Repertório 451 MHz,

Só na sapatilha

No podcast 451 MHz, a bailarina Ingrid Silva fala sobre maternidade, racismo no balé e seu novo livro

22out2021 - 04h51

Está no ar o 51º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros! Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. Neste episódio, Paula Carvalho, editora da Quatro Cinco Um, recebe a bailarina Ingrid Silva — que se apresenta atualmente no Dance Theatre of Harlem, em Nova York — para uma conversa sobre seu primeiro livro, o recém-lançado A sapatilha que mudou o meu mundo (Globo Livros). Ela fala sobre racismo, sexismo, maternidade e a dança como instrumento de transformação.

O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! O podcast tem ainda apoio do do banco digital brasileiro C6 Bank, do Grupo Editorial Record e do podcast Rádio Companhia, da Companhia das Letras.

Dupla gestação

No começo de 2020, a vida de Ingrid Silva passou por diversas transformações. Além da pausa nas apresentações de dança, a bailarina descobriu em si mesma duas novas facetas: a da escritora e a da mãe. Sobre a simultaneidade de dois processos tão intensos, a bailarina conta que se deparou com muitas dificuldades com as quais não contava. A maternidade altera a disposição física, a organização do tempo e o condicionamento físico, mudanças especialmente complexas para alguém cujo corpo é instrumento de trabalho.
 


 

Durante a elaboração de A sapatilha que mudou o meu mundo (Globo Livros), Ingrid conciliou a escrita com os cuidados com a filha recém-nascida. Embora exaustiva, a jornada trouxe resultados positivos. Ingrid já sonhava em compartilhar sua trajetória, mas queria garantir que sua subjetividade estivesse presente. Longe de um livro de auto-ajuda ou superação, a escritora buscava escrever um livro tivesse um olhar realista, crítico com a realidade de mulheres negras dentro do cenário artístico.

‘A sapatilha que mudou o meu mundo’ aborda o processo de ganho de consciência racial com uma linguagem clara e instigante

Seguindo o modelo de uma de suas obras favoritas, Na minha pele (Companhia das Letras, 2017), do ator baiano Lázaro Ramos, A sapatilha que mudou o meu mundo aborda o processo de ganho de consciência racial com uma linguagem clara e instigante. A proposta do livro não é tornar Ingrid uma referência única de sucesso enquanto bailarina clássica negra, mas servir como inspiração para a próxima geração de crianças e jovens negros interessados em balé.

Peles negras, sapatilhas rosas

O acesso às aulas de balé costuma ser caro e pouco democrático, por isso, não é difícil compreender a diferença entre a quantidade de crianças brancas e negras que se dedicam a essa arte. Felizmente, Ingrid conseguiu “furar” o filtro imposto pelo racismo estrutural e, graças a um projeto social, começou sua jornada na dança clássica.

Um dos problemas apontados por Ingrid é que, mesmo quando conseguem se inserir no universo do balé, as pessoas negras ainda enfrentam a solidão e a falta de exemplos. A falta de representatividade tem consequências dolorosas para os artistas negros — para se adequarem, muitos ainda optam por se embranquecer por meio de maquiagens mais claras. Pode parecer um relato do século passado, porém, basta lembrar que há poucos anos nem sequer havia bases nacionais para peles negras retintas.

No balé, as icônicas e prevalecentes sapatilhas rosas mostram que a dança clássica ainda é um espaço predominantemente eurocêntrico e branco, já que a tonalidade dos calçados se aproxima ao tom de pele claro. Por essa razão, Ingrid pintou suas sapatilhas ao longo de onze anos. Embora hoje haja mais oferta de sapatilhas escuras no mercado, elas ainda são difíceis de encontrar.

Sapatilhas de Ingrid Silva expostas no Smithsonian National Museum of African American History & Culture, em Washington [Collection of the Smithsonian National Museum of African American History and Culture, Gift of the Dance Theatre of Harlem]

As sapatilhas de ponta pintadas a mão de Ingrid, que são sua marca registrada, ganharam seu devido reconhecimento histórico: em setembro de 2020, as peças utilizadas por ela nos anos de 2013 e 2014 passaram a ser expostas junto de suas meias-calças no Smithsonian National Museum of African American History & Culture, em Washington.

Corpinho de bailarina?

As insatisfações com a aparência e com o corpo atingem muitas mulheres, e a pressão pelo suposto corpo perfeito vem por meio da mídia, das redes sociais e até de comentários de familiares e amigos. Em um universo como o da dança — em que corpo e imagem são instrumentos de trabalho —, a pressão estética acaba sendo maior.

Ingrid relata que, apesar de ela própria nunca ter sofrido com transtornos alimentares, não era raro encontrar colegas nessa situação. A bailarina conta que, antes da maternidade, muitas vezes não tinha noção da própria magreza, e questiona as origens do padrão de beleza vigente e seus impactos na área da dança. Além de provocar o adoecimento físico e mental dos artistas, a pressão estética restringe a possibilidade de serem descobertos e explorados os talentos de pessoas que fujam do biotipo idealizado. É uma barreira que ainda precisa ser quebrada.

Uma mulher de múltiplos talentos

A potência de Ingrid Silva vai além de seu evidente talento para a dança e de sua recém-desoberta da habilidade para a escrita. Ela é também uma agente das transformações sociais. Em 2017, fundou o projeto EmpowHer New York, uma plataforma que cataliza oportunidades de educação e trabalho para mulheres. 

A bailarina também é ativista de causas feministas e, no ano de 2018, foi convidada pela ONU para discursar no Social Good Summit. Na ocasião, ela dividiu palco com outras mulheres inspiradoras para falar sobre os impactos positivos das lideranças femininas. Comprometida com criar oportunidades para a juventude negra, cofundou com Ruan Galdino e Fábio Mariano, em março de 2020, o projeto Blacks In Ballet, que visa o enaltecimento de pessoas negras no balé clássico.

É possível acompanhar um pouco da rotina de Ingrid Silva em seu canal no YouTube, onde ela compartilha algumas de suas apresentações, entrevistas e os bastidores de ensaios fotográficos.


Dance Theatre of Harlem em Carré, elenco diverso [Hans Peters/Nederlands Nationaal Archief Fotocollectie Anefo]

História digna de filme

Em 2016, a vida de Ingrid Silva virou um curta-metragem chamado Ingrid Silva: The Journey, pelos olhos do diretor australiano Ben Briand. O filme narra a trajetória da bailarina desde a sua infância na periferia do Rio de Janeiro até a sua chegada aos palcos do Dance Theatre of Harlem. A produção ganhou um Leão de Prata no Festival de Cannes.

Mais na Quatro Cinco Um

A agradável mistura entre dança e literatura também foi abordada na resenha do livro De passinho em passinhode Otávio Júnior — obra ganhadora do Jabuti, com inspiração na dança que mistura funk, frevo, samba e capoeira —, publicada na edição 47 da revista dos livros.

Na edição 48, foi abordada a liberdade e a expressão da subjetividade e sensibilidade das mulheres negras a partir dos diários de Carolina Maria de Jesus. A reconquista da autoestima negra e a construção de novas realidades também foram temas do livro Com qual penteado eu vou?, de Kiusam de Oliveira, resenhado na edição 50. Na edição 34, uma resenha abordou o livro Amor de cabelo, que inspirou o filme ganhador de melhor curta de animação no Oscar 2020 .

Narradores do Brasil

Na coleção de episódios roteirizados Narradores do Brasil, o 451 MHz faz breves incursões no formato narrativo para explorar a vida e a obra de nossos grandes autores. Ouça agora mesmo os quatro primeiros episódios, sobre Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nelson Rodrigues e Paulo Freire. E, em breve, um novo episódio!

O melhor da literatura LGBTI+

No quadro, que tem apoio do C6 Bank, o roteirista e colaborador do 451 MHz Eduardo Araújo recomenda o livro Ricardo e Vânia (Todavia, 2019), do jornalista Chico Felitti. O livro conta a história de Ricardo Corrêa da Silva, que, por conta de sua aparência, ficou conhecido como o “fofão da Augusta”. Em 2017, o caso já havia ganhado notoriedade com uma reportagem realizada por Felitti.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação 451.
Apresentação: Paulo Werneck e Paula Carvalho
Coordenação Geral: Paula Scarpin e Vitor Hugo Brandalise
Produção: Gabriela Varella
Edição: Claudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons & Charutos (SP).
Para falar com a equipe: [email protected].br