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Um livro impróprio

Diferentemente dos gibis que seu pai tentou censurar, livro de filho do prefeito do Rio é um tributo à falta de imaginação

06set2019 - 18h16

Dentre os diversos benefícios da leitura de quadrinhos na tenra idade, acredito que o mais destacado seja a contínua ampliação dos limites para a imaginação, em divertidas visitas guiadas pela interpretação dos autores. Tudo cabe nas páginas de um bom gibi. Por mais nababesco que seja o orçamento de um filme da Marvel, nunca conseguirá chegar tão longe (e tão rapidamente) quanto a tangibilização gráfica das mentes de criadores como Stan Lee, Jack Kirby, Roy Thomas, Steve Englehart, John Buscema, Jason Aaron ou Sara Pichelli.

Marcelo Crivella Filho provavelmente não leu muitos gibis na vida. Seu livro Mente Nova Vida Nova é de uma falta de imaginação aterradora. Entre esquemas e organogramas para “reprogramar” a mente, uns exercícios práticos deveras muchibentos, que jamais teriam espaço em um volume do Almanacão de Férias da Turma da Mônica.

A obra começa revelando a origem secreta do Crivella Filho. Quando morava com a família em Irecê, na Bahia, estudou por correspondência em um instituto americano. Foi assim que resolveu se tornar psicólogo. Anos mais tarde, terminou a faculdade na Califórnia, onde diz ter pagado metade dos estudos com bolsas (pois é) e serviços na comunidade local. “Obtive excelentes notas e me formei com honras em 2008”, garante logo na apresentação no livro. O resto é recheado das mais sonolentas platitudes. A boa notícia é que o sujeito não é terraplanista. “São as pessoas, não as coisas, que fazem o mundo girar”, escreve na introdução. 

É como se fosse um guia para dinâmicas de RH, e talvez estejamos falando das piores dinâmicas de RH de que se tem notícia. O primeiro capítulo termina com uma série de perguntas que parecem o papo mais chato já registrado no Tinder: 

1. O que você gosta de fazer?
2. O que te faz feliz?
3. De que você não gosta?
4. Como as pessoas à sua volta o definem?
5. Quais são seus pontos fortes?
6. Quais são os principais pontos em que você precisa melhorar?
7. Quais são os seus maiores desejos e sonhos?
8. Quais são os seus objetivos pessoais e profissionais?
9. Como e onde você deseja estar a cinco, a dez e a trinta anos?
10. Quais foram as suas maiores realizações? 
11. Quais são os seus maiores arrependimentos?

Eu juro que não inventei nada, ele realmente coloca duas linhas embaixo de cada pergunta para o pobre leitor preencher com suas respostas. Na minha cópia, respondi à questão 3 com “esse livro” e à 4 com “um masoquista”.

As obviedades xamânicas vão se acumulando de um jeito meio mal organizado, sem muita didática. No quarto capítulo, “Acreditando no Impossível”, o autor abre com a seguinte afirmação: “Aquilo em que você acredita é a base para qualquer resposta na sua vida”. Mas a frase seguinte seria de boa leitura para o Crivella pai: “Às vezes chegamos a conclusões erradas porque nos baseamos em premissas erradas”. Parece-me bastante sintomático que o nobre psicólogo parta de suas próprias experiências para tentar moldar o leitor com “ferramentas práticas” de evolução pessoal. Uma mente nova e uma vida nova, mais parecida com a dele.

Histórias em quadrinhos como a Cruzada das Crianças, aventura dos Vingadores que foi censurada pelo prefeito do Rio de Janeiro, pai de Crivella Filho, na Bienal, são ferramentas ainda mais práticas, e lúdicas, para renovar mentes, vidas e corações. Contando jornadas espetaculares de personagens comuns, que se parecem muito com pessoas que conhecemos na vida real, convidam-nos a expandir nosso entendimento sobre o próximo. Na esteira, aprendemos a exercitar a compaixão por quem é diferente de nós. 

Os Crivella precisam ler mais gibis.

Quem escreveu esse texto

Chico Barney

É jornalista.