Literatura,

Onde os machos não têm vez

Precursor da literatura de gênero, romance utópico de 1915 retrata sociedade composta só de mulheres

29out2018 - 11h57 | Edição #16 out.2018

Não é coincidência que o mundo esteja redescobrindo a norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935): o feminismo tem vivido um renascimento, no Brasil e no mundo. Esse zeitgeist deu ensejo, entre outras coisas, a uma nova corrente literária. Foi como voz do feminismo que Chimamanda Ngozie Adichie ganhou projeção mundial, mas o fenômeno não se limita às escritoras contemporâneas. Livros que no século 20 deram conta dessa vertente têm sido relançados com frequência — muitos deles transitando entre a ficção científica e a distopia. É o caso de Kindred (1977), de Octavia Butler, e de O conto da aia, de Margaret Atwood (1985), recentemente adaptada como série pela plataforma de streaming Hulu.

É nesse espírito que dois selos brasileiros, Via Leitura e Rosa dos Tempos, relançaram Terra das mulheres, com diferença de meses. Publicado originalmente em 1915, o livro é o segundo de uma trilogia de Gilman, que começa com Moving the Mountain [Movendo a montanha], de 1911, e termina com With Her in Ourland [Com ela em nossa terra], de 1916. Até agora, nenhuma das editoras decidiu publicar as outras duas obras, uma decisão que não chega a prejudicar o leitor, já que o livro é compreensível por si só. Outro traço comum aos dois lançamentos: para os prefácios, foram escolhidas ativistas — Juliana Gomes, criadora do projeto Leia Mulheres, assina o livro da Via Leitura; Renata Corrêa, criadora da página Como Não Ser Um Machista Babaca, o da Rosa dos Tempos. A escolha de duas escritoras com presença forte na internet é mais um sinal de que o objetivo da publicação é atingir justamente o público que, hoje, reverbera as pautas feministas.

Expoente da bibliografia utópica feminista, Terra das mulheres, é um marco da literatura de gênero. A utopia de Gilman é uma sociedade sem homens, um país isolado, de localização não especificada, onde ninguém se aventurava até três varões (Terry O. Nicholson, Jeff Margrave e Vandick “Van” James) decidirem juntar seus recursos para ir até lá. Capturados pelas mulheres e introduzidos na sua rotina, passam a aprender sobre a cultura delas e, por sua vez, a ensiná-las sobre a deles.

A sociedade era altamente industrializada; as mulheres eram grandes e faziam trabalhos físicos

É a partir do ponto de vista desses três homens, em especial do narrador, Van (ponto de equilíbrio entre a visão mulherenga e derrogatória de Terry e a pastoril e ingênua de Jeff), que a ideia do leitor sobre essa terra e essas mulheres se constrói. Eles esperam encontrar um lugar “bastante primitivo” no qual as habitantes lutam entre si, pois “é o que as mulheres sempre fazem”. Imaginam também ser recebidos como reis — afinal, as habitantes daquele país só deveriam estar loucas para disputar sua atenção.

Deparam com uma realidade inversa: o lugar é industrializado, altamente desenvolvido. Quanto às mulheres? “Não eram jovens. Não eram velhas. Não eram, no sentido feminino da palavra, bonitas.” Seus cabelos eram curtos; suas roupas, puramente funcionais, sem função decorativa. Elas eram grandes e faziam trabalhos físicos. Mesmo convivendo com aquela civilização pacifista de 2 mil anos de idade, um dos protagonistas, Terry, ainda se recusa a crer naquele país: “Sabemos que elas não conseguem se organizar. Que brigam por qualquer coisa e são extremamente invejosas”. 

É justamente na ideia de feminilidade como algo performado e socialmente construído — conceito que só seria cunhado oficialmente muitos anos depois, em 1990, por Judith Butler — que mora a força de Terra das mulheres. A aparência física de suas personagens não as torna menos mulheres, o que os próprios protagonistas reconhecem ao se atraírem por elas. A divisão de tarefas do início do século, em que as mulheres (ricas, é claro) ficavam em casa e os homens construíam o mundo tampouco existe no romance. Quando são informadas de como as coisas funcionam nos países tradicionais, parecem não compreender: elas gostam de fazer trabalhos braçais e têm orgulho do mundo que ergueram.

Maternidade compulsória

Por fazer parte da primeira onda do feminismo, focada na luta pelo sufrágio universal, Gilman encontra limitações naturais ao sustentar sua pauta. A sexualidade, por exemplo, é eliminada pela autora, que concebe uma sociedade assexual e nem chega a aventar a lesbianidade. Gilman cai ainda na antiga armadilha do macho redentor, ao fazer os protagonistas casarem com as mulheres de lá. É também problemático que a visão masculina seja o fio condutor da história, reforçando o lugar secundário da mulher não só como produtora de literatura, mas como personagem.

A questão central nessa sociedade, fica claro, é a maternidade. Todas concentram sua energia vital em engravidar e criar filhos, e a gestação acontece quando a mulher sente uma urgência quase religiosa de conceber. Gilman, assim, não questiona a visão biologizante que dita que só se é mulher de verdade quando se é mãe. Embora o papel tradicional da mãe seja repensado (a mulher não é consumida pela criação da criança), isso não faz a autora ir além da maternidade compulsória. A tese de Gilman, em que faz dela um ideal coletivo e sacro, chega mesmo a esbarrar numa noção de sagrado feminino, de mulheres como seres intuitivos e conectados à terra.

A régua dos tempos que correm, porém, não pode ser usada para medir uma obra do início do século 20: Gilman de fato criou uma narrativa com ideais inovadores para os padrões da época. Um século depois, a missão dos leitores é analisá-la sob a ótica do que sabemos e usar seu livro como modelo do que ainda precisa ser repensado e abarcado pelo feminismo de hoje.

Quem escreveu esse texto

Laura Folgueira

Escritora, é coautora de Eu e Não Outra - A Vida Intensa de Hilda Hilst (Tordesilhas).

Matéria publicada na edição impressa #16 out.2018 em outubro de 2018.