Literatura,

A zoeira como obra de arte

Sai no Brasil nova tradução de romance que o mexicano Mario Bellatin transformou em cavalo de batalha contra sua própria editora

15nov2018 - 18h58 | Edição #9 mar.2018

Durante vários meses de 2015, Mario Bellatin, um dos mais conhecidos romancistas do México, travou uma guerra quixotesca contra o Grupo Planeta, o maior conglomerado editorial de língua espanhola do mundo. Figura pública excêntrica, que usa uma série de próteses notáveis, criadas por artistas, no lugar do antebraço direito ausente, Bellatin tinha uma demanda irredutível: que a Planeta “despublicasse” a sua obra-prima, Salão de beleza.

Em sua página no Facebook, que tem cerca de 4 mil seguidores, muitos deles autores, ele conduziu uma campanha de um homem só. Em agosto, publicou uma foto da capa do livro e a legendou com uma acusação clara e sucinta: “Publicado sem a autorização e contra a vontade expressa do seu autor. A corrupção e a impunidade mexicanas envolvem a todos nós”. Pediu que os leitores não comprassem o livro nem o lessem. Escreveu breves perfis falsos do editor sênior mexicano do selo Tusquets, que publicou Salão de beleza, e dos diretores editoriais da Planeta México, empresa à qual o selo pertence. Chamou-os de “os três porquinhos” (afirmou que recebeu um exemplar do livro em uma visita à editora, em vez dos direitos autorais devidos que foi reclamar). “Vocês são os meus anjos da guarda”, provocou. A investida final foi uma enigmática série de fotos de copos do Starbucks, de tamanho grande, nos quais estava escrito “Tusquets”.

A diatribe chocou o mundo literário mexicano. Salão de beleza é considerado um clássico contemporâneo da literatura em castelhano, e a edição da Tusquets deveria celebrar, de acordo com Bellatin, o vigésimo aniversário da publicação original (no Brasil, o livro teve uma primeira edição em 2007, pela casa gaúcha Leitura 21). Em vez disso, o romance se tornou o epicentro de uma batalha que, como as brincalhonas e vanguardistas histórias de Bellatin, nos faz questionar não apenas a quem pertence uma obra de arte, mas também em que consiste uma obra desse tipo — e até que ponto somos capazes de distinguir entre realidade e ficção.

Nascido no México, em 1960, Bellatin cresceu no Peru, terra de seus pais, e foi ali que começou a carreira, publicando em 1986 um romance por conta própria, Mujeres de sal. Em 1995, voltou para a Cidade do México, onde ainda vive, dividindo um apartamento com quatro cachorros num edifício não muito distante do Zócalo, a praça central da cidade. 

Publicou mais de trinta livros, muitos dos quais foram traduzidos para mais de uma dúzia de idiomas (três deles já saíram no Brasil). Bellatin costuma ser incluído num grupo de autores latino-americanos posteriores ao boom dos anos 1970, como o chileno Roberto Bolaño e o argentino César Aira, que trouxeram inovações não só no estilo, mas também na maneira de pensar a literatura. Nas histórias de Bellatin, a linha que separa realidade e ficção é borrada: o próprio autor volta e meia aparece como personagem. Seus livros são fragmentários, com uma atmosfera bizarra e até perturbadora. São repletos de mutações, identidades sexuais fluidas, doenças misteriosas, deformidades.

Bellatin escreveu a maioria de seus livros com apenas um dedo, primeiro numa máquina de escrever Underwood de 1915 e, depois, em computadores. Recentemente, passou a usar um iPhone: escreve usando uma caneta digital, o que fez dele um escritor muito mais rápido, afirma. O antebraço que lhe falta e as próteses que assumem o lugar dele são parte de sua figura pública e de sua arte. 

Em 2009, na Festa Literária Internacional de Paraty, por exemplo, ele chocou a plateia ao subir no palco ostentando, em lugar do antebraço, um imenso pênis reluzente de alumínio. Entre as próteses que já usou ao longo dos anos, estão um abridor de latas gigante, um gancho como o do Capitão Gancho e uma escultura que lembrava as pernas abertas de uma mulher. Essa sua parte artificial chama a atenção e inspira os leitores a traçar paralelos com a sua obra.

Quando perguntei a Bellatin a respeito dessas interpretações, ele respondeu, de maneira típica, com uma história que parecia fundir realidade e ficção (Bellatin não gosta de telefones e insistiu para que conversássemos via Facebook). “Não está me faltando um braço: é assim que eu sou”, começou ele. Aparecer diante dos outros sem uma prótese “era como estar nu ou coisa parecida — talvez como estar de pijama”, escreveu. Durante algum tempo, usou uma sofisticada mão mioelétrica, operada por “batidas cerebrais”, mas essa mão “tentou me matar duas vezes”, disse ele. Além disso, era muito cara. 

Então, numa visita a Varanasi, na Índia, uma das cidades mais antigas do mundo, “durante um inesquecível passeio de barco nas primeiras horas da manhã, com cadáveres flutuando ao nosso redor e envoltos pelo cheiro das piras fúnebres”, decidiu “subitamente remover a mão mioelétrica e jogá-la na água, para que pudesse seguir o rumo dos mortos que não são cremados: diretamente para os cabelos da deusa Shiva, encontrada naquela altura do rio”. Quando a autora mexicana Margo Glantz chegou à Índia, dias mais tarde, e viu Bellatin sem o braço, perguntou se ele tinha ido ao país para se tornar mendigo. 

Depois de voltar ao México, ele pediu a vários artistas que criassem próteses que lhes parecessem “mais apropriadas”. “A maioria era bastante extravagante”, explicou ele, “e, gradualmente, recuperei a minha condição de homem de um braço só, sem necessidade de nenhum acessório”.

Salão de beleza foi publicado em Lima em 1994, e cinco anos depois no resto da América hispânica e na Espanha. Em 2007, numa pesquisa com 81 críticos, ficou em 19º lugar entre os cem melhores romances escritos em espanhol desde os anos 1980. 

Trata-se de “um livro cult que se tornou emblemático”, lembrou Graciela Montaldo, professora de culturas latino-americanas e ibéricas da Universidade Columbia. A obra foi particularmente influente para uma nova geração de autores mexicanos. “Éramos um grupo de crianças tentando escrever, e ele jogou o livraço dele na mesa”, disse-me o premiado romancista e contista Álvaro Enrigue, que dá aulas em Princeton. “A obra mudou tudo no México.”

Breve, o livro conta a história de um travesti, cabeleireiro em uma cidade sem nome, afetada por uma epidemia não especificada, que transforma o seu salão de beleza num hospício para homens que estão morrendo da doença. Ele cuida deles e também, em vão, de seus peixes, que nadam moribundos nos aquários que decoram o salão. Conforme a história avança, muitas coisas se transformam no seu oposto: os homens se vestem feito mulheres; os peixes morrem quando recebem cuidados e sobrevivem quando são ignorados; a beleza se converte em pústulas, agonia e morte. 

A obra de Bellatin já foi comparada aos filmes de David Cronenberg e David Lynch; Salão de beleza foi comparado a A peste, de Albert Camus. Parte da força do livro reside em seu poder de sugestão. Seria uma alegoria da doença como um tipo de prisão? Uma versão moderna de uma lenda medieval sobre a peste, com a aids no lugar da peste negra? Seria uma ponderação da beleza e da morte, como as duas faces da vida humana?

“Cada leitor deve reconstruir o seu próprio texto”, disse Bellatin. Cada leitor reescreve a história com a própria imaginação; o autor também a reescreve. Bellatin não acredita que seja possível concluir uma obra literária: todas as versões de um romance são igualmente válidas, cada qual refletindo o momento em que foi criada.

Tomemos como exemplo Jacobo el Mutante, de 2002, no qual um estudioso de literatura tenta reconstruir o manuscrito de um romance inacabado, escrito por um inebriado Joseph Roth. O romance (imaginário) de Roth conta a história de um rabino chamado Jacobo, casado com a dona de uma taverna que serve como “fachada para uma rota de fuga” usada por judeus russos em fuga dos pogroms. Jacobo acaba imigrando para os Estados Unidos, convocado por seu “irmão espiritual”, Abraham, que obteve terras baratas dos indígenas e ganhou uma fortuna revendendo-as a refugiados. Jacobo ensina a Torá às crianças numa cidade onde os moradores estão abandonando a religião. Acaba sofrendo uma mutação enquanto realiza seus rituais: torna-se uma velha e depois renuncia ao judaísmo.

O romance se tornou o epicentro de uma batalha que nos faz questionar não só a quem pertence uma obra de arte, mas também no que ela consiste

Depois que o tradutor do livro para o inglês, Jacob Steinberg, começou a trabalhar no texto, começou com Bellatin um diálogo a respeito do judaísmo. O autor acabou escrevendo uma longa carta, ainda mais longa que o livro original, a respeito dos aspectos religiosos do romance. A carta foi o ponto de partida para Jacobo Reloaded. Na segunda versão, a história é embaralhada, os fatos mudam, e foi incluída uma nova seção, na qual um narrador chamado Mario Bellatin reflete a respeito do avô, que falava iídiche, e da sua própria conversão ao sufismo enquanto estava confinado numa cela recitando os 99 nomes de Deus (na juventude, Bellatin estudou teologia num seminário católico; anos mais tarde, aderiu ao islã sufista). 

Bellatin pensa que esse tipo de reescrita é ao mesmo tempo “intervenção” e “destruição”, e reescreve seus livros de novo e de novo, ora transformando-os em roteiros para o cinema ou em peças de teatro, ora alterando radicalmente a estrutura e a trama, ora acrescentando novos protagonistas ou vozes, fazendo uso de áudio ou de elementos gráficos, ou transformando-os em performances públicas.

Travesti filósofo

No caso de Salão de beleza, Bellatin disse ter proposto à editora uma reescrita que expressaria a sua visão do livro duas décadas após a sua criação. O título deveria ser Salón de belleza: El regreso—Los muertos entierran a sus muertos, que poderíamos traduzir como “Salão de Beleza: O retorno — Os mortos enterram seus mortos”. Foi concebido como uma elucubração a partir de “tudo o que aconteceu nos vinte anos transcorridos desde a publicação original do livro: uma reflexão a respeito de sua validade atual, mas também um relato do que ocorreu com a minha vida, com os elementos que faziam parte dela na época que o livro foi escrito”, segundo me disse.

Mas a edição publicada pela Tusquets consistia simplesmente no livro original, acrescido de uma parte final em que um narrador chamado Mario Bellatin detalha as circunstâncias e motivações que o levaram a escrever o romance: o seu relacionamento com um travesti filósofo, que posteriormente morreu de esclerose múltipla; a leitura de A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata, que o levou a pensar nas “possíveis relações entre a beleza e a morte”; a experiência de cuidar de peixes que acabaram devorando uns aos outros; uma frustração amorosa que o levou a tentar o suicídio. “Tudo nesse livro está morto”, diz o narrador. “Até eu, que deixei a minha vida de lado para caminhar por essa espécie de morte em vida que é a escrita.”

Era o tipo de explicação que Bellatin tinha evitado no passado, ainda que permanecesse aberta a muitas interpretações possíveis. Seria esse um relato das “verdadeiras” circunstâncias que levaram o “verdadeiro" Mario Bellatin a escrever Salão de beleza? Ou seria mais uma obra de ficção? Ou talvez um retrato de como Salão de beleza transformou o próprio Bellatin, convertido em mais um dos componentes fictícios do livro?

Seja como for, Bellatin repudiou o texto assim que foi publicado. A seção acrescentada era apenas um rascunho inacabado, disse ele, enviado aos editores a título de amostra da nova versão na qual estava trabalhando. Alegou que a Tusquets publicou a edição à sua revelia e que só ficou sabendo da situação quando viu um exemplar à venda numa livraria da Cidade do México. Seria possível? Quando um autor brinca tanto com as fronteiras entre ficção e realidade, as pessoas tendem a demonstrar ceticismo. “Em se tratando de Bellatin, estamos sempre acompanhando uma performance”, disse Enrigue. “O importante é a performance em que consistiu sua campanha.”

Vale a pena conhecer um pouco das performances anteriores de Bellatin. Em 2003, por exemplo, ele organizou no Instituto Cultural do México em Paris um evento que foi anunciado como uma conversa pública entre quatro conhecidos autores mexicanos: Margo Glantz, Sergio Pitol, Salvador Elizondo e José Agustín. Uma entusiasmada plateia de leitores, críticos e jornalistas compareceu. Mas, na sala de conferências, todos encontraram quatro desconhecidos na mesa-redonda, identificados com os nomes dos autores. Revelou-se que eram atores amadores, que ensaiaram durante meses para ler e responder perguntas como se fossem os autores — que nem mesmo estavam em Paris, mas cooperaram com Bellatin e ajudaram no treinamento. Posteriormente, Bellatin explicou que sua vontade era que as pessoas se interessassem pela obra literária em si, e pelo “ato da leitura”, em vez de se concentrarem nos autores. 

Em outro evento, quando indagado a respeito de suas influências, ele inventou um autor japonês, Shiki Nagaoka, cujo nariz era tão grande que tornava difícil a alimentação, finalmente levando-o ao isolamento. Ninguém o desmascarou, e Bellatin escreveu um livro a respeito do autor imaginário, chamado Um nariz para a ficção, que incluía fotos, estudos críticos e uma breve biografia, supostamente escrita pela irmã dele, Etsuko.

Bellatin alegou que a Tusquets tinha publicado a edição à sua revelia e que só ficou sabendo da situação quando viu um exemplar numa livraria

Em outra ocasião, Bellatin espalhou o boato de que o conto “Perros héroes” (cães heróis) tinha sido adaptado para o teatro e, com a ajuda de um grupo de diretores, despertou um grande interesse do público em torno da “estreia”. Então anunciou que a estreia já tinha ocorrido — todos a haviam perdido. Mas não havia motivo para preocupação, disse ele, animado: haveria uma nova temporada.

Convidou duzentas pessoas a uma igreja do século 17, onde um crítico de teatro, um cenógrafo, um contrarregra e o autor falaram das dificuldades que tiveram ao encenar a peça que todos perderam. Foi particularmente difícil lidar com os atores, disse Bellatin, pois eram todos cães. A certo ponto, um pastor-belga saltou no altar dourado da igreja e ali ficou, perfeitamente imóvel, enquanto ao fundo ouvia-se música medieval, num momento que pareceu eterno para o público. Aparentemente, todos foram ludibriados a adorar um cão.

Bellatin não chama esses episódios de performances — prefere outra palavra. “Decidi que é tudo ‘literatura’, às vezes realizada sem papel e lápis.” 

Seja como for, a guerra pública em torno de Salão de beleza foi real para a Tusquets e para a empresa à qual o selo pertence, Planeta, um dos maiores grupos editoriais do mundo, dono de uma centena de editoras menores, com um catálogo de 15 mil autores e uma produção anual de 130 milhões de exemplares. Embora tenham se mantido praticamente quietos durante a campanha de Bellatin — editores e executivos recusaram pedidos de entrevista —, eles levaram a coisa a sério. Tentaram processar Bellatin por difamação nos tribunais mexicanos; o caso foi logo arquivado. 

Bellatin diz que Gabriel Sandoval, diretor editorial da Planeta México, enviou um e-mail para cada autor que curtiu as publicações acusatórias no Facebook, convidando-os a ouvir o seu lado antes de tomar partido. Bellatin o descreveu como “o mais eficiente contador de curtidas que já vi”.

Por fim, a Tusquets pagou um anúncio no jornal mexicano La Jornada para declarar que era a legítima proprietária dos direitos autorais do romance, graças a uma cláusula de renovação automática a cada quinze anos, e que a autorização de Bellatin foi manifestada “em e-mails trocados com os editores” (a editora não respondeu ao pedido de divulgação desses e-mails). O anúncio ainda especificava que o aniversário que a Tusquets pretendia celebrar não era o da publicação de Salão de beleza, que completava 21 anos, e sim o da própria editora: os primeiros vinte anos da Tusquets no México. 

Enquanto isso, 137 autores e artistas assinaram uma carta em defesa de Bellatin, denunciando a suposta tentativa da editora de “domar e controlar” o escritor. Exigiram que a Tusquets mostrasse “respeito”. Bellatin “estava com a razão, tanto do ponto de vista moral quanto jurídico”, disse o ensaísta e historiador mexicano Christopher Domínguez Michael, um dos primeiros a defendê-lo no episódio. “Foi um caso claro de abuso por parte da editora.”

Acordo

Talvez percebendo que uma disputa pública entre um autor aclamado e de um só braço e uma grande empresa lucrativa pudesse prejudicar sua imagem, a editora instruiu os seus advogados a buscar um acordo. Os termos eram simples: a Tusquets retiraria todos os exemplares de Salão de beleza das livrarias e Bellatin apagaria todas as publicações ligadas à controvérsia em sua página do Facebook (coisa que ele já tinha feito). 

Além disso, um ponto crucial: o autor recuperaria os direitos autorais da obra, conforme disse Bellatin (que falou comigo antes de uma decisão definitiva ser tomada a respeito do assunto) e relatos de vários jornalistas mexicanos. O único comentário do diretor de comunicação da Planeta México para esta reportagem foi: “Estamos num processo conciliatório”. Em 23 de novembro de 2015, Bellatin anunciou ter chegado a um acordo confidencial com a Tusquets. “Estamos em paz”, disse ele.

O que vai acontecer agora com Salão de beleza? E quem ousará republicar o livro? Como parte de sua campanha contra a Tusquets-Planeta, Bellatin anunciou que ofereceria a versão original do romance de graça, sob uma licença Creative Commons, assim que recuperasse os direitos autorais. Mas ele me disse que está agora trabalhando em algo intitulado “A destruição do Salão de beleza”: uma nova versão, ou texto, ou mutação, na qual o narrador Bellatin vai contar a um editor imaginário da licença Creative Commons a respeito de “tudo o que aconteceu” com o livro desde 1994, incluindo detalhes de sua guerra contra a Tusquets.

Brasil

Segundo Bellatin, saem no Brasil agora “dois livros, na verdade. É uma versão ‘transparentada’ de Salão de beleza, ou seja, um texto revisado até se tornar quase transparente”. Não são, ainda, os dois projetos que anunciou durante a peleja com a Planeta, Salón de Belleza: El regreso — Los muertos entierran a sus muertos e La destrucción del Salón de belleza, nos quais afirma estar trabalhando para publicar mais adiante, sob o título Orígenes

Ele afirma ter um “acordo de cavalheiros” com a Cultura e Barbárie, editora catarinense que publica literatura e ensaio em edições artesanais, de tiragem restrita — serão apenas cem exemplares de Salão de beleza. “Um pacto que se renova a cada ano, por decisão do editor e minha, sem contratos de porcentagem.” Ele diz que “o modo de publicação é gratuito, mas não é Creative Commons, pois essa modalidade periga se perder, tornar-se plana como a maior parte do que circula pela rede”.

Como em qualquer obra de Bellatin, caberá a nós decidir o que importa em tudo isso. Alguns autores mexicanos celebraram o episódio como uma vitória dos direitos do autor à própria obra. Álvaro Enrigue disse que foi a mais bem-sucedida das performances de Bellatin. “Por meio de uma obra de arte, a realidade foi modificada”, destaca Enrigue. “Houve uma transferência de direitos autorais de uma editora multinacional para um autor. Um artista quer fazer uma pequena mudança no mundo, cortar fora um pedaço dele”, disse ele. “É isso que Mario acaba de fazer.”

É possível. Mas, levando em consideração as ideias do próprio Bellatin a respeito da literatura e seus planos anunciados para Salão de beleza, podemos concluir, em vez disso, que tudo não passou de parte do processo de revisão, que nunca termina. [Tradução de Augusto Calil]

Quem escreveu esse texto

Graciela Mochkofsky

Jornalista, escreveu Estação terminal - Viajar e morrer como animais (e-galáxia).

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.