Literatura,

O horror de um tal amor

Leia tradução inédita de texto de Marguerite Duras que integra o livro ‘A dor’, que será lançado pela Bazar do Tempo

16mar2023 | Edição #68

Me disseram: “seu filho está morto.” Foi uma hora depois do parto. A madre superiora foi abrir as cortinas, o dia de maio entrou no quarto. Percebi quando a criança passou diante de mim, no colo da enfermeira. Eu não a tinha visto. No dia seguinte, eu perguntei: “Como ele era?” Me disseram: “Ele é loiro, um pouco arruivado, tem as sobrancelhas altas como você, se parece com você.” “Ele ainda está aqui?” “Sim, está aqui até amanhã.” “Ele está frio?” R. me respondeu: “Eu não o toquei, mas deve estar. Está muito pálido.” Então ele hesitou e disse: “Ele é bonito, deve ser também por causa da morte.” Eu pedi para vê-lo. R. me disse não. Eu pedi à madre superiora, ela me disse não, que não valia a pena. Me explicaram onde ele estava, à esquerda da sala de parto. Eu não podia me mover. Meu coração estava muito cansado, estava deitada de costas. Não me movia. “Como é a boca dele?” “Ele tem a sua boca”, dizia R. E todas as horas: “Ele ainda está aqui?” Diziam: “Eu não sei.” Eu não podia ler. Olhava para a janela aberta, a folhagem das acácias que cresciam sobre os aterros ferroviários da linha que contornava a clínica. Fazia muito calor. Uma noite, a irmã Marguerite estava de guarda. Eu perguntei: “O que faremos?” Ela disse: “Não quero nada além de ficar ao seu lado, mas é preciso dormir, todo mundo está dormindo.” “Você é mais gentil do que a sua superiora. Vai pegar meu filho para mim. Me deixa um momento com ele.” Ela grita: “Você não está falando sério?” “Sim. Eu queria tê-lo perto de mim por uma hora. Ele é meu.” “É impossível, ele está morto, eu não posso te dar seu filho morto.” “Eu queria vê-lo e tocá-lo. Dez minutos.” “Não há nada que se possa fazer, eu não vou.” “Por quê?” “Te faria chorar, você ficaria doente, é melhor não vê-los nesse caso, eu tenho experiência.” É o dia seguinte, por insistência, me disseram para me fazer calar: eles são queimados. Era entre 15 e 31 de maio de 1942. Eu disse a R.: “Eu não quero mais visitas, só você.” Deitada sempre de costas, face às acácias. A pele do meu ventre colava em minhas costas de tanto que eu estava vazia. A criança havia saído. Não estávamos mais juntos. Ele havia morrido de uma morte separada. Fazia uma hora, um dia, oito dias; morto à parte, morto de uma vida que havíamos vivido nove meses juntos e da qual ele acabava de sair separadamente. Meu ventre caiu estrondosamente sobre si próprio, um lençol usado, um trapo, um pano mortuário, uma laje, uma porta, nada além desse ventre. Ele carregou essa criança, contudo, e foi no calor viscoso e aveludado de sua carne que esse fruto marinho crescera. O dia o havia matado. Ele tinha sido ferido de morte pela solidão no espaço. As pessoas diziam: “Não foi tão terrível no nascimento, é melhor assim.” Foi terrível? Creio que sim. Precisamente, isso: essa coincidência entre sua vinda ao mundo e sua morte. Nada. Não me restava nada. Esse vazio era terrível. Eu não tinha tido um filho, sequer por uma hora. Obrigada a imaginar tudo. Imóvel, eu imaginava.

Esse que está aqui agora e que dorme, esse, agora mesmo, riu. Ele riu de uma girafa que acabávamos de lhe dar. Ele riu e isso fez o barulho de um riso. Estava ventando e uma pequena parte do barulho desse riso chegou a mim. Então eu levantei um pouco a cobertura do seu carrinho, e lhe devolvi sua girafa para que ele risse novamente e engolfei minha cabeça na capota para captar todo o barulho do riso. Da risada do meu filho. Eu coloquei minha orelha contra a concha e escutei o barulho do mar. A ideia de que esse riso se dispersou no vento era insuportável. Eu o peguei. Fui eu que o tive. Às vezes quando ele boceja, eu respiro sua boca, o ar de seu bocejo. “Se ele morrer, eu terei tido esse riso.” Eu sei que isso pode morrer. Mensuro todo o horror de um tal amor.

Tradução de Laura Mascaro do original “L’horreur d’un pareil amour”, de Marguerite Duras, publicado na revista Sorcières. Les femmes vivent, n° 4, 1976, p. 31. O texto foi publicado novamente em M. Duras. Outside. Paris: Albin Michel, 1981. A reprodução aqui feita é do livro A dor, publicado no Brasil pela editora Bazar do Tempo.

Quem escreveu esse texto

Marguerite Duras

Matéria publicada na edição impressa #68 em abril de 2023.