Literatura,

Compêndio do crime

Romance histórico encerra pentalogia que cobre quinhentos anos de mistérios e marginalidade na cidade maravilhosa

28nov2018 - 11h35 | Edição #18 nov.2018

Sacerdote de Ifá, o orixá do conhecimento e do oráculo, Alberto Mussa é um dos melhores e mais originais escritores de sua geração. Ele vem criando uma obra que nasce de seu fascínio por mitopoéticas, como a dos afros, a dos nossos povos nativos, ou a dos árabes pré-islâmicos. Uma premeditação do encontro de cosmologias “talvez seja o fundamento da minha literatura”, ele diz. “Ou o meu próprio fundamento.”

No entanto, isso faz parte da sua vida. Mussa nasceu numa família abastada do Grajaú, Rio de Janeiro, e esse bairro de zona norte lhe abriu um mundo verdadeiro, composto de culturas diversas. Ele frequentava casas dos morros cariocas ainda não ocupados pela violência, jogava porrinha nas quitandas, apostava no jogo do bicho das esquinas, compunha sambas, cantava pontos nos terreiros de candomblé, tocava berimbau, girava nas rodas de capoeira.

Mil e uma noites

Toda essa vivência popular se cruzou com a alma ancestral que costumam ter os descendentes de libaneses, como Mussa. Entre seus textos favoritos estão Itan Ifá, os primeiros poemas nagôs sobre a criação do mundo; o épico Gilgamesh; O livro das canções, de Abu Alfaraje, poeta e estudioso persa; e o poema filosófico Epístola do perdão, de Abu al-Maarri. Tudo isso juntou-se a uma descoberta que fez o escritor sobre suas origens: uma tataravó índia que “mascava pimenta e não sentava em cadeiras”, ele revela.

Antes de serem escritos, seus livros já têm um título que serve de leitmotiv. São planejados, organizados em roteiros, ao mesmo tempo guiados pelo cérebro e ardentemente imaginativos e sensuais. Mussa desenha mapas, traça as biografias de personagens, anota nomes de ruas, datas, compõe organizadamente uma ficção que sugere o caos da realidade. São livros que preferem a descoberta de épocas e o ser humano no seu ambiente. Uma realidade irreal, e uma tradição transformada.

Inspirado por histórias que sua mãe lhe contava, Mussa planejou uma série de cinco livros para compor um painel, o Compêndio mítico do Rio de Janeiro, cada um deles passado num século. Todos giram em torno de um crime. “Uma cidade se define pela história de seus crimes”, acredita Mussa. Os crimes reais ou ficcionais que dão partida a cada um dos cinco livros parecem naturais à cidade mais maravilhosa e transgressora, em que extremos se confundem na construção de heróis e anti-heróis urbanos. Mas o ideal dos livros é alcançar questões mais amplas: “a natureza do mal, as codificações sexuais, e o conceito de humanidade”, diz Mussa.

A primeira história do mundo, publicado em 2014, gira em torno do primeiro crime registrado no Rio de Janeiro, em 1567: o assassinato de um serralheiro cuja investigação envolveu grande parte do povo, com vários acusados e testemunhas. Enquanto isso, o romance recolhe mitos, como o das amazonas da lenda de Jurupari, o Demônio dos Sonhos. Acrescente-se a riqueza de informações sobre os primeiros habitantes do Rio, suas mentalidades e costumes.

Para o século 17 o Compêndio apresenta O trono da rainha Jinga, que versa sobre a natureza do mal a partir de um ponto de umbanda cantado para a entidade Zé Pelintra, junto ao mito quimbundo de Cariapemba. A hipótese humana é uma adaptação de um crime familiar, que Mussa ouvia narrado por sua mãe, e o transporta para o século 19, no bairro do Catumbi. O crime é investigado por um capoeirista da polícia secreta, que mergulha no mundo dos escravos, das senzalas, do Rio oitocentista.

Inspirado por histórias que sua mãe lhe contava, Mussa planejou uma série de livros para compor um painel mítico do Rio de Janeiro

O século 20 é representado pelo que talvez seja o romance mais prestigioso de Mussa, O senhor do lado esquerdo, publicado em 2011, que se baseia no assassinato de um secretário do presidente Hermes da Fonseca, entremeado com o mito do orixá Logun Edé, um andrógino que simboliza a pureza; e do profeta cego da mitologia grega, Tirésias, a única entidade dessa mitologia que viveu ambas as condições de homem e de mulher.

Finalmente, o quinto livro do Compêndio veio à luz. Passado no século 18, intitulado enigmaticamente de A biblioteca elementar, o romance também abre suas páginas com um crime. Numa noite abafada, a Lua na casa da morte, vemos uma mulher recoberta por um hábito. Ela sai do cemitério dos pretos do convento de Santo Antônio, onde costuma profanar sepulturas para práticas de necromancia, e segue para a rua do Egito, quando testemunha o crime. A inspiração Mussa foi buscar na memória do povo e na mitologia da umbanda, em que os ciganos são presentes. Mussa vê em especial as curiosas, belas, atrevidas, sonsas, hipócritas, perversas ou admiradas ciganas trazendo a visão da mulher culpada pelos males humanos, tal como a primeira fêmea bíblica.

Traficantes, ciganas, navegadores

O cenário é a rua do Egito, habitada na maioria por ciganos com seus mistérios e sua desenvoltura dionisíaca; mulheres leem a sorte nas cartas, interpretam sonhos, praticam pequenos comércios a trançar redes, fazer doces, lavar e consertar roupas; e também adulteram, fornicam, rebelam-se, cuidam da vida alheia. Os homens que moram ali são traficantes de escravos, negociantes de cavalos e metais, armeiros, seleiros, ourives clandestinos, navegadores, entre outros.

A trama é recheada de detalhes sobre a sociedade da época, com a exposição do jogo do bicho, da umbanda, da música nas rodas de fandango e sapateados; e questões históricas como os comentários sobre as ordenações que regiam o direito; ou acerca da Santa Sé, que exercia profundo domínio sobre o pensamento dos habitantes do Rio de Janeiro. E, embora exista uma biblioteca farta e misteriosa num dos sobrados da rua do Egito, a biblioteca elementar de que fala o título é mais um símbolo, que contém todos os livros e todos os crimes.

O modo de narrar é contemporâneo, avesso a construções tradicionais. Mussa prefere contar a mostrar, e seu narrador dialoga gentilmente com o leitor, ambos vendo as cenas como se numa sala de cinema. A narrativa do romance é jovial, leve, cavalheira e indulgente, como o próprio espírito carioca, e leva a leitura adiante num texto com o sabor de uma experiência no Grajaú.

Quem escreveu esse texto

Ana Miranda

Escritora, é autora de Boca do inferno (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.