As Cidades e As Coisas, Literatura infantojuvenil,

Cidade nas nuvens

Ao criar uma comunidade verticalizada, autora francesa discute isolamento social e o diálogo em sociedade

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

Imagine não ter que lidar com seus vizinhos: sem barulho de coisas caindo, nada de sapatos madrugadores ou música alta, nem mesmo um martelo em horários inusitados. Em Ô de cima!, Popy Matigot dá vida a essa possibilidade em uma cidade na qual, por conta própria, as pessoas elevaram suas casas para morar empoleiradas, em diferentes alturas, a fim de não serem incomodadas. No livro, lançado pela editora Mil Caramiolas, o mapa urbano deixa de ser apenas horizontal e essas alturas se tornam posições geográficas.

Cada casa é única em suas formas, cores e poleiros, reforçando a individualidade dos cidadãos, que, para usar um termo tão em voga, habitam suas próprias bolhas. A partir das torres, quase tocam as estrelas. Na obra, desenhos e textos atuam de maneira conjunta e Matigot, que também é ilustradora, emprega as ilustrações de forma primorosa, inclusive ao lidar com o objeto livro: em alguns momentos, é preciso girá-lo para ler as frases que aparecem nos mais diferentes sentidos, reforçando a diversidade local e a imersão do leitor nesse mundo.

Como ninguém existe sozinho, o narrador, com o apropriado nome de Piu, desempenha papel fundamental ao escalar todos os degraus das casas altas para realizar o serviço de comunicação entre vizinhos. Em sua aparição inicial, Piu está de cabeça para baixo, em um primeiro indício de que esse narrador-personagem traz outro olhar. Como mensageira, a criança encara de modo lúdico e divertido o que, para os adultos, é uma tarefa chata, cansativa e desgastante.

Eventualmente, o trabalho se torna demais para uma única pessoa e a confusão entre os moradores se estabelece. A comunicação cessa, o que não é de todo inesperado: relações estão baseadas em redes cuja costura não pode depender de um único indivíduo. Porém, é Piu quem resolve a situação: sacode todos os poleiros e as pessoas caem “de bunda, de uma vez só!”. Começam a brigar para depois dialogarem. Dizer que esse é um livro sobre diálogo como resolução de conflitos é apenas uma das tantas interpretações possíveis. 

Construção coletiva

O pertencimento a algo maior que nós mesmos chama  a atenção. Piu, conhecendo todos na cidade, aproveita “para contar os pequenos detalhes que faziam de cada um interessantíssimo e único”. Do indivíduo isolado, vivendo apenas para si, com contato ocasional com seus pares, passamos ao indivíduo valorizado por suas características pessoais vivendo em sociedade com outras pessoas únicas. O compartilhamento não passa apenas pelas coisas boas: Matigot não deixa de lado as fragilidades, os medos e as dores como elementos da convivência coletiva.

Por meio dessas trocas, vem a mudança: “Nós tomamos juntos a decisão de voltar a viver lado a lado com as margaridas” — uma decisão coletiva. A reelaboração do espaço urbano passa pela revisão das relações, não apenas sociais. A descida ao chão é um retorno ao mundo. Os moradores tiram a cabeça das nuvens para se sujeitar aos desafios do dia a dia. A autossuficiência pretendida, que, na verdade, se ergue sobre o trabalho de Piu, dá lugar à construção coletiva de uma cidade para todos.

O isolamento no livro não decorre de uma situação excepcional, como na pandemia: ele é constante

Embora o livro ganhe outras dimensões com a pandemia, a publicação na Suíça é anterior a ela. O isolamento retratado por Matigot não decorre de uma situação excepcional. Ele é diário, constante. Vem de uma cidade construída por e para uma sociedade na qual o coletivo não passa de um agrupamento de pessoas em seus fragmentos territoriais, com um ou outro contato — e não à toa, muitas vezes intermediado por serviços. Há pouco esforço para encontrar o outro, entendê-lo, explorar novas direções e perspectivas. 

O trunfo do livro está em mesclar identificação e estranhamento na narrativa por meio das ilustrações. Elas atuam como ferramentas de suspensão, levando-nos a esquecer momentaneamente que as características desse mundo verticalizado não são assim tão estranhas. A história dos moradores de Ô de Cima é um convite para refletir sobre isolamentos e distanciamentos, o tipo de sociedade que queremos e o tipo de sociabilidade da qual precisamos para enfrentar os desafios presentes no mundo. 

Cidades são construções coletivas. Não são coesas ou estáticas. Reverberam mudanças históricas, sociais, econômicas, políticas e estéticas. Estão em movimento e em disputa constantes. Alguns de nós temos o privilégio de acessá-las a partir do isolamento de nossas casas neste momento, mas isso não significa que estamos à parte delas. Enfrentar uma pandemia não deveria passar apenas pelo âmbito individual. Tornar a cidade habitável, amigável, respeitosa e aberta a todas as pessoas tampouco deve depender de uma mera soma de decisões e ações individuais. A autossuficiência não é possível ou desejável. Das tantas reflexões que Matigot nos traz, a importância do coletivo e da ação colaborativa talvez seja a mais profunda para nós, em todos os momentos.

Quem escreveu esse texto

Marília Ramos

É tradutora, revisora e trabalha com direitos humanos desde 2010.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.