Literatura,

Lições de interpretação de texto

Zambra gabarita em novo romance

08nov2018

Na forma de uma espécie de vestibular ao qual os chilenos se submetiam para entrar na universidade, Alejandro Zambra constrói um romance que retoma os temas de seus livros anteriores com a novidade de uma implicação compulsória do leitor.

Lendo Múltipla escolha, é possível que você se perceba condicionado a responder a esse tipo de questão. É possível que note toda a influência de seus dez anos de escola o fazendo realmente prestar atenção aos exercícios, como se valessem pontos. É possível que você se veja tentando acertar as respostas simplesmente porque foram arranjadas de um modo que estamos acostumados, senão a respeitar metodologicamente, ao menos aceitar que decidam coisas cruciais em nossas vidas.

Em dado momento, um dos narradores diz que na sua escola, supostamente uma das mais exigentes do país, era facílimo colar e que ninguém precisava pensar muito, porque desde cedo as perguntas eram de múltipla escolha, a fim de treinar os alunos para um exame ironicamente batizado de Prova de Aptidão Verbal onde não era necessário escrever uma só palavra. A cola foi o que rompeu o individualismo da turma e instaurou qualquer espécie de espírito coletivo. Depois de ler o relato, é preciso definir o que ele significa entre opções pré-moldadas.

As questões do livro incluem compreensão de leitura, planos de redação, eliminação de orações desnecessárias ao sentido, identificação da palavra que não se associa semanticamente às demais. No fim, um gabarito precisa ser preenchido, sob punição de nada valer. Serve no mínimo para comparar as respostas com a de algum amigo. O preenchimento das questões ora evidencia a farsa desse tipo de teste, ora permite que o leitor altere drasticamente o rumo de uma historieta. Ora entedia, como numa longa prova, ora prende a atenção e o compromete com coisas que talvez você não quisesse que um livro tão curto o comprometesse.

A prova que serve de modelo ao livro foi aplicada como seleção universal para quase toda universidade chilena entre 1966 e 2002. Depois foi substituída por um exame que não pegou e hoje o que vigora é a Prueba de Selección Universitaria, tão estandardizada quanto a antiga Prueba de Aptitud Académica, mas que teoricamente mede conhecimentos, enquanto aquela media aptidões, seja lá o que essas palavras signifiquem.

Marcando xzinhos, podemos escolher se o sentido mais distante da palavra “proteger” se encontra em encobrir, cuidar, adorar, custodiar ou vigiar. Podemos apagar atos de violência, mudar a ordem dos fatos, decidir se um bebê é filho do acaso ou do toque de recolher, apontar quem seria o vilão. Preenchendo lacunas, decidimos se a história é de uma agressividade sem fim ou digna de um PowerPoint de Augusto Cury. Em determinado trecho, é preciso esclarecer se a omissão do nome da noiva citada em um relato aparentemente biográfico se deve a uma vontade de protegê-la, a um medo de represália ou ao fato de o autor ser um verme misógino. Zambra passeia por esses personagens, tomando a posição de filhos de torturadores ou de parceiros fracassados, de noivas raivosas e de leitores pouco elogiosos.

Algumas brincadeiras soltas pelo livro apontam para o escritor que ele é. Em uma das questões, surge a opção que forma o nome de um romance de Juan Carlos Onetti, Junta-Cadáveres. Admirador de Onetti, Zambra escreveu um ensaio sobre o uruguaio, que viveu de fora dos holofotes que ele próprio experimenta.

Nas narrativas que forma ao longo das questões, o autor fala da ditadura de Pinochet, uma das mais sangrentas do continente, das conturbadas relações que estabelecemos com a memória de nossos pais, das distâncias impostas pelo cotidiano. Em suma, de tudo o que já estava em Meus documentos (2015), Bonsai (2006), A vida privada das árvores (2014) e em sua melhor obra, Formas de voltar para casa (2014). 

Chileno de 41 anos, Zambra mora no México e é um dos “jovens autores” latino-americanos (para usar uma medida de juventude permitida apenas pela literatura e pelos infartos) mais aclamados. Talvez pelo humor doce e pontiagudo, pelo entrelaçamento fluido de ficção e memória, talvez por nos permitir pensar em ditadura sem pensar na nossa e certamente pela extensão curta de seus livros, é um escritor bem lido por aqui. Entre os latino-americanos de sua idade, não consigo pensar em um que seja mais pop.  

Quem escreveu esse texto

Juliana Cunha

Jornalista, escreveu Já matei por menos (Lote 42).