Repertório 451 MHz,

Literatura brasileira de horror

Os escritores Braulio Tavares e Cristhiano Aguiar conversam sobre literatura de horror brasileira para comemorar o Dia das Bruxas

28out2022 - 04h51

Está no ar o 74º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Neste final de outubro aproveitamos para comemorar o Dia das Bruxas celebrando a literatura de horror brasileira com dois especialistas no assunto: os escritores paraibanos Braulio Tavares e Cristhiano Aguiar. 

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! Este episódio tem ainda apoio da Companhia das Letras.

Braulio Tavares e Cristhiano Aguiar são "grandes bruxos" da literatura fantástica brasileira. Ambos nasceram em Campina Grande, na Paraíba, e participam da Festa Literária de Paraty — em 2019, Tavares participou de uma mesa com a escritora argentina Mariana Enriquez, enquanto neste ano Aguiar vai conversar com Cidinha da Silva.

Tavares é autor de dois clássicos da ficção científica e de horror brasileiros: A espinha dorsal da memória (lançado originalmente em 1989 e que ganhou o Prêmio Caminho de Ficção Científica) e Mundo fantasmo (cuja primeira edição saiu em 1996), ambos lançados pela Editora Bandeirola. Além disso, ele pretende lançar em breve, também pela Bandeirola, o livro Não ficções, uma coletânea de textos de crítica literária de sua autoria. 

            

Cristhiano Aguiar  é um dos grandes autores do gênero da nova geração. Ele lançou no começo deste ano pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras, o livro Gótico nordestino, que acabou de ganhar o prêmio de melhor livro de contos da Biblioteca Nacional. 

O livro foi resenhado pelo próprio Tavares na edição 55 da Quatro Cinco Um: “Nos contos de Cristhiano Aguiar, não se vê o esforço de dar ‘cor local’ ao ambiente anunciado, esforço que muitas vezes prejudica quem escreve à distância. As locações nordestinas são mencionadas de passagem, sem obrigação de registrar detalhes típicos, daqueles que um autor distanciado anota durante a pesquisa”.

Tradições brasileiras

                  

Augusto dos Anjos é o primeiro gótico nordestino, diz Cristhiano Aguiar na conversa. Ele também aponta para elementos insólitos em alguns clássicos brasileiros que o inspiraram no seu livro, como O quinze, de Rachel de Queiroz, Assombrações do Recife Velho, de GIlberto Freyre, e Fogo morto de José Lins do Rego. Lygia Fagundes Telles também foi lembrada como uma das grandes autoras do gênero no Brasil, e esse foi um dos aspectos abordados em episódio especial do podcast.

Os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges e o colombiano Gabriel García Márquez, com seu dom para a narrativa fantástica, também foram lembrados por Tavares, enquanto Aguiar fez reverência à nova geração de autoras latino-americanas que usam elementos insólitos para compor suas histórias. Algumas delas são Giovanna Rivero, Monica Ojeda, Samanta Schweblin e Mariana Enriquez, e todas elas botam o corpo no centro do horror, uma vez que o corpo feminino na vida cotidiana já é, por si, só local de entrecruzamentos do horror com a realidade.

Ainda nessa chave, Tavares elogiou os mundos criados pelo norte-americano Stephen King, que por ser um americano médio e típico, conhece a fundo os americanos médios e típicos. “Todos aqueles personagens são plausíveis”, comentou. 

Tavares também é um criador de um mundo ficcional, chamado Campinoingrandes, que surgiu no seu romance A máquina voadora, lançado pela editora Rocco, em 1994. O nome da localidade é uma mistura da sua cidade natal, Campina Grande, com “noigranes”, palavra que vem do provençal e que serviu como nome da revista de poesia concreta criada em 1952 por Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos. 

Foi a forma que ele encontrou para trazer elementos das tradições brasileiras em um contexto mais fantástico. “[O brasileiro] fica escrevendo coisas célticas, arturianas, a Távola Redonda, o rei Arthur, não sei o quê. A gente tem um passado mítico melhor ainda do que isso, porque é uma coisa que envolve os espanhóis, os portugueses, os árabes, os mouros”, pondera.

Mas não é só de literatura fantástica que vivem esses dois escritores. Tavares, além de escritor de contos, romances e poemas, é roteirista, compositor, cordelista e pesquisador, escreve de modo prolífico sobre os mais variados assuntos em seu blog, chamado Mundo fantasmo como o livro.

Já Aguiar, considerado um dos melhores jovens escritores pela revista Granta e que é professor de literatura na Universidade Mackenzie, havia lançado um livro anterior de contos, Na outra margem, o Leviatã, que saiu pela Lote 42 em 2018.

Os dois escritores revelaram que narrativas os deixaram mais aterrorizados. Tavares lembra como ficou assustado e incomodado ao ver o falso documentário A bruxa de Blair (1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, que fez muito sucesso na época do seu lançamento. Assista abaixo o trailer.

Já Aguiar recomendou o filme brasileiro O animal cordial, de Gabriela Amaral Almeida, que traz Murilo Benício no elenco. O longa-metragem, que está disponível em várias plataformas de streaming, é do mesmo produtor de A bruxa. Veja o trailer:

Mais na Quatro Cinco Um

Paula Carvalho já havia entrevistado Braulio Tavares na época de sua participação na Flip 2019, quando lançou Fanfic (Patuá, 2019), que reúne 22 contos e minicontos em que a noção de realidade acaba por ser questionada. “Eu tenho uma relação um pouco lúdica com a linguagem, tenho prazer em imitar estilos ou narrativas alheias. Não quero ter um estilo só, gosto de pegar uma situação meio batida e dar-lhe um novo arranjo, no sentido musical do termo. A internet é um campo aberto onde é muito fácil aparecer e igualmente fácil desaparecer. Gosto porque se parece a uma biblioteca imensa, onde a gente pode ler tudo e assimilar o que interessa”, disse ele.

Aguiar já tinha sido entrevistado por Paula Carvalho na seção Fichamento, que saiu na edição 55, em que contou que o que ele tinha tinha medo quando criança era de ser abduzido por extraterrestres. Ele também resenhou o livro de contos Pássaros na boca e Sete casas vazias, da argentina Samanta Schweblin (Fósforo, 2022): “Há um compromisso político em todas essas narrativas, que constroem alegorias sobre história latino-americana, violência de gênero e tensões sociais”.

Jessica Reinaldo escreveu sobre dois livros do chamado “novo gótico latino-americano”: Terra fresca da sua tumba, da boliviana Giovanna Rivero (Incompleta/Jandaíra, 2021), e Gótico mexicano, da mexicana Silvia Moreno-Garcia (DarkSide, 2021). “A grande diferença entre essas duas obras está no tom: a protagonista de Gótico mexicano, Noemí Taboada, garante uma jovialidade ao romance de Moreno-Garcia que o torna mais leve, e o foco da narrativa está na ficção de terror, no ‘causar o medo’. Já nos contos que fazem parte de Terra fresca na sua tumba, Rivero é sóbria em todas as suas linhas — nem o tom de absurdo de algumas das histórias consegue dar leveza aos sentimentos, tudo ali é muito rígido”, escreve Reinaldo.

José Godoy também escreveu sobre os contos de Rivero: “Nas seis histórias de Terra fresca da sua tumba — imagem que remete a uma das catarses que marcam o livro — há uma coesão que se equilibra em vários polos de recorrências: situações-limite, diálogos privados, variados matizes da violência e da morte, revelações familiares. Ao mesmo tempo, essa obra protagonizada por um diverso arco de personagens femininas pode ser lida como um mosaico do duplo estrangeiro em que se transforma aquele que migra.”

Relembre também o episódio sobre bruxas do 451 MHz e o já consolidado ensaio fotográfico da atriz Fernanda Montenegro para a edição de outubro de 2019, em que encarnou uma bruxa.

O melhor da literatura LGBTI+

Bianca Tavolari, professora e colunista da Quatro Cinco Um, recomenda a leitura de Pança de burro, da espanhola Andrea Abreu, lançado neste ano pela Companhia das Letras, com tradução de Livia Deorsola.

O primeiro romance da escritora nascida na ilha de Tenerife, mostra a relação entre duas amigas de infância nas ilhas Canárias, que, à medida que vão crescendo, descobrem-se atraídas uma pela outra e acabam também sofrendo as violências em torno dessa relação não aceita em seu local de nascimento.

Confira a lista completa de indicações dadas no podcast 451 MHz, no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro cinco um.
Apresentação: Paulo Werneck e Paula Carvalho
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Évelin Argenta e Gabriela Varella
Edição: Cláudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Para falar com a equipe: [email protected]