A Feira do Livro,

Luiz Gama encontra André Rebouças

Ligia Fonseca Ferreira e Hebe Mattos debatem as semelhanças entre os pensamentos dos dois intelectuais e derrubam mitos sobre suas figuras

09jun2023 - 06h47 | Edição #70

Oito anos afastam o nascimento de Luiz Gama do de André Rebouças. O primeiro, terrivelmente republicano; o segundo, legalista e adepto do monarquismo durante seu tempo no exílio. E isso apenas para diferenciá-los. Entre as semelhanças, há um sem-número de similaridades: ambos intelectuais, abolicionistas e livres, durante o período histórico em que uma parcela muito diminuta da população negra poderia contar com a perspectiva — ainda que extremamente tímida — de liberdade.

Mas talvez a mais visível das similaridades esteja no plano contemporâneo, com a amizade entre Ligia Fonseca Ferreira, professora de letras da Unifesp, e Hebe Mattos, historiadora e professora da UFJF. A primeira, autora de Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro (Sesc, 2020); e a segunda, organizadora do livro Cartas da África: registro de correspondência, 1891-1893 (Chão, 2022), com as mensagens de André Rebouças, se encontraram n’A Feira do Livro, no Auditório Armando Nogueira, na tarde de quinta, 8, para um debate sobre o pensamento dos dois abolicionistas.

Mediado por Paula Carvalho, historiadora e editora de podcasts da Quatro Cinco Um, o bate-papo refletiu o ressurgimento de estudos sobre o legado de intelectuais negros que foram apagados e invisibilizados ao longo da história, muito orientado pelo interesse das novas gerações.

Ligia contou que, embora tenham vivido o mesmo momento político e tivessem amigos em comum enquanto trabalhavam no jornal Gazeta da Tarde — Gama no Rio e Rebouças em São Paulo —, o encontro entre o patrono da abolição da escravidão brasileira e o velho conselheiro Rebouças talvez nunca tenha acontecido pessoalmente. Segundo Hebe, sua ligação se deu pelo pensamento: uma abolição imediata, e sem indenização aos senhores, endossado pelo pensamento do mais velho, que acreditava que “o povo há de ser salvo por si mesmo”.

O dia da felicidade será o memorável dia da emancipação do povo. E o dia da emancipação será aquele em que os grandes forem abatidos e os pequenos levantados e em que não houver senhores nem escravos; chefes nem subalternos; poderosos nem fracos; opressores nem oprimidos. Mas em que o vasto Brasil se chamará Pátria Comum dos Cidadãos Brasileiros dos Estados Unidos do Brasil.

Depois da leitura do trecho, Ferreira disse que “as lições de Luiz Gama são lições de resistência, e continuam valendo, podendo ser lidas ainda hoje, em 2023. Gama tinha uma visão bastante idealista do que seria, num plano político e no plano da cidadania, essa pátria e esse lugar de cidadãos livres e iguais. Ele, que é um herdeiro da luta pela liberdade e igualdade.”

As professoras elencaram o papel de retomar documentos e pesquisas sobre os abolicionistas como uma função essencial de seus trabalhos, a fim de romper com diversos mitos ao redor das figuras de dois homens negros e livres vivendo naquela época. Homens que questionavam o que era o Estado de Direito numa sociedade escravista e na independência tardia.

África do lado de cá

Em um último tópico da conversa, Paula Carvalho questionou as autoras sobre as ligações de Gama e Rebouças com o continente africano. “Para Rebouças, a ida à África foi um regresso e um retorno a si; um exílio de sua terra natal, mas como um retorno à terra natal de seus antepassados. Não podemos esquecer que ele foi um dos precursores do pensamento do pan-africanismo no Brasil e inclusive escreveu um livro no continente, nunca encontrado”, disse Mattos.

Gama nunca saiu do Brasil, não foi à África ou à Europa. Filho de Luiza Mahin, africana e uma das articuladoras de levantes negros na Bahia, “Luiz Gama tinha um dicionário próprio. Se definia como um cidadão, à época: um não-escravo, não súdito, mas um cidadão político. A imagem que dá de si é próxima de como se definia ‘quero que o mundo me veja como o retumbante Orfeu de carapinha’”, afirmou Ferreira. Ainda assim, segundo a professora, Gama evocava a lógica de que toda a população negra deveria “enxergar-se como africana” com orgulho “pois para os outros, em nós, até a cor é um defeito”.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.