Editora 451,

A espantosa simplicidade de Wislawa Szymborska

Poemas da autora polonesa supreendem o leitor ao flagrar os mistérios da existência de uma forma que recorda os antigos pensadores gregos

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

Numa das palestras que Jorge Luis Borges deu em Harvard em 1967-68, o poeta argentino chamou a atenção para dois estilos de poesia — um “elaborado” e outro “simples” — e, em seguida, advertiu: “Podemos ter […] poesia bastante notável escrita com simplicidade, e tal poesia, para mim, não é menos admirável — aliás, acho às vezes que é mais admirável — do que a outra”. Cada novo poema de Wislawa Szymborska (1923-2012) com que me deparo acende a lembrança dessas palavras de Borges. E é também difícil imaginar poetas que, como ela, ilustrem tão bem outra afirmação da mesma palestra: “As palavras [começam] como mágica e [são] reconduzidas à mágica pela poesia”.

Deve-se a esse encontro precioso entre simplicidade e mágica, provavelmente, o sucesso que a poeta polonesa, vencedora do Nobel em 1996, faz entre os leitores brasileiros. O livro novo, Para o meu coração num domingo, chega por um caminho muito bem pavimentado por Poemas (2011) e Um amor feliz (2016), os três editados pela Companhia das Letras, que estão entre os livros de poesia mais lidos, vendidos e comentados dos últimos anos no país. Como prova desse sucesso, seu lançamento coincidiu com o da biografia da poeta, Quinquilharias e recordações (2020), escrita por Anna Bikont e Joanna Szczesna e editada aqui pela Âyiné, que também lançou Riminhas para crianças grandes (2018).

Essa “febre Szymborska” já trouxe ao Brasil parte significativa da obra da poeta. Nos três volumes traduzidos por Regina Przybycien (que, no mais recente, conta com a parceria de Gabriel Borowski), o leitor encontra 214 poemas de um total aproximado de 350 poemas publicados pela autora. Um aspecto importante dessas coletâneas é o fato de apresentarem a obra de Szymborska em “camadas”, porque os textos são recolhidos cronologicamente de cada um dos livros publicados entre 1957 e 2012, o que oferece uma perspectiva de conjunto da obra.

Para o meu coração num domingo coloca o leitor em contato com o que há de mais encantador em  Szymborska. Tudo que se costuma exaltar nos seus poemas — a perspicácia e a clareza, a ironia e a coloquialidade, o frescor e a agudez — pode ser encontrado no livro. Não se pode concluir daí que estamos diante de uma Szymborska que já conhecemos, porque sua capacidade de desestabilizar nossa visão sobre a poesia, as coisas, a vida, o mundo, está em cada um dos 84 poemas, abrindo novos caminhos, igualmente admiráveis, no universo  construído pela poeta, durante mais de cinco décadas, entre Chamando pelo Yeti (1957) e o póstumo Chega (2012).

O poema de Szymborska é, quase sempre, uma descrição do movimento das ideias conhecendo o mundo

Falando sobre a morte em “Reabilitação”, um dos primeiros poemas, ou em “A todos um dia”, um dos últimos, Szymborska mantém vibrante a busca por uma reinvenção do olhar — o intuito de ver e dar a ver o mundo pela primeira vez, espantando-se e espantando os leitores ao flagrar os mistérios da existência como se estivesse dizendo a mais trivial das observações. Daí a aproximação, destacada pela crítica, de sua poesia com a filosofia, em especial com a “ingenuidade” dos primeiros pensadores gregos, não obstante a poeta resistisse a aceitar que seus poemas fossem mais que… poemas — “eu não cultivo nenhuma grande filosofia, apenas uma modesta poesia”.

‘Não sei’

No discurso “O poeta e o mundo”, por ocasião do Nobel, Szymborska afirma que “o poeta, se é um poeta de verdade, deve repetir constantemente para si mesmo: ‘não sei’. Cada poema seu é uma tentativa de resposta, mas, assim que ele coloca o ponto-final, já o espreita a dúvida, já começa a se dar conta de que aquela é uma resposta temporária e totalmente insuficiente”. É essa escavação do sentido do mundo que faz com que nada seja “comum” porque o “não sei” que preside sua visão de mundo (tal como a de Sócrates!) faz com que a linguagem da poesia reponha a natureza extraordinária de tudo o que existe. Szymborska escreve para manter vivo o espanto. E é sobre si mesma — sobre nós — que recai o maior espanto: “É a palavra ‘sou’ que me traz mais problemas”.

Mesmo quando trata dos temas mais horríveis, não é raro que faça com que esse espanto chegue ao leitor na forma de um sorriso. Nas palavras de Malgorzata Baranowska, “talvez para contrastar com a grave poesia do horror da existência, chega um momento em que ocorre a catarse e, então, nos faz sorrir e até mesmo soltar gargalhadas”. Nos poemas de Para o meu coração num domingo, o humor da poeta se aproveita dos temas mais variados: não depende de anedotas ou ironias, mas decorre da forma bem-humorada como o pensamento se apresenta em sua obra. O poema de Szymborska é, quase sempre, uma descrição do movimento das ideias desvendando o mundo e, por isso, o ritmo dos poemas coincide com o ritmo dessa aproximação aos objetos, que nunca é brusca ou precipitada.

É impossível confundir, todavia, a “devassidão do pensamento” de Szymborska com qualquer forma de intelectualismo. Distante de uma “poesia intelectual”, ela considera o pensamento numa chave mais selvagem, que se alimenta de “um estímulo constante para transcender a obviedade”. Numa crônica, resumiu a forma como poesia e pensamento se fundem em sua poética: “O poeta pode ter até completado sete faculdades — no momento em que se senta para escrever um poema, o uniforme do racionalismo começa a apertar nas axilas. Ele se remexe todo e bufa, desabotoa botão por botão, até que por fim salta completamente da sua roupinha, revelando-se para todo mundo como um selvagem nu com uma argola no nariz”.

Quanto à tradução, sou um dos leitores para quem o original diz muito pouco, mas que reconhece os ótimos poemas em português, em que é possível ouvir a mesma voz que aprendemos a admirar e que já nos é tão íntima quanto o sorriso da poeta, que parece dizer: sim, é isso mesmo.

Quem escreveu esse texto

Tarso de Melo

Advogado e poeta, publicou Íntimo Desabrigo (Alpharrabio/Dobradura).

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.