Repertório 451 MHz,

451 MHz #14: Maníacos por papéis, Brasil autoritário

Nosso podcast recebe o colecionador Pedro Corrêa do Lago, a historiadora Silvana Goulart, a jornalista Mariana Delfini e os professores de direito Luciana Silva Reis e Rafael Mafei

20mar2020 - 03h51

Está no ar o décimo quarto episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros! Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. No programa desta semana os temas são coleções de manuscritos e a presença autoritária na história do Brasil.

No primeiro bloco, o apresentador Paulo Werneck recebe o colecionador Pedro Corrêa do Lago, a historiadora especializada em arquivos Silvana Goulart e a jornalista Mariana Delfini para falar sobre a mania de acumular papéis. No segundo bloco, os professores de direito Luciana Silva Reis e Rafael Mafei, do centro de pesquisas Laut, que inicia parceria de conteúdo com a Quatro Cinco Um, falam sobre o autoritarismo ao longo dos anos no Brasil.

Ouça o episódio aqui e agora: 

A página Repertório 451 MHz reúne os links para o último episódio e para os livros citados, listas, além de imagens, sugestões de leitura e outras indicações para se aprofundar nos temas discutidos. 

O podcast 451 MHz pode ser ouvido gratuitamente no site da revista e também nos principais tocadores de podcasts. Ele é publicado na primeira e na terceira sexta-feira de cada mês. 

A apresentação é do editor Paulo Werneck e a direção é da jornalista Paula Scarpin, da Rádio Novelo, start-up de podcasts que produz o 451 MHz para a Associação Quatro Cinco Um. Para contribuir com a realização do podcast, convidamos você a fazer uma assinatura da Quatro Cinco Um, a revista dos livros.

Bloco 1 (4:10)
Pedro Corrêa do Lago, Mariana Delfini e Silvana Goulart

Três maníacos por papel se encontram no primeiro bloco: o colecionador Pedro Corrêa do Lago, a historiadora especializada em arquivos Silvana Goulart e a jornalista, editora e tradutora Mariana Delfini, que resenha na edição de março da Quatro Cinco Um o livro A magia do manuscrito (Taschen), sobre a coleção de Pedro — que terá parte exposta na mostra que leva o nome do livro, ainda neste semestre, no Sesc Avenida Paulista.

“A pobre da Marie Kondo está fazendo um mal enorme à pesquisa histórica”, diz Pedro em tom bem-humorado. Dono da maior coleção privada de manuscritos do mundo hoje, ele conta que começou aos nove anos de idade colecionando autógrafos. “Infelizmente a palavra perdeu o sentido original. Ela vem do grego e quer dizer escrito pela própria mão. Virou um sinônimo de assinatura. As pessoas acham que eu colo assinaturas num álbum, sei lá”, brinca ele, cuja coleção inclui uma carta de amor de Kafka, um retrato assinado que T. S. Eliot dedicou a Virginia Woolf, um desenho de Lewis Carroll e 47 páginas — com marcas de revisão — de um dos últimos contos de Machado de Assis. Aos doze, ele escrevia para personalidades do mundo todo pedindo seus autógrafos. “Eu voltava do colégio pra ver se o Miró ou se a Ágatha Christie tinham respondido a minha carta.” Responderam.

“A minha relação é conflituosa porque eu não guardo nada, sou muito desapegada da papelada, mas me emociono demais ao ver essas coleções”, diz Mariana, que acaba de traduzir o livro Cartas extraordinárias: amor, de Shaun Usher, que será lançado neste semestre pela Companhia das Letras. “Tem uma carta da Simone de Beauvoir, minha preferida, em que ela está pedindo para o Nelson Algren, seu amante, para voltar a encontrá-lo, mas só quando ele quiser. É uma coisa linda”, diz.

Arquivista Silvana Goulart mostra que era digital põe em risco a memória coletiva

A arquivista Silvana Goulart, que trabalha com o arquivo pessoal de Fernando Henrique Cardoso, discorre sobre a falta de preservação de manuscritos de figuras femininas e o despreparo das instituições de ensino: “Infelizmente, as escolas de história estão um pouco distantes da matéria-prima do historiador, que são os arquivos”.

A conversa deixa uma questão no ar: Será que a nossa vida digital compromete de alguma forma a preservação da nossa memória para as futuras gerações?

Bloco 2 (27:50)
Luciana Silva Reis e Rafael Mafei

Em março, a capa da revista traz um especial sobre direitos em tempos de exceção, feita para comemorar a parceria entra a Quatro Cinco Um e o Laut – Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo. Todos mês, traremos material produzido pelos membros do Laut. Neste bloco, Werneck recebe dois dos fundadores da instituição, os professores de direito Luciana Silva Reis e Rafael Mafei, para falar sobre autoritarismo no Brasil.

“Ainda falta no nosso debate público uma noção consistente sobre quais são as nossas liberdades condicionais, os nossos direitos de liberdades e o que efetivamente eles significam. Uma doutrina das liberdades é algo que a gente busca fomentar. De outro lado, o autoritarismo é uma onda crescente no mundo hoje, com governos que suprimem liberdades. É importante tratar desses temas”, diz Luciana.

“É benéfico que a gente fomente uma cultura de reflexão sobre liberdades. Muita coisa autoritária tem sido feita no Brasil em nome de liberdades, em nome do que seria o liberalismo”, completa Rafael. Ao longo da conversa, eles falam sobre as mudanças no ensino de direito nas faculdades brasileiras, a ilusão da política democrática, as dimensões do poder do presidente da República e a escalada do autoritarismo no país.  

Parênteses

Companhia das Letras (00:37)

Este episódio tem o apoio da Companhia das Letras, que lança neste mês o romance O que ela sussurra, de Noemi Jaffe, uma das autoras mais originais da literatura brasileira contemporânea. O novo livro da Noemi é sobre a história real de Nadezhda Mandelstam, uma jovem russa que guardou na memória os poemas de seu marido morto pela censura soviética pra evitar que fossem apagados da história. E foram essas as versões que chegaram aos nossos dias. A partir da história real de Nadezhda e Óssip, Noema Jaffe constrói um romance envolvente e único sobre o poder do amor, as agruras da repressão e sobretudo o desejo feminino e seu constante apagamento. O lançamento de O que ela sussurra, da editora Companhia das Letras, está marcado para o dia 31 de março.

Ficha técnica:
O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo para a Quatro Cinco Um
Direção: Paula Scarpin
Edição: Evelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Aline Scudeller e Vitor Hugo Brandalise
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Kellen Moraes
Gravado no estúdio Trampolim (SP).
Para falar com a equipe: [email protected]