Literatura,

Colorismo e identidade

Ganhadora do Nobel de Literatura toca na questão da identidade negra que se dá por meio da cor

01nov2018 - 04h51 | Edição #18 nov.2018

Primeira autora negra a ganhar o Nobel de Literatura (1993) e vencedora do Prêmio Pulitzer de ficção (1988), Toni Morrison é uma das escritoras que surgem como referência para aqueles que passeiam pelas prateleiras dominadas por rostos brancos — quer estejam ou não conscientes do que essa predominância significa. 

A primeira vez que li Toni foi logo depois de conhecer Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves. Aos dezenove anos, ainda não tinha lido nenhuma obra escrita por uma mulher negra, pois não estavam disponíveis nos pouquíssimos sebos do Cariri, interior do Ceará. 

Um pouco tarde, pesquisava sozinha, ao mesmo tempo que buscava respostas sobre meu próprio lugar no mundo. De pele clara, mas com experiências de racismo acumuladas, será que eu poderia me dizer negra?

Hoje, os debates sobre colorismo estão mais acessíveis. Discussões efervescentes persistem nas redes sociais. Uma cantora negra é considerada muito clara para interpretar uma sambista de pele bem mais escura; uma passista ganha um concurso na televisão, mas é rejeitada pela audiência que a considera feia por ser preta demais; uma YouTuber famosa divide opiniões: é negra ou não é? Se diz que é negra, está sendo oportunista? Se diz que é parda, está sendo omissa? Em casos como o da YouTuber, sob a ótica de muitos, os traços estão ali, o cabelo está ali, mas a pele “nem tanto”. Para pessoas como a passista, seria melhor parecer com a atriz de cabelo mais cacheado, pele três tons abaixo e nariz mais fino.

Encontrei em O olho mais azul, de Toni Morrison, os questionamentos complexos e dolorosos a respeito dessa identidade racial e da autoimagem agredida pelo racismo. Nas palavras de Toni, identifiquei uma imensa habilidade para abordar as nuances do colorismo, mas sobretudo uma força política muito significativa, que foi de grande importância para que eu pudesse me compreender. 

Em seu livro mais recente, Deus ajude essa criança, lançado agora no Brasil, não é diferente. Toni nos conta a história de Lula Ann Bridewell — ou Bride, como prefere ser chamada —, uma menina que nasce muito preta, muito escura, e que por isso é severamente rejeitada pelos pais, negros de pele mais clara. 

O pai vai embora, culpando a esposa pelo tom de pele da recém-nascida, enquanto a mãe lhe dedica abusos emocionais e negligências, além de exigir que a filha lhe chame pelo nome. Considerada uma “regressão”, como se representasse um esforço perdido no caminho pelo clareamento da família, a menina anseia por ser tocada pelas pessoas, especialmente pela mãe. Os cuidados mais básicos, como os banhos, são feitos sem toques diretos na pele. Bride é esfregada com uma toalha ensaboada sabendo que, para a mãe, é repulsiva. Chega a desejar ser espancada para sentir, assim, as mãos da mãe em seu corpo.

Sua necessidade de ser vista e de receber a mínima aprovação é tão desesperadora que Bride, ainda criança, acusa uma mulher de um crime que não cometeu. A condenação traz momentos de felicidade para a garota: pessoas lhe abraçam, sua mãe segura sua mão para caminhar na rua durante o percurso de volta para casa. 

A protagonista chega a desejar ser espancada para sentir as mãos da mãe em seu corpo

No entanto, a culpa e os buracos causados pelos abusos, e pelo amor que não existiu, viram feridas definitivas, ainda que Bride se torne uma empresária de sucesso, que consegue transformar sua cor escura em uma vantagem profissional e pessoal.

O que chama a atenção aqui é que essa vantagem pessoal, sobretudo sexual, não se apresenta de maneira ingênua. Toni sabe muito bem como mostrar que nesse lugar mora a exotificação. Essa é uma das mais recorrentes discussões do feminismo negro: a relação de valorização da “beleza negra” condicionada ao lugar do exótico, o lugar do “outro”.

Para nós brasileiros, Deus ajude essa criança soa familiar. Intelectuais negros como Kabengele Munanga em Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra (Autêntica, 1999) e Neusa Santos Souza em Tornar-se negro (Graal, 1990) discutem temas cruciais que se relacionam com o romance. 

A miscigenação brasileira construída por estupros das escravas e a intenção de branquear a população segue nos acompanhando de perto. A redenção de Cam, icônica pintura feita pelo espanhol Modesto Brocos em 1895, é um retrato perfeito do que esses pensadores abordam há muitas décadas e que conseguimos alcançar também pelas palavras de Morrison.

Abusos repetidos

Deus ajude essa criança é uma história sobre colorismo e racismo. Toni Morrison liga a primeira dor de Bride a outras, que aparecem muito mais vezes, como uma história condenada à repetição. A camada da rejeição e a crosta asquerosa do abuso infantil acertam a todos nós em uníssono, quase em perfeita igualdade. 

O sofrimento psíquico pulsa em todas as personagens, costuradas pelas mesmas linhas, ainda que não relacionadas diretamente ao racismo. E é essa soma das porções que torna este livro imperdível, capaz de trazer à tona a identificação da humanidade que está em todos nós. 

Quem escreveu esse texto

Jarid Arraes

Poeta e cordelista, é autora de Redemoinho em dia quente (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #18 nov.2018 em novembro de 2018.