Literatura, Literatura infantojuvenil,
Brincadeira de gente grande
Obra húngara completa 110 anos emocionando leitores de todas as idades
08nov2018 • Atualizado em: 08set2025 | Edição #2 jun.2017Difícil classificar Os meninos da rua Paulo, que acaba de ganhar nova edição: habitualmente associada ao público juvenil, a obra húngara, que completa 110 anos, continua a emocionar leitores de todas as idades. Ferenc Molnár, celebrado na Hungria por suas peças de teatro, ganharia renome mundial com a narrativa das peripécias de um grupo de garotos de Budapeste em seu esforço de salvar o grund — um terreno baldio onde podiam brincar livremente.
Molnár, que em 1939, com as ascensão do nazismo, se exilou nos Estados Unidos, escreveu um romance no qual valores como lealdade, honra e coragem se confrontam com a modernidade que avançava sobre o continente europeu e que seria acompanhada de duas guerras devastadoras. O enredo, à primeira vista apoiado sobre uma defesa maniqueísta do bem contra o mal — o embate entre os meninos da rua Paulo e os valentões camisas-vermelhas, que querem tomar deles o grund —, revela aos poucos a complexidade de seus personagens, que se tornaram míticos no imaginário húngaro.
O líder do grupo, exemplo de integridade, por vezes exagera na rigidez; a coragem conta mais do que a força, e um personagem franzino se torna o grande herói da história, na qual até os inimigos mais temíveis podem ter comportamentos éticos. O autor vai nos mostrando, assim, que parte importante do “tornar-se adulto” passa pela descoberta de que a vida é tecida de muitos matizes.
Leituras
Além dos textos e notas de Paulo Rónai — cuja tradução recobre a narrativa de encanto ainda maior — e do poeta Nelson Ascher, a edição traz as ilustrações húngaras originais. O novo posfácio, do escritor gaúcho Michel Laub, e o texto de apresentação do editor Luiz Schwarcz atestam a força que o romance exerceu sobre seus incontáveis leitores.
Lido hoje, o clássico faz pensar na ascensão atual de regimes autocráticos, inclusive na Hungria, em que a liberdade — o bem inestimável que o grund assegurava — se vê cada vez mais ameaçada por medidas autoritárias e que apontam para um futuro no mínimo sombrio.
Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.
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