Literatura,

Dor generosa

Lucia Berlin reinventa fantasmas autobiográficos em contos de vivacidade contagiante

14nov2018

Em “Lavanderia Angel’s”, o primeiro conto de Manual da faxineira, a narradora fala de seus breves contatos com um índio jicarilla num cenário típico de certo cinema americano: máquinas de lavar que vazam, um telefone público fora de serviço e “noivas chicanas adolescentes” com suas “calcinhas de biquíni que dizem Quinta-Feira”. O índio dá a ela três moedas porque está trêmulo demais para conseguir botá-las na secadora (“sóbrio, é difícil”). Mais tarde, ele volta bêbado e desmaia sem conseguir recolher sua roupa. Ao carregá-lo com a ajuda do “responsável por todas as orações e lemas do AA espalhados pela lavanderia”, a protagonista pensa: “Quem diz que sabe exatamente como outra pessoa se sente é um idiota”.

Não há cálculo óbvio em Lucia Berlin, aquela esperteza contida dos textos de oficina literária

Na superfície, soa como um relato trágico. O que pode até ser: como em outros momentos desta coletânea, Lucia Berlin (1936-2004) é capaz de nos tirar o fôlego com a densidade de suas frases e a coragem de reiterar temas autobiográficos — o alcoolismo, os problemas físicos decorrentes de uma escoliose, os traumas familiares. Em “Macadame”, ela reflete sobre como a palavra que dá título ao conto a faz lembrar da infância num lugar sujo do Texas: “Parecia o nome para um amigo”. Em "Dr. H.A. Moynihan", pergunta à mãe se ela ainda odeia o avô de quem cuida depois que ele arranca todos os dentes. “Ah, odeio”, é a resposta. “Odeio sim.”

Mas o segredo não está nas sínteses do que é dito diretamente, ou não apenas. A rica experiência da autora, que morou em muitas cidades, teve quatro filhos de três casamentos e trabalhou como enfermeira, telefonista, professora de escola secundária e diversas outras funções, colabora para a acuidade dos contos. A dor que emerge deles só é percebida com tal potência porque é alternada com digressões e anedotas de uma vivacidade contagiante, num ritmo e arquitetura indissociáveis do poder de observação.

Para chegar a um possível sentido de “Lavanderia Angel’s”, por exemplo, passa-se por fragmentos sobre coisas grandes e ínfimas, num tom que pode ser grave ou casual: a cor de uma colcha depois do tingimento, o cigarro aceso por um príncipe num passeio de iate em Viña Del Mar, as manchas de velhice em mãos onde se veem “filhos, homens, jardins”. Tudo culmina em duas frases que, em sua melancolia pela passagem dos anos, pela inadequação de quem conta a história e dos tipos que dela participam, joga uma nova luz sobre as páginas que acabamos de ler: “Dobrei minhas roupas (…) e fui para casa. Não consigo me lembrar de quando foi que me dei conta de que nunca mais vi aquele velho índio”.

É um procedimento de contraste, por um lado, e de manejo de expectativas, por outro. Só que não há cálculo óbvio em Lucia Berlin, aquela esperteza contida dos textos de oficina literária. Sua condução não aponta para desfechos “surpreendentes e inevitáveis”, nem mostra a quem relê que “tudo fazia sentido desde o início”, como se procurássemos segredinhos de trama cuja resolução seria um (auto)elogio à nossa inteligência. Aqui vale é a energia, a fluidez que emana da recusa em domesticar o universo descrito — estradas poeirentas dos Estados Unidos, escolas opressoras, clínicas de desintoxicação — por causa de um eixo narrativo rígido. Os soluços e anacolutos imitam um procedimento que poderia ser oral — o de alguém fazendo parênteses em meio a um relato porque lembra de detalhes bons demais para ficar de fora.

Gosto dos adjetivos algo abstratos que a crítica usa para definir determinados livros: imaginação “selvagem”, narrativa “carismática”. Há vários tipos de conto em Manual da faxineira, dos curtos aos longos, dos ensaísticos/metalinguísticos/de gênero aos de pura ação realista, e em todos a palavra que me vem à mente é “sabedoria”. Ou então “generosidade”. Dois atributos essenciais, e só temos a agradecer por essa sorte no caso de Lucia Berlin, a quem se dispõe a dividir com o leitor fantasmas biográficos reinventados pela ficção.

Quem escreveu esse texto

Michel Laub

É autor de O tribunal da quinta-feira (Companhia das Letras).