A Feira do Livro, Literatura japonesa,

Rita Kohl e Luara França celebram legado de Leiko Gotoda e discutem desafios da tradução

A tradutora e a editora destacaram o brilhantismo das traduções da pioneira da transposição direta da literatura japonesa para o português

07jul2024 - 18h05 • 10jul2024 - 10h59
(Matias Maxx)

Principal referência em tradução da literatura japonesa no Brasil, Leiko Gotoda foi celebrada neste domingo (7) n’A Feira do Livro em um encontro entre a tradutora Rita Kohl, que verteu diversas obras japonesas para o português, e a editora Luara França, que trabalhou em edições de livros traduzidos por Gotoda e Kohl. Na mesa, devidamente intitulada “Homenagem a Leiko Gotoda”, elas conversaram com a crítica literária Gabriela Mayer, criadora do site e do podcast sobre literatura Põe na Estante.

“Esse encontro é uma oportunidade de reunir mulheres tradutoras para falar de outra mulher tradutora pioneira”, disse Mayer, lembrando que França também tem experiência na tradução, embora da língua inglesa. Ao descrever a homenageada, que aos 83 anos de idade tem saído pouco de sua casa em São Paulo, a mediadora lembrou do ineditismo do trabalho de Gotoda.

Nos anos 90, quando teve a ideia de ler para os quatro filhos adolescentes o épico japonês Musashi, de Eiji Yoshikawa, Gotoda não encontrou nenhuma tradução em português disponível. Filha de imigrantes japoneses, com bom conhecimento da língua, ela mesma decidiu fazer uma tradução integral e convenceu a então pouco conhecida editora paulistana Estação Liberdade a publicar a obra, reunida em três volumes de mais de 1800 páginas.

“Ela se surpreendeu quando o livro ultrapassou o número de leitores imaginado: ela e seus quatro filhos”, contou Mayer, lembrando de uma entrevista que fez com Gotoda e divertindo a plateia que encheu o Auditório Armando Nogueira, no Museu do Futebol.

A empreitada não só deu certo — o livro se tornou um sucesso de vendas — como abriu um novo filão editorial no Brasil, com uma série de traduções pioneiras de Gotoda direto do original, de autores como Haruki Murakami, Yukio Mishima e o Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, algo praticamente inexistente no país até então.

Rita Kohl (Matias Maxx)

”Tínhamos traduções diretas somente dentro da comunidade Nikkei e nas universidades. A Leiko abriu o caminho nas editoras”, ressaltou Kohl, que na adolescência leu justamente o Musashi traduzido por Gotoda, estudou a tradução em seu mestrado e atribui a ela seu interesse em se tornar tradutora do japonês.

Durante a conversa, Kohl e França ressaltaram também o “brilhantismo” das transposições de Gotoda. “Além de um conhecimento absurdo do japonês, o texto dela em português é impecável. Ela é uma escritora brilhante”, disse a editora, apontando que isso facilita muito seu trabalho — entre os livros traduzidos por Gotoda que França editou, estão Caçando carneiros (Alfaguara, 2014), de Murakami, e Morte na água (Companhia das Letras, 2021), de Oe.

Desafios e incentivos

Além de celebrarem Gotoda, as convidadas discutiram particularidades envolvendo a tradução do japonês. Questionada sobre como traduzir expressões ou palavras cujo sentido sequer existe em português, Kohl disse que é preciso aprender a aceitar as limitações ao verter um idioma estrangeiro. “É um processo de desapego. Temos que fazer uma coisa que funcione em português. Coisas se perdem, mas coisas se ganham também. Então prefiro olhar para o que pode sair de bom”, avaliou.

Para França, que estudou japonês por três anos mas diz ainda estar longe de falar o idioma, o desafio é estabelecer uma relação de confiança com quem traduz . “Livro traduzido você edita junto com o tradutor. Tem que contar com um tradutor em quem você confia”.

“Ainda falta muito para os tradutores serem reconhecidos, como terem seu nome na capa [dos livros] sempre”, comentou Kohl, que recentemente traduziu títulos como o sucesso editorial Onde vivem as monstras (Gutenberg, 2023), de Aoko Matsuda, e Terráqueos (Estação Liberdade, 2024), de Sayaka Murata. “Quando um escritor estrangeiro é elogiado por escrever bem, as palavras são também do tradutor”.

Luara França (Matias Maxx)

Um dos caminhos para a valorização está nos incentivos de embaixadas e instituições culturais à tradução, disseram as convidadas da mesa. “Sem isso, muitas traduções não existiriam”, destacou França.

Ela acredita que o crescente interesse de leitores brasileiros pela literatura contemporânea de países como o Japão e a Coreia do Sul é fruto dos novos horizontes abertos por escritores com olhares incomuns para nós.

“Acho que o interesse vem do desejo por coisas diferentes, há muita tradução do inglês, do francês, e certo cansaço do realismo anglófono e francófono”, disse França. “Literaturas mais distantes da gente, geograficamente mesmo, vão sempre trazer coisas novas.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista e roteirista, traduziu As aventuras de uma garota negra em busca de Deus (Bissau Livros)