A Feira do Livro, Literatura,

‘Os políticos se apropriaram da ficção. O papel do escritor é produzir realidade’, diz Joca Reiners Terron

Escritor brasileiro conversou sobre ficção científica e especulativa com o argentino Michel Nieva, n’A Feira do Livro

06jul2024 - 19h17 • 10jul2024 - 11h21
(Fotografias de Matias Maxx)

“O que vai acabar antes, o capitalismo ou o mundo?”, perguntou o jornalista Schneider Carpeggiani na abertura da mesa “Entre bois e mosquitos”, que reuniu os escritores Michel Nieva e Joca Reiners Terron no auditório Armando Nogueira neste sábado (6), durante A Feira do Livro.

O argentino Nieva lançou este ano no Brasil seu Dengue boy: a infância do mundo (Record), saga de uma criatura mutante no mundo pós-colapso climático. Terron é autor, entre outros, de Onde pastam os minotauros (Todavia, 2023), trama passada em um matadouro de bois no interior do Mato Grosso que acaba de ganhar o prêmio APCA de melhor romance.

Segundo Carpeggiani, os dois romances se conectam com a pergunta inicial da mesa e esse caos de mundo que foi a pandemia do covid. “Quando algo estremecedor acontece, faz com que os textos que quero escrever irrompam”, disse Terron com a voz meio rouca – da qual se desculpou, contando ter passado a noite em um karaokê com seu colega argentino. Terron foi o tradutor do romance de Nieva.

Nieva contou que seu romance também foi marcado pela pandemia. Residente de Nova York, ele via a cidade vazia e a Bolsa de Wall Street funcionando. “No meu romance, o capitalismo segue funcionando quando o mundo não existe mais.”

Ele afirmou que a Argentina tem mais casos de dengue do que de covid e, em seu livro, quis contar dessa pandemia paralela que ficou escondida. “Os microrganismos surgem para colocar nossa vaidade no devido lugar”, disse Terron.

Violência fundacional

Nieva aproveitou o encontro para perguntar a Terron sobre a escolha do matadouro (um símbolo da violência fundacional da Argentina) como ambiente de seu romance. Para o brasileiro, não há esse aspecto simbólico do matadouro na cultura brasileira, que se constrói sem falar das violências que a definem.

“A gente consome carne da pior maneira, a velhinha que compra no açougue não quer saber que aquilo ali é morte. Ou que para limpar um boi abatido se gasta 2 mil litros de água. Com o problema hídrico do planeta, essa conta não fecha”, disse Terron.

O jornalista Schneider Carpeggiani e os escritores Michel Nieva e Joca Reiners Terron

Nessa conversa de fim do mundo, a Argentina na era do presidente Javier Milei não poderia deixar de entrar. “Como é escrever ficção científica nesse momento em que o presidente [argentino] fala com cachorro morto?”, questionou Carpeggiani.

“Milei é subestimado como um idiota, mas acho que é um gênio do mal. Nesse momento, a direita argentina tem mais criatividade do que a oposição”, afirmou Nieva.

Para Terron, os políticos se apropriaram da ficção. Qual é então o papel do escritor? “Produzir realidade”, afirmou. Distorções da realidade como as de Dengue boy são, para ele, uma forma de atualizar o realismo.

“Fico ‘hashtag chateado’ quando chamam meus livros de distopia. A Netflix lança toda segunda-feira uma distopia de péssima qualidade para explorar a catástrofe atual, virou só mercado”, disse Terron, que trata do fim do mundo em seus livros, mas prefere entender como o começo de um novo mundo.

“No fundo de cada distopia há uma utopia. A capacidade crítica define a distopia que mostra uma fissura no presente e uma utopia”, acrescentou Nieva.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)