Literatura,

Não sou seu negro

Romance sobre o assassinato de um professor de literatura revela o processo de construção e introjeção do racismo

01set2020 - 01h00 | Edição #37 set.2020

O assassinato de um professor de literatura de 52 anos durante uma abordagem policial em Porto Alegre poderia sugerir acidente, entretanto essa tragédia não tem nada de aleatória em O avesso da pele. Sem o subterfúgio dos confrontos em áreas de tráfico, que com suas “balas perdidas” sempre atingem o mesmo alvo, mais uma vez os disparos crivam o corpo negro neste romance de Jeferson Tenório que teve os direitos de adaptação para o cinema vendidos para a RT Features e os de tradução negociados em diversos países antes mesmo de seu lançamento.

Não é difícil imaginar que tal interesse pelo livro tenha sido despertado pelo impacto causado pelo assassinato de George Floyd. O leitor brasileiro de O avesso da pele logo notará que, ainda que se irmane a esse caso emblemático por motivos óbvios, não há qualquer brecha para importação em suas páginas. Não apenas porque foi escrito antes desse crime que gerou manifestações pelo mundo ou por chamar a atenção em nossa língua para o quanto vidas pretas importam, mas porque é impossível não reconhecer em nosso cotidiano cada uma das formas de expressão da letalidade do racismo trazidas à tona por Tenório, que não se intimida em colocar o debate no centro de sua obra de forma explícita, sem ser didático.

Também não abre mão de caras referências literárias, o que não é gratuito, afinal, aquele que buscam aniquilar na trama é um homem negro apaixonado pelo que há de melhor na literatura, isto é, obras que se mantêm vivas ao longo do tempo, e o que o filho-narrador busca neste romance é antes de tudo fazer reviver o pai, tornando-se ele próprio um autor de sua genealogia e do significado de ser negro no Sul do país.

No apartamento do pai morto, Pedro, de 22 anos, passa a transformar os pertences do ausente em presença e pertencimento — herança imperiosa que se converte no resgate de toda uma saga familiar. Da perspectiva dessa orfandade convertida em potência, o assassinato de Henrique é simultaneamente o desfecho de uma trajetória atravessada por situações análogas, em maior ou menor grau, àquela que põe fim à sua vida; e o que abre a narrativa, mas não se encerra, porque diz do que continua em ação fatal. Isso se dá não apenas nessa casa onde o pai será sempre aquele que se recusa a partir para esse filho em particular, mas em todo canto onde, encarnado em tantos outros, segue “um corpo que não vai parar de morrer”.   

A pouca idade de Pedro pode causar estranhamento, tamanha a consciência revelada sobre sua própria condição, como rebento das histórias que narra. O fato de ser um filho-autor também pode gerar algum incômodo, sobretudo quando esmiúça detalhes da vida íntima dos pais, como se detivesse uma onisciência capaz de estar presente até no momento de sua própria concepção, entre outras experiências — não necessariamente apenas as sexuais — de antes e depois de eles serem seus progenitores. Para o quesito precocidade talvez seja possível encontrar uma resposta no livro irmão de O avesso da pele: o Marrom e amarelo

No romance de Paulo Scott, o protagonista Federico, que tem praticamente a mesma idade de Henrique (ele poderia ser pai de Pedro), é um reconhecido pesquisador das questões ligadas à hierarquia dos tons de pele (“pigmentocracia” ou “colorismo”) e coloca a sobrinha Roberta, que fora presa em uma manifestação, em contato com uma ex-namorada que é psicóloga. Depois do encontro com a jovem, Bárbara avalia que ela é de uma geração que alcançou um grau de compreensão das desigualdades que mesmo eles, sendo tão afiados e engajados, não teriam alcançado sem muitas formulações, mas tudo isso viria num caldo de afetos como raiva e medo: “Parece que ela tem pavor da ideia de não conseguir ser a protagonista da própria história”, conclui. 

Já Pedro carrega uma revolta evidente, mas ela é elaborada em outros termos, o que nos leva ao ponto da onisciência improvável. Não se trata de um narrador no qual não possamos confiar, mas o contrário, pois é ele próprio quem estabelece uma ética para o que diz criar e inventar, a despeito do testemunhado ou não, mas a partir da investigação dos afetos alheios através dos seus, como em boa parte faz todo escritor.

Forma epistolar

Assim, o luto de Pedro se faz narrativa e luta política ao extrapolar o espaço da intimidade e da busca pessoal das próprias origens, quiçá esboça o livro que Henrique, amante dos grandes autores, um dia afirmou que não teria paciência ou condições psicológicas para escrever: “Porque não saberia se o que pensava era literatura ou uma observação precá­ria sobre a vida”. Se o que denuncia por meio de uma série de episódios da vida dos pais é sobretudo o racismo estrutural em termos de um combate e debate públicos, a forma que encontra para essa realização guarda na maior parte do romance um parentesco com um dos gêneros mais íntimos, a carta, porque diálogo que se estabelece na proximidade máxima, mas marcado por uma distância imposta, além do predomínio do uso da segunda pessoa do discurso (“você”), que no caso é o pai, mas por vezes se endereça a você, leitor, que pode vir a se identificar com ele ou, quem sabe, se colocar na pele dele, desde que pelo avesso.

Se o epistolar de fato desse conta de nomear o que se se lê neste romance, poderíamos pensar num contrário da célebre carta kafkiana, pois aqui não interessa ao filho-remetente apontar os vereditos do pai-destinatário, matando-o em algum lugar em si mesmo para poder ser o que se é, mas trazê-lo de volta à vida por meio de sua história. Mas não dá conta, ainda que seja um aspecto estruturante da arquitetura do livro e de um sentido de transmissão entre um “eu” que passa a constituir na relação com um “você” que lhe foi arrancado à força.   

Ainda que centrado no pai, o relato de Pedro não deixa a mãe de fora. Marcada pela orfandade aos dez anos, Martha e seus irmãos passam a viver amontoados na casa de uma tia que trabalha como empregada doméstica até ser adotada aos doze anos pela professora de sociologia Madalena, que já criava sua filha Flora sozinha. Quando questionada sobre por que a pele de Martha é mais escura do que a da irmã, Madalena diz “que a cor dela não significava nada”. Pedro completa: “Minha mãe, a princípio, não enten­deu por que ela falara aquilo com tanta ênfase e passou dias pensando naquela palavra: ‘negra’. Antes, ela era Martha ou Marthinha. Agora, depois de uma simples pergunta, ela passara a ser Martha e negra. A pele fora nomeada, a existência ganhara sobrenome”. 

O livro não simplifica o tema das relações amorosas: se não há redenção para o casal negro, a relação com parceiros brancos escancara todo tipo de discriminação

Ter passado por tudo o que passou Martha, conforme se acompanha nas páginas dedicadas a ela e que têm nesses lances tão fundantes da infância apenas o seu começo, não a torna necessariamente simpática ao engajamento de Henrique, que vemos ser construído pouco a pouco e sobretudo a partir do contato com um professor. Em uma das muitas desavenças entre os dois ao redor do tema, ela afirma: “O movimen­to negro acha que tudo se resume à cor da pele. Se esquecem que ser um homem negro é muito diferente de ser uma mulher negra”. O que pode soar como alienação não deixa de salientar a especificidade de um testemunho diverso não só no que diz respeito à diferença de gênero, uma vez que passamos a conhecer muito de perto a história dessa mulher e a complexidade de sua subjetivação sob os efeitos nefastos do racismo, inclusive sobre sua vida amorosa. 

A propósito, as desavenças e rupturas do casal, sendo Pedro fruto de uma recaída, não simplificam o tópico das relações amorosas retratadas no livro, mas exploram as nuances caso a caso, inclusive para o narrador, que ensaia se iniciar nesse campo de maneira frustrada. Se não há redenção romântica para o casal negro em O avesso da pele, a relação com parceiros brancos escancara todo tipo de discriminação. 

Nessa odisseia na qual o homem negro não sabe se retornará vivo da jornada que são as ruas na volta para casa, entre quatro paredes a cama também é racializada. Apesar de Homero não ser citado, chama a atenção o quanto demoramos para conhecer o nome do protagonista, como acontece com o de Odisseu (ou Ulisses) no poema épico. Até que o nome se revela na página 35, quando, depois de se recusar a participar dos almoços da família de uma namorada branca, em que era chamado de “negão” e nunca pelo seu nome, ela tenta ser ponderada e carinhosa chamando-o de “meu nêgo”: “Não sou teu negro. Não sou teu preto. Meu nome é Henrique”.

Os livros dentro do livro

Kafka, Cervantes, James Baldwin, Virginia Woolf e Toni Morrison são alguns dos escritores que o professor Henrique planeja apresentar aos alunos após o sucesso de sua aula sobre Crime e castigo, um dos únicos de sua trajetória de vinte anos de magistério. Parece muito bem-sucedido também o modo como esse romance de Dostoiévski está contido no de Tenório, desde um detalhe que pode passar despercebido, como o fato de o autor da narrativa se chamar Pedro, de modo que o estudante de arquitetura é xará do que dá nome à cidade russa onde se passa o romance (que por sua vez aparece no título de um dos capítulos de O avesso da pele), até outros incontornáveis, como o “mergulho em Raskólnikov”, decisivo para que Henrique se tornasse um leitor na juventude, fascinado pela possibilidade de investigar a mente de um criminoso (estratégia que tantos anos depois seduzirá também seus alunos), e a própria sondagem interior do inconsciente do policial que dispara o terceiro entre os vários tiros descarregados sobre ele no dia de sua morte. O policial tinha um sonho recorrente com homens negros invadindo sua casa. 

E fica a pergunta: que tipo de sociedade forma imagens assim no interior de sua gente? A que tipo de fantasmas lançam a pergunta do guarda Bernardo após a morte do pai do príncipe Hamlet na epígrafe shakespeariana de O avesso da pele: “Quem está aí?”. Jeferson Tenório escreveu um livro que tem boa parte da resposta, sem vitimizar seus personagens ou torná-los sombras. E é brutal notarmos que há na queda desse corpo crivado de balas — que também nos atinge metaforicamente no peito e na cabeça, porque nos faz sentir e pensar — o que é um lugar de muito privilégio: estamos diante de um enredo de ascensão e conquistas sociais e intelectuais que, numa versão em que não houvesse a fatalidade do racismo, até poderia ser a história de um casal de jovens  negros que se conhece na faculdade particular que com muito esforço conseguiram pagar e, anos depois, comemora a entrada do filho numa universidade pública federal pelo sistema de cotas. Infelizmente, apenas parte disso é a verdade que o livro de Tenório traz. 

Quem escreveu esse texto

Luciana Araujo Marques

É doutoranda em teoria e história literária na Unicamp.

Matéria publicada na edição impressa #37 set.2020 em julho de 2020.