Literatura brasileira,

Amigos relembram vida e obra de Carlos Sussekind, morto em maio

O autor de "Armadilha para Lamartine", de 1976, teve uma parada cardíaca no dia 25, aos 87 anos

04jun2021 - 01h07 | Edição #46

Armadilha… é um dos grandes romances contemporâneos. Ele sondou, como poucos, a relação entre pai e filho: a razão da loucura e a loucura da razão. Era muito generoso. Fazia desenhos pequenos e estranhos, e os enviava aos amigos. Ruth [Lanna, editora] ganhou um com uma bela dedicatória: para você exercitar-se na ambiguidade. A ambiguidade — razão/loucura — está na raiz de sua literatura, infelizmente pouco lida.”

Milton Hatoum, escritor

“Carlos explodia talento e humor. Nada mais especial do que sentar e ouvir por horas a conversa mansa e afiada desse amigo único. Armadilha para Lamartine, escrito em sua varandola-gabinete numa intrincada DR com o pai, é o livro mais sofisticado dos anos 70.”

Heloisa Buarque de Hollanda, antropóloga

“Acabo de ler  sobre a morte de Carlos Sussekind. Tristeza. Escritor e personagem admirável. Tinha um senso de humor que corria por fora do humor modernista, da ironia machadiana ou do contador de história (Ariano), algo como uma astúcia infantil, arteira, parecida mas sem a solenidade dos surrealistas.

Uma história com Carlos Sussekind

Ganhamos ao mesmo tempo a Bolsa Vitae de literatura. Ele, para escrever O autor mente muito; eu, para escrever O motor da luz. Prazo: um ano. 

Começou a agonia. Carlos e eu nos vigiávamos discretamente para saber se o outro avançava. Um dia me disse:

— Estou escrevendo normalmente.

E eu:

— Como foi isso?

— Minha filha (não me lembro qual) me levou a um homeopata unicista. Numa galeria em Ipanema. Conversou comigo umas duas horas e depois me receitou uma fórmula em uma pílula. Tomei, no outro dia estava escrevendo sem problema algum.

— Que coisa. Eu também quero uma pílula dessas. Como era o nome do homeopata?

— Não me lembro — ele tomava outras medicações que afetavam a memória, dizia. — Vou perguntar a minha filha e ligo pra você logo que souber.

Dia seguinte, telefona Carlos:

— Zé.

— Oi, Carlos. E o homeopata?

— Minha filha me garantiu que nunca houve esse homeopata.”

José Almino de Alencar, poeta 

“Soube agora, o que aumenta a tristeza do fato de que Armadilha para Lamartine só será lido daqui a mil anos, como uns hieróglifos que registram que um dia vagou um homem de imaginação pela extinta Terra Brasilis.”

Joca Reiners Terron, escritor, pelo Twitter

“Carlos tinha uma coisa com o número 33. Sabia que havia uma chave nele. Juntos, procuramos muitas vezes qual seria. Jogamos associados na Mega Sena, na loteria… Eu participava com o número que me perseguia, o 44. Nunca encontramos. Tenho certeza de que a resposta está em algum lugar.

Foi o Nirlando Beirão quem me falou pela primeira vez de Armadilha para Lamartine, num jantar na minha casa da rua Madre Teodora. Um livro cult, ele disse. Publicado em 1976. Na época eu era editora na Brasiliense e estava muito entusiasmada com uma estantezinha de literatura brasileira que havia inventado, a Espaço Brasileiro.

Fui atrás do Carlos Sussekind. Acho que foi o Chico Alvim, amigo comum, que fez a ponte. A Armadilha saiu na coleçãozinha em 91, com um desenho incrível do Carlos na capa. Um autorretrato lendo, na cama, na época dos acontecimentos narrados no livro.

Não me lembro quando foi que nos conhecemos em pessoa, mas lembro especialmente de uma manhã de 1997 em que fui esperá-lo na rodoviária. Ele vinha a São Paulo para entregar uma tradução para o Charles Cosac, que acabava de fundar sua editora. Fomos até o incrível apartamento do Charles na av. São Luís. Depois almoçamos. Daí em diante nos vimos muitas vezes. Estive na varandola-gabinete de seu apartamento no Leme, numa ida a um supermercado fomos sorteados para ganhar um chocolate (ele achou que de alguma forma era obra do 33), entrevistei-o numa mesa ao ar livre no Instituto Moreira Salles no Rio, para uma matéria na revista Serrote… Ele me deu desenhos que estão na parede de minha sala.

Essa saudade não vai passar.”

Heloisa Jahn, editora 

“Uma prosa originalíssima, um sujeito encantador.”

Maria Emília Bender, editora

“O Sussekind foi um autor muito importante para minha geração, ele estava sendo redescoberto quando nós começamos a publicar. E acho que influenciou todo mundo. Aliava esquemas metaficcionais cabeludíssimos com muito humor, uma pretensão despretensiosa e elegante que só gênios como ele conseguem atingir. Além de tudo, sempre generosíssimo com todos nós. Um privilégio ter sido contemporâneo dele.”

João Paulo Cuenca, escritor

“Carlos Sussekind é um escritor de um talento ímpar, que nos deixa algumas pequenas obras-primas, verdadeiras joias da literatura, entremeadas de vivências e memórias. Além de sua literatura ou do traço único de seus desenhos, guardo a lembrança de uma das pessoas mais doces que já conheci.”

Jorge Viveiros de Castro, editor

“Da varandola-gabinete, via-se uma nesga de mar. Disso eu me lembro. Só não sei se foi no dia em que, com o coração aos pulos, pisei no mítico escritório de Carlos Sussekind, que ouvi falar do Monstro da Delicadeza. 

Durante anos implorei para que escrevesse essa história, ameacei até roubá-la e transformá-lo, ele mesmo, num personagem. Na história que nunca escrevi, Carlos Sussekind seria um escritor envolto em seus fantasmas, encadernados em vários volumes numa prateleira da sala, que em busca de inspiração se debruçaria diariamente na murada da varanda do nono andar, acompanhando os movimentos de uma estranha mulher que vivia nas ruas do Leme, envolta em tecidos em vez de roupas.

‘Nunca jogue fora sua carteirinha de maluco’, brincava Carlos, com aquela cara de criança travessa que nunca envelhece. ‘Ela ainda pode lhe ser muito útil.’ Talvez o surto juvenil que o tenha levado a se jogar sem roupas no mar, tão bem descrito em seu irrotulável Armadilha para Lamartine, tenha criado o elo entre o escritor que vivia num prédio antigo da rua Gustavo Sampaio e a intrigante andarilha que falava sozinha na calçada. Em minha história, em vez de anônima, a personagem seria inspirada em alguma figura lendária da cidade, como a Mulher de Branco, mais tarde Mulher de Azul, que, magra como um faquir, sobrevive até hoje alimentando-se de luz, conforme me segredou na semana passada. Quem sabe, na vida real tenha sido mesmo ela a protagonista, ou talvez fosse outra, mais uma entre tantos loucos que circulam pelas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Só sei que em meio a um jantar na mesma La Trattoria frequentada por Luiz Alfredo e Livia Garcia-Rosa, em Copacabana, que Carlos contou esta história que tão bem o define. Mas já se passou muito tempo desde aquela noite, quase dezoito anos desde que comemoramos o início da digitalização das quase 30 mil páginas dos diários de seu pai por um mutirão de amigos, cada um responsável por quinze páginas, em seu septuagésimo aniversário. Ideia da companheira, Ira Maciel, endossada pela sobrinha e fiel escudeira, a designer Irene Peixoto, que se lembram vagamente de ouvir falar na estranha mulher. Posso estar errada, inventando detalhes, com base em falsas memórias. A meu favor, tenho a dizer que o próprio Carlos já contou esta história mais de uma vez, mudando os detalhes. Não foi à toa que um de seus livros ganhou o título de O autor mente muito.

Era uma noite fria. Em busca de espaço, ele tinha feito uma limpa nos armários e malas, separado roupas e objetos já sem serventia que insistiam em passar de geração em geração. O que fazer com um casaco de pele no Rio de Janeiro? Foi quando ouviu a mulher falando sozinha na calçada. Desceu e lhe deu aquele casaco que, no passado, deve ter custado uma fortuna. A maltrapilha o encarou e, sem nunca terem trocado uma palavra, deu a Carlos Sussekind um título com que todos os que tiveram a honra de desfrutar de sua intimidade concordamos: ‘Você é o Monstro da Delicadeza!’. Não um anjo. Um monstro.”

Cristiane Costa, escritora e professora de jornalismo da UFRJ

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.