato, o caso Manson, mas se torna melhor ao mostrar o mundo pelos olhos de uma garota de 14 anos, na Califórnia. Seu nome é Evelyn Boyd, a Evie. É a adolescente que possivelmente vive em nós. Sofre com as dores e delícias na virada da infância para a juventude em meio à separação dos pais e à descoberta do sexo e do amor. Não bastasse, há a transição de uma escola comum para um internato, por exigência da mãe, durante o verão de 1969. Sim, sempre há um verão no meio do caminho. 

E é no verão que o rumo de Evie muda, na tentativa de fugir do tédio e da mesmice impostas pela vontade dos pais. Ambos, apesar de separados, vivem da herança da avó materna, Harriet, filha de um cultivador de tâmaras da cidade de Indio, que de um dia para o outro é levada a Hollywood e se torna atriz de cinema. Faz fama e fortuna, legando para a filha, o genro e a neta dinheiro suficiente para o sustento de negócios difíceis de dar certo. Jean, a mãe de Evie, come ovos crus e bifes salgados para manter a vitalidade — sem contar cinco ou seis colheradas de steak tartare por dia. E seu pai a encoraja a ler Dickens, respirar mais profundamente e comer proteína. Acaba por largar a mãe de Evie por uma funcionária de sua empresa.

Dá para entender por que Evie não quer essa vida. Descobre a existência do “rancho”, uma fazenda tomada por um grupo de hippies que remexem o lixo de restaurantes à procura de restos de comida, roubam supermercados para se apropriar, vejam só, de rolos de papel higiênico, e também dão ganhos nas carteiras de seus pais atrás de dinheiro e cartões de crédito. É a sua liberdade, ou quase. Bandeia para a fazenda, eletrizada pela novidade e seduzida pelas maravilhas da filosofia anticonsumista do líder da trupe, Russel (Mason), o uso de drogas de todos os tipos e, claro, não poderia faltar, uma paixão. Esta atende pelo nome de Suzanne, 19 anos. Ela se torna o ópio da vida da garota, obsessão psicodélica. O deslumbre de Evie pela atitude das garotas de Manson, como musas inspiradoras, apesar de malvestidas e cabelos desgrenhados, é o motor do livro. 

As garotas tem duas vias de narrativa em paralelo: o passado, à época dos fatos, e hoje, Evie cinquenta anos mais velha. Trabalha como cuidadora de jovens deficientes e idosos, usando os conhecimentos de um curso de enfermagem, e mora à beira-mar em uma casa emprestada de um amigo. Aqui há o curioso encontro com o filho do tal amigo, Julian, e sua namorada Sasha. O rapaz foi aprendiz de violoncelista, tocou em competições na costa oeste, estudava mandarim às quintas-feiras e alimentava-se de pão integral e vitaminas mastigáveis. E logo reconhece Evie como a amiga do pai que viveu no rancho.

O mundo de paz e amor é visto no livro da maneira mais cruel. Charles Manson não só existiu como ainda existe: tem 82 anos e cumpre pena na Califórnia por indução ao assassinato por meio de seu culto macabro — entre eles o da atriz Sharon Tate, grávida de 8 meses e mulher do cineasta Roman Polanski. Há quem diga que as vítimas podem chegar a 35 pessoas. Algumas se safaram mas a investigação policial apontou que a lista das próximas vítimas tinha nomes como os de Frank Sinatra, Elizabeth Taylor e Steve McQueen. 

Deixe isso de lado. O livro não é uma reportagem sobre a família sinistra, nem sobre Manson, longe disso. É a licença para Cline passar seus olhos, como câmera, em uma fase da vida inesquecível — aliás, que filme daria seu romance. A narrativa é eletrizante e traz consigo o melhor dos elementos: o olhar feminino para a vida, as mudanças de estação, os movimentos de crescer e assumir quem se é, resistir e ceder. Pode parecer banal. Não é. Emma Cline tem talento de sobra para levar essa história como poucos escritores.

Quem escreveu esse texto

João Wady Cury

É autor de Enquanto eles choram, eu vendo lenços (HarperCollins) e assina a coluna ArCênico no jornal O Estado de S. Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #4 ago.2017 em junho de 2018.