Filosofia,

Uma outra biologia

Escrito há dois milênios, o tratado de Aristóteles sobre os animais influenciou a anatomia de Cuvier e foi elogiado por Charles Darwin

15nov2018 - 19h47 | Edição #10 abri.2018

Razões não faltam para ler a História dos animais 2 mil anos após sua redação. É um livro maravilhoso, que causa espanto e deleite em qualquer leitor interessado pelo assunto. A presença da palavra “história” no título não deve nos enganar: trata-se do uso antigo do termo, que significa “descrição”, e não necessariamente inclui a dimensão temporal que associamos a narrativas de caráter histórico. Mas pode-se dizer que as descrições de Aristóteles fazem as vezes de histórias, descrevendo os animais anatomicamente, traçando sua figura, relatando seus hábitos. 

Desde as primeiras páginas destes dois volumes, fica claro que os animais descritos nem sempre equivalem aos que conhecemos pelos mesmos nomes. O que leva o leitor a suspeitar que a percepção do filósofo grego não corresponde exatamente à nossa. E poderia ser diferente? 

Os animais canonizados por Aristóteles em seu tratado não eram objeto de uma ciência à parte, não se aprendia a seu respeito em aulas de escola ou de faculdade, não havia, na Grécia antiga, zoológicos ou museus de história natural, tampouco livros ou sites de internet com imagens dos bichos. Isso explica o efeito maravilhoso que com frequência experimentamos, e sugere que o tratado de Aristóteles faria figura, em uma estante bem organizada, ao lado das Metamorfoses de Ovídio e da História natural de Plínio, o Velho (que, diga-se de passagem, aguarda tradução em português).

Um dos personagens recorrentes na trama da História dos animais é o elefante. A imagem que cada um de nós tem desse animal é um amálgama composto a partir de diferentes fontes, ao qual um elefante real, um indivíduo de uma de suas espécies, talvez sequer faça justiça. O elefante delineado por Aristóteles ao longo de suas análises também é uma forma peculiar, cujas marcas distintivas o naturalista tem de identificar e descrever. “Nos elefantes, a narina é longa e possante e é usada como uma mão: estende-se, agarra, leva à boca os alimentos líquidos e sólidos; é esse o único animal com tais características.” Ou então: “De todos os animais, o elefante é o menos peludo”. Ou ainda: “Nenhum outro animal a não ser o homem tem mamas na parte anterior. O elefante tem duas, que não estão propriamente no peito, mas perto dele”. Quem escolheria tais termos para se referir ao elefante que conhecemos? 

Taxonomia 

Mas a impressão recorrente de que estamos lendo um livro de fábulas não é suficiente para obliterar a certeza de termos em mãos uma daquelas obras filosóficas de peso — gênero no qual, aliás, Aristóteles foi um especialista. A divisão das partes dos animais em homogêneas e heterogêneas, o uso da analogia e da homologia para distingui-los e aproximá-los uns dos outros e assim empreender sua classificação, a teoria dos movimentos dos membros e de sua disposição, a ideia de que todos os animais formam sistemas completos: desenha-se aí uma teoria acerca dos seres organizados. 

E essa teoria, elaborada por meio de um fio condutor taxonômico, pelo qual os animais vão sendo conceitualmente organizados em classes, ocupa, como vêm mostrando os estudiosos nos últimos anos, um lugar central no sistema filosófico de Aristóteles, desde sempre às voltas com a possibilidade de apreender racionalmente, através de uma teoria das formas, o mesmo mundo sensível que Platão, seu mestre, relegara a uma subserviência em relação ao “mundo das ideias”. Nesse sentido, a História dos animais pode e deve ser lida ao lado dos outros tratados ditos “biológicos” do autor, dedicados às partes, ao movimento, à progressão e à geração dos animais. (Todos constam das obras completas que a WMF Martins Fontes tenciona publicar.) O que para Platão era fugidio e efêmero adquire, na visão de Aristóteles, consistência e densidade.

Devemos julgar Aristóteles pelo que fez ou deixou de fazer por uma ciência que nem sequer existia?

A influência exercida pelo livro através dos tempos tem sido enorme. Pode-se dizer que a obra fomentou conhecimentos e especulações os mais diversos, desde a botânica de seu discípulo Teofrasto, no século 1 a.C., até a anatomia comparada de Georges Cuvier na virada do século 18 para o 19. Por essa razão, o genial biólogo escocês D’Arcy Thompson, tradutor do livro para o inglês, declarou em 1913 que era tempo de reconhecermos no filósofo grego o primeiro biólogo — fundador de uma ciência que teria de esperar 2 mil anos para adquirir seus princípios fundamentais, entre eles a seleção natural proposta por Darwin. O autor de A origem das espécies houve por bem acrescentar, na 3ª edição da obra, um esboço histórico em que atribuía ao grego a primeira intuição de sua teoria. Gesto simpático, porém desastrado: a teoria aristotélica das formas como unidades funcionais integradas situa-se nos antípodas da teoria darwiniana da seleção natural.

Mas seria o caso de julgar Aristóteles pelo que fez ou deixou de fazer em prol de uma ciência que nem sequer existia em sua época? O termo “biologia” foi utilizado por Lamarck em 1800; Aristóteles não precisou inventá-lo para propor uma compreensão poderosa, articulada, original e interessante dos seres vivos. Suas teorias não têm valor de ciência, ou não de uma ciência completa e acabada. 

Mas seria uma pena descartá-la em nome de uma objetividade — a nossa — que, salvo engano, também é provisória e está destinada a um dia caducar. Um livro recente, ainda não traduzido — The Lagoon. How Aristotle invented Science, do biólogo canadense André-Marie Leroi —, tem a perspicácia de seguir a pista deixada por D’Arcy Thompson e identificar a atualidade de Aristóteles como naturalista em certo espírito de investigação da natureza, não na validade desta ou daquela teoria. É uma boa ideia.

A presente edição da História dos animais faz parte, como dissemos, de um plano mais geral de publicação de suas obras completas em língua portuguesa. É um projeto louvável, ainda mais porque as traduções, realizadas em Portugal, são de altíssimo nível — a de Maria de Fátima de Sousa e Silva não é exceção. Além de ser fiel ao original, a tradutora esmera-se no uso elegante da língua portuguesa, sem descuidar dos detalhes inevitavelmente incidentes a um tratado dedicado à descrição dos animais. 

O aparato crítico é exaustivo, com remissões a outras obras de Aristóteles e de seus contemporâneos e predecessores, e as apresentações são interessantes, em especial a do primeiro volume. Temos assim perfeitas condições de redescobrir um gênio tão imenso e tão estranho como o do filósofo, que na Poética já advertia: o mito é superior à história, pois diz as coisas como elas deveriam ser,  não como elas são — o que nos fornece uma chave de leitura dessas fabulosas páginas dedicadas aos animais. 

Quem escreveu esse texto

Pedro Paulo Pimenta

É autor de A trama da natureza: organismo e finalidade na época da Ilustração (Editora Unesp).

Matéria publicada na edição impressa #10 abri.2018 em junho de 2018.